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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
17
mar 2016
quinta-feira 21h00 Carnaúba
Osesp: Alsop rege Verdi


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop regente
Angela Meade soprano
Michelle DeYoung mezzo soprano
Dmytro Popov tenor
Savio Sperandio baixo
Coral Lírico Paulista
Nibaldo Araneda regente
Coro Acadêmico da Osesp
Marcos Thadeu regente
Coro da Osesp
Valentina Peleggi regente preparadora


Programação
Sujeita a
Alterações
Giuseppe VERDI
Missa de Réquiem
INGRESSOS
  Entre R$ 42,00 e R$ 194,00
  QUINTA-FEIRA 17/MAR/2016 21h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

Ambientada na Lombardia do século xvii, então ocupada pela Espanha, I Promessi Sposi [Os Noivos], de Alessandro Manzoni, é a mais conhecida obra da literatura italiana depois da Divina Comédia, de Dante. O “romance dos humildes”, como é conhecida, conta as desventuras dos jovens camponeses italianos Renzo e Lucia, que têm o casamento impedido pela luxúria de um fidalgo espanhol, que representa o poder absolutista.

 

Publicado pela primeira vez em 1827, o livro retrata com extrema fidelidade os eventos marcantes do período focalizado e tornou-se modelo para a corrente literária do romance histórico italiano. A importância de Os Noivos é, entretanto, muito mais ampla. Depois de uma série de revisões — a versão definitiva é de 1842 —, a obra teve o condão de consolidar o idioma italiano a partir do dialeto toscano, superando nesse processo a discrepância entre a língua escrita e a falada. A forma linguística resultante foi, nas mãos dos escritores românticos italianos subsequentes, a ferramenta fundamental para a criação de uma literatura nacional de caráter popular. Esse foi o objetivo maior da vida de Manzoni, uma das mais importantes vozes a apoiar o Risorgimento, movimento de unificação da Itália, sonho de toda uma geração.

 

Poeta, romancista e dramaturgo, o milanês Manzoni combinava seu ardente patriotismo com um catolicismo impregnado de conceitos iluministas, aberto às ideias de liberdade, justiça e democracia. Homem de atitudes e gestos serenos, sua estatura moral tornou-se, com o passar dos anos, paradigma de virtude e comportamento.

 

Embora tenha tido muito pouco contato pessoal com Manzoni, Giuseppe Verdi o venerava como Pai da Pátria. Por isso mesmo, o compositor de La Traviata ficou estarrecido ao receber o telegrama de sua amiga Clarina Maffei que o informava do falecimento do poeta, ocorrido a 22 de maio de 1873. Manzoni havia se ferido gravemente algum tempo antes ao tropeçar nas escadarias da igreja de San Fedele, em Milão, na saída da missa. A idade cobrou seu preço — tinha 88 anos —, e o velho bardo não resistiu aos ferimentos.

 

Verdi, como de costume em situações como essa, recolheu-se a sua própria desolação. “Não irei a Milão amanhã” — escreveu a seu editor Giulio Ricordi —, “pois não suportaria assistir ao funeral. Irei em breve visitar seu túmulo, sozinho e sem ser visto, e talvez, após refletir e ter refeito minhas forças, propor alguma maneira de honrar sua memória.”

 

Numa carta a Clarina, Verdi expressou a intensidade da perda: “Eu não estive presente, mas poucos, naquela manhã, estiveram mais tristes e comovidos do que eu, embora distante. Agora tudo acabou! E, com ele, termina a mais pura, a mais santa, a mais alta de nossas glórias.”

 

Dez dias depois, com a discrição que o caracterizava, o compositor foi a Milão visitar a tumba de Manzoni. Seus amigos Ricordi e Clarina o acompanharam. Verdi permaneceu por muito tempo ao lado da sepultura, sem pronunciar uma palavra. Ao sair do cemitério, havia se decidido a compor a Missa de Réquiem em homenagem a Alessandro Manzoni.

 

No dia seguinte, em seu apartamento no Grand Hotel de Milão, Verdi escreveu a Ricordi sobre seu projeto. A Missa seria uma obra de grandes proporções, com estreia programada para o primeiro aniversário da morte de Manzoni.

Nessa mesma carta, tendo em vista o tamanho da massa orquestral e coral — além dos quatro solistas —, pedia a seu editor que consultasse o prefeito de Milão acerca da possibilidade do município cobrir os cachês dos músicos, enquanto ele próprio pagaria as cópias das partituras e regeria a orquestra e o coro na estreia.

 

O prefeito concordou, e a data foi fixada em 22 de maio de 1874, exatamente um ano depois da morte do homenageado. O local escolhido foi a igreja de San Marco, em Milão.

 

Prestes a completar sessenta anos, Verdi iniciava o longo outono de sua carreira. Às glórias passadas, somava-se o eco dos aplausos da recente Aida, e, após a composição do Réquiem, o futuro lhe reservava ainda os encontros com Otelo e Falstaff. Embora compusesse menos e com menor velocidade, continuava muito ativo, viajando com frequência para supervisionar produções de suas óperas.

 

Em junho de 1873, o casal Verdi foi passar o verão em Paris, onde o compositor iniciou a partitura da Missa, trabalhando diariamente durante os três meses em que permaneceu na capital francesa. Em setembro, de volta à tranquilidade de seus campos em Santa Ágata, dedicou-se à obra durante todo o outono e inverno. Completou a composição no início de março de 1874, mas, mesmo antes de terminá- la, como de costume, já estava cuidando minuciosamente de todos os detalhes da estreia.

 

Verdi era uma “velha raposa” do teatro. Embora se tratasse de uma obra de caráter religioso, o autor sabia muito bem como o sucesso inicial de uma nova composição poderia assegurar sua durabilidade. Utilizando-se das forças do Teatro alla Scala, reuniu uma orquestra de cem instrumentos, dez a mais do que tinha utilizado na estreia milanesa de Aida. O coro era igualmente grande: 120 cantores. Imaginem o efeito sonoro obtido por esse conjunto na Igreja de San Marco. [...]

 

Verdi só entregou as partes musicais dos solistas no momento em que eles chegaram para os primeiros ensaios de piano. Assim, pôde explicar com detalhes suas intenções e evitar que se lançassem a interpretações equivocadas (Verdi ensaiou pessoalmente cada um dos solistas à exaustão).

 

A estreia, com toda a carga de emoção causada pela união dos nomes de Manzoni e Verdi ao sabor daquela música magnífica, foi presenciada por altos dignitários italianos e estrangeiros que vieram especialmente para a ocasião. Três dias depois, Verdi retomou a batuta e conduziu a Missa de Réquiem no Teatro alla Scala.

 

Muito se discutiu — embora hoje a polêmica pareça sem sentido — se a música criada por Verdi para a Missa tinha caráter religioso ou operístico. Enquanto alguns se apaixonavam imediatamente, outros consideravam sua música exageradamente teatral. O maestro e compositor alemão Hans von Bülow, que estava em Milão naquela temporada, chegou a chamá-la de “a última ópera de Verdi, em vestes eclesiásticas”. Como era antiverdiano convicto, não precisou assistir à Missa para não gostar dela. Perdendo uma ótima oportunidade de ficar calado, fez publicar, na véspera da estreia, um aviso dizendo que não estaria presente, porque Verdi, “corruptor onipotente do gosto artístico italiano, tentaria, com sua ambição, varrer o remanescente da imortalidade de Rossini”.

 

Tendo lido a crítica de Bülow, Brahms examinou com cuidado a última partitura verdiana. Definiu- -a como trabalho de um gênio, afirmando: “Desta vez, Von Bülow fez de bobo a si mesmo”. [...] 

 

Dezoito anos depois da estreia, Von Bülow ouviu a Missa de Réquiem e chorou de emoção. Quando parou de chorar, escreveu uma carta contrita ao compositor italiano implorando seu perdão. A resposta de Verdi não poderia ter sido mais característica: “Se suas opiniões de antes são diferentes das de hoje, você fez muito bem em manifestá-las. E de resto, quem sabe, talvez você tivesse razão!” E encerrou o assunto. [2006] 

 

SERGIO CASOY é autor de Contos de Óperas e Cantos (Algol, 2009) e Ópera em São Paulo: 1952-2005 (Edusp, 2006), entre outros livros.