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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
28
ago 2016
domingo 16h00 Coro da Osesp
Coro da Osesp: Jourdain rege Obras de Compositores Franceses


Coro da Osesp
Geoffroy Jourdain regente


Programação
Sujeita a
Alterações
Maurice RAVEL
Três Canções
Poème de Stéphane Mallarmé: Soupir [Arranjo de Clytus Gottwald]
Ballade de la Reine Morte d'Aimer [Arranjo de Vincent Manac'h]
Philippe HERSANT
L'Infinito
Olivier MESSIAEN
O Sacrum Convivium
Pascal DUSAPIN
Umbrae Mortis
Philippe FÉNELON
Zwei Psalmen
Jean-Louis FLORENTZ
Asmara
INGRESSOS
  R$ 43,50
  DOMINGO 28/AGO/2016 16h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

O repertório francês do século xx para coro de câmara a cappella é bastante escasso. Três canções de Debussy, três de Ravel e nada mais muito importante digno de registro, exceto pela obra de Francis Poulenc.

 

É verdade que, na segunda metade do século, por impulso da atuação de Marcel Couraud na Radio France, ocorreu uma importante renovação do interesse pela escrita vocal polifônica, mas destinada sobretudo a pequenos conjuntos vocais em dispositivos essencialmente solísticos. De uns vinte anos para cá, vários coros profissionais de câmara surgiram na França e são órfãos de repertório.

 

O programa deste concerto demonstra essa carência: é composto por obras que são o único opus para coro a cappella do compositor (Três Canções, de Ravel; O Sacrum Convivium, de Messiaen; Asmarâ, de Florentz; Umbrae Mortis, de Dusapin); por transcrições para coro de obras destinadas a outros conjuntos (arranjos de Manac’h e de Gottwald para obras de Ravel, prática muito difundida na França, para o bem e para o mal); ou por obras compostas originalmente para conjunto de solistas e rearranjadas posteriormente para coro (L’Infinito, de Hersant; Zwei Psalmen, de Fénelon).

 

Portanto, as escolhas que orientaram a seleção foram feitas a partir de um corpus relativamente restrito. É possível identificar certa unidade estilística nessa seleção, um provável Classicismo “à francesa”, que aqui se justifica, apesar dos universos estéticos muito diferentes, de Fénelon a Dusapin, porque quase todos os compositores fazem referência a um gênero do passado: Ravel, com suas “canções”, presta homenagem à canção polifônica do século xvi; Hersant, ao madrigal italiano; Dusapin, ao contraponto erudito dos motetos do Renascimento…

 

As Três Canções de Ravel foram escritas entre 1914 e 1915, quando o compositor aguardava a partida para a guerra. Publicadas em 1916 e cantadas pela primeira vez em outubro de 1917, são um dos últimos testemunhos (em especial, “Três Belos Pássaros do Paraíso”) do mundo que caminharia definitivamente para o horror do conflito mundial. Cabe notar que os poemas, cheios de estranheza, mas também de humor, são do próprio Ravel.

 

Compostos em 1913 e apresentados pela primeira vez no ano seguinte, os Três Poemas de Stéphane Mallarmé destinavam-se originalmente a soprano e pequeno conjunto instrumental. Ravel dizia: “Considero Mallarmé não só o maior poeta francês, como também o único, pois […] exorcizou essa língua, como mágico que era. Libertou os pensamentos alados e os devaneios inconscientes de sua prisão.”

 

Tal como o Pierrô Lunar, de Schoenberg, ou os Três Poemas da Lírica Japonesa, de Stravinsky, que estrearam na mesma ocasião dos Poemas de Ravel, esse ciclo é considerado uma obra vocal fundadora da modernidade. O arranjo para coro de “Suspiro” é de Clytus Gottwald, um dos maiores regentes corais do século xx, com grande participação na cena contemporânea, conhecido hoje em dia por suas hábeis transcrições para coro a cappella.

 

Já a Balada da Rainha Morta de Amar é uma obra de juventude, da época em que Ravel estudava no Conservatório de Paris. Escrita em 1893, é considerada frequentemente a primeira obra significativa do compositor, ainda muito influenciado pelo estilo de Erik Satie.

 

A peça ficou inédita até 1975, dois anos depois do nascimento de Vincent Manac’h, compositor representativo da renovação da arte coral francesa. Manac’h revisita a Balada, orquestrando-a de maneira muito sutil para dois coros: o coro “que ressoa” age sobre o coro principal (ao qual é confiado o texto) como seu reflexo, mais ou menos como o pedal sobre a tábua harmônica de um piano.

 

Philippe Hersant estava trabalhando em L’Infinito, obra inicialmente prevista para conjunto de solistas, quando chegou a notícia da morte de Federico Fellini, em 1993. Seu último filme, A Voz da Lua, estava impregnado da poesia de Giacomo Leopardi (1789-1837), motivo da escolha desse texto magnífico. A ele se somam um prólogo e um epílogo que se valem dos primeiros versos de um hino à lua, também de Leopardi, recitado pelo personagem principal no filme de Fellini.

 

Há alguns anos, sugeri a Philippe Hersant adaptar essa peça para coro de câmara, pois me parecia que as texturas se prestavam mais a isso. L’Infinito estreou em sua nova versão (que substitui a antiga no catálogo do compositor) na interpretação do grupo Les Cris de Paris.

 

Escrita em 1937, com base numa prece atribuída a São Tomás de Aquino, O Sacrum Convivium é a única obra coral a cappella de Olivier Messiaen. Toda a face mística da personalidade do mestre está aí exemplificada: simplicidade e humildade, contemplação e deslumbramento. Trata- se de um tipo de literatura coral relativamente pouco explorado pelos grandes compositores. Esse moteto teve excepcional difusão na França e figura no repertório de numerosos conjuntos.

 

Umbrae Mortis é uma obra composta em 1997 por Pascal Dusapin, o mais famoso compositor francês de sua geração. Sua linguagem personalíssima está frequentemente impregnada de canto, e Dusapin distinguiu-se muitas vezes na arte vocal e lírica.

 

Essa peça curta foi escrita originalmente como música de cena, mas nunca foi apresentada dessa maneira. Concebida em relação direta com o Réquiem de Johannes Ockeghem (uma das primeiras composições assinadas para a missa dos mortos), Umbrae Mortis é dedicada à memória do compositor Francisco Guerrero (1528-99), como uma espécie de moteto profano.

 

Em 1997, Philippe Fénelon acabou de escrever um grande ciclo de obras para conjunto vocal de solistas com base nos poemas de Rainer Maria Rilke, concebido como um livro de madrigais. Assim como os madrigais italianos do Renascimento podiam dar ensejo à contrafacta (ou seja, sua música podia servir de suporte para textos sacros), Philippe Fénelon reutilizou duas peças desse ciclo em 2000, atribuindo-lhes um texto religioso (excertos de salmos) e destinando-os a um coro de câmara. Assim nasceram os belíssimos Zwei Psalmen [Dois Salmos].

 

Asmarâ, de Jean-Louis Florentz, foi composta e apresentada pela primeira vez em 1992 e é, sem dúvida alguma, a obra mais original de música sacra francesa da segunda metade do século xx. Além de compositor de talento, Florentz é também um etnomusicólogo respeitado, autor de importantes pesquisas no nordeste africano.

 

Asmarâ é um salmo cantado em ge’ez (ou etíope litúrgico). Os cristãos ortodoxos da Etiópia são depositários da liturgia considerada a mais antiga da cristandade (com frequência esquecemos que essa parte do mundo foi evangelizada antes da Europa). Todos os motivos melódicos e rítmicos utilizados aqui por Florentz são extraídos dessa esplêndida tradição.

 

GEOFFROY JOURDAIN. Tradução de Ivone Benedetti.