PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
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04
mai 2017
quinta-feira 21h00 Pau-Brasil
Temporada Osesp: Mechetti rege Tchaikovsky e Mussorgsky por Mignone


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Fabio Mechetti regente


Programação
Sujeita a
Alterações
Pyotr I. TCHAIKOVSKY
Sinfonia nº 2 em Dó Menor, Op.17 - Pequena Russa
Modest MUSSORGSKY
Quadros de Uma Exposição [Orquestração de Francisco Mignone]
INGRESSOS
  Entre R$ 46,00 e R$ 213,00
  QUINTA-FEIRA 04/MAI/2017 21h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

TCHAIKOVSKY
Sinfonia nº 2 em Dó Menor, Op. 17 - Pequena Russa /TCHAIKOVSKY EM FOCO

 

A escola da música nacionalista russa é muitas vezes identificada com o chamado Grupo dos Cinco, composto por Balakirev, Cui, Mussorgsky Borodin e Rimsky-Korsakov. Todavia, esse grupo nunca foi um clube fechado. Podemos lembrar a adesão tardia de um sexto componente, Liadov, assim como a existência de diversos outros compositores - como Goussakovski - que gravitaram em torno dos mesmos ideais.

 

Em 1866, Tchaikovsky mudou-se para Moscou onde lecionaria harmonia no novo conservatório dirigido por Rubinstein. O contato com o grupo de nacionalistas russos deu-se somente em 1868, quando, inflamado pelos ideais defendidos pelo Grupo, passou a revelar uma grande afinidade com a música folclórica de sua terra natal. Em 1872, essa proximidade atinge o apogeu, com a Segunda Sinfonia, chamada de “Pequena Russa”.

 

Apesar da influência dos ideais dos Cinco ter esmorecido ao longo da carreira, a música de Tchaikovsky nunca deixou de demonstrar uma profunda afinidade com as raízes russas, fossem derivadas do folclore ou da música religiosa de cunho modal. Entretanto, a frequente incorporação em sua linguagem de modelos formais da música alemã e francesa do período (especialmente das obras de Brahms e Saint-Saëns), considerada pelos outros compositores como uma concessão ao gosto da aristocracia, valeu-lhe a fama, certamente injusta, de que era um compositor essencialmente cosmopolita.

 

Embora não fosse a primeira nem a última vez que Tchaikovsky utilizaria folclore russo, a Segunda Sinfonia é provavelmente a obra mais ‘saturada’ deste tipo de referência. Do primeiro movimento, em que emprega ostensivamente a melodia da canção folclórica Rio Abaixo Pela Volga-Mãe, ao último, no qual utiliza a melodia popular chamada de A Garça, a preocupação de utilizar temas populares é dominante.

 

Antes desta Sinfonia, a carreira do jovem compositor parecia patinar – já fazia alguns anos desde o relativo sucesso alcançado com a abertura Romeu e Julieta. A estréia da Segunda Sinfonia teve, entretanto, grande impacto. A estima do público conquistada com essa obra parece ter projetado a reputação de Tchaikovsky e, mais à frente, o faria merecer o mecenato da viúva Nadezhda von Meck, o que lhe permitiu escrever as grandes obras da maturidade.

 

RODOLFO COELHO DE SOUZA é compositor, Doutor pela University of Texas (Austin) e professor da Universidade de São Paulo (USP).

 

 

MUSSORGSKY
Quadros de Uma Exposição /ORQUESTRAÇÃO DE FRANCISCO MIGNONE

 

Na suíte para piano Quadros de Uma Exposição, escrita por Mussorgsky em 1874, cada seção serve de ilustração musical para um quadro de Viktor Hartmann, amigo do compositor, falecido em 1873. Servindo-se desse mote criativo, Mussorgsky lança mão de diversos recursos composicionais inusitados em seu tempo, antecipando, ainda na segunda metade do século XIX, estruturas e sonoridades que a música moderna iria mais tarde encontrar, já na primeira metade do século seguinte. Compassos quebrados, discursos drasticamente interrompidos, modos antigos, impasses e surpresas aparecem lado a lado, enfatizando os contrastes percebidos pelo observador ao visitar uma exposição dos quadros.

 

A partir do início dos anos 1920, quando tais procedimentos já se mostravam um pouco mais familiares no ambiente da música de concerto, a peça viria a ganhar enorme projeção nas temporadas sinfônicas, particularmente após a orquestração feita por Maurice Ravel (1922). Mais adiante, em 1971, o trio inglês de rock progressivo Emerson, Lake and Palmer levaria tais sonoridades para um público ainda maior, com o lançamento do álbum Pictures at an Exhibition, uma inventiva recriação da peça feita a partir da partitura de Ravel.

 

A rara versão de Quadros de Uma Exposição que a Osesp apresenta esta semana foi orquestrada pelo compositor brasileiro Francisco Mignone (1897-1986). Segundo sua mulher, a pianista Maria Josephina, a grade orquestral, até então desconhecida, foi encontrada em uma gaveta após a morte do marido em 1986. Em entrevista concedida à Osesp, especialmente para esta ocasião, Maria Josephina destaca com entusiasmo a enorme admiração que ela e Mignone sempre tiveram pelos músicos da Rússia e aventa a possibilidade de o arranjo ter sido preparado para uma frustrada tentativa de viagem do marido àquele país.

Logo no início da primeira seção, a “Promenade” [passeio], é possível notar a busca de Mignone por uma sonoridade orquestral densa, com dobras de instrumentos e fusões entre naipes (metais, madeiras e percussão), característica esta que permanece, em termos gerais, ao longo de toda a peça. Mesmo assim há diversos momentos em que soluções sutis e singulares passam para o primeiro plano, como o solo de corne-inglês nos compassos iniciais de “O Velho Castelo”.

 

A versão de Francisco Mignone para Quadros de Uma Exposição de Mussorgsky revela o extremo domínio técnico que o compositor brasileiro possuía do organismo orquestral, além de recuperar, da partitura original, uma quinta “Promenade”, que Ravel omitiu após a ilustração do sexto quadro (“Samuel Goldenberg und Schmuyle”).

 

SERGIO MOLINA é compositor, Doutor em Música pela USP, coordenador da Pós-Graduação em Canção Popular na FASM (SP) e professor de Composição no ICG/UEPA de Belém.


Leia sobre Pyotr I. Tchaikovsky no ensaio "Tchaikovsky, Sinfonista Patético", de Richard Taruskin, aqui.