Temporada 2017
outubro
s t q q s s d
<outubro>
segterquaquisexsábdom
252627282930 1
23 4 5 6 7 8
910 11 12 13 14 15
161718 19 20 21 22
232425 26 27 28 29
303112345
jan fev mar abr
mai jun jul ago
set out nov dez
PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
12
out 2017
quinta-feira 21h00 Jacarandá
Temporada Osesp: Alsop rege Britten - War Requiem


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop regente
Emily Magee soprano
Nicholas Phan tenor
Jacques Imbrailo barítono
Coro Infantil da Osesp
Coro Acadêmico da Osesp
Coral Jovem do Estado de São Paulo
Coro da Osesp


Programação
Sujeita a
Alterações
Benjamin BRITTEN
War Requiem, Op.66
INGRESSOS
  Entre R$ 46,00 e R$ 213,00
  QUINTA-FEIRA 12/OUT/2017 21h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

BRITTEN

War Requiem. Op. 66 /O HERÓI

 

MÚSICA, POESIA E PACIFISMO: O WAR REQUIEM DE BENJAMIN BRITTEN (1)


War Requiem [Réquiem de Guerra], de Benjamin Britten (1913–76), é uma obra complexa e ambiciosa, na qual o compositor inglês buscou articular, em seu profundo rigor e escrúpulo artístico, planos muito distintos — o afetivo, o metafísico e o político. A obra é dedicada a amigos mortos ou afetados pela guerra. Ela guarda, a partir do próprio gênero escolhido, uma abertura para o sagrado, mesmo que não isenta de ambivalências; vem coroar, ainda, uma trajetória de artista (e de cidadão) densamente motivada por um ideário pacifista.


Nos termos da encomenda do governo britânico ao compositor, algo dessa complexidade já se anunciava: uma composição de grandes dimensões, de caráter sagrado ou profano, para celebrar a inauguração, na cidade de Coventry, do novo prédio da Igreja de São Miguel, erguido conforme a concepção arquitetônica de Basil Spence, ao lado das ruínas (de alguma forma incorporando-as) do antigo prédio medieval, destruído por um ataque aéreo alemão em 1940.


Entrevista no bilinguismo do título, a estrutura compósita da peça que Britten afinal realizou, executada pela primeira vez em 30 de maio de 1962, se espraia em direções variadas: o profano e o sagrado; o moderno e o antigo; a poesia de Wilfred Owen, historicamente enraizada na Primeira Guerra Mundial, ao lado do texto vetusto e solene da Missa Pro Defunctis, investido de uma validade humana geral.


Esses planos se desdobram com nitidez na distribuição das vozes e dos instrumentos. As vozes masculinas (tenor e barítono) ocupam-se dos poemas ingleses de Owen, 
a dimensão mais intimista do réquiem; a voz feminina (soprano), ocupa-se do texto latino da missa dos mortos, a vertente mais pública da obra, acompanhada por um coro adulto e por um coro infantil. Cada um desses grupos ocupa posições muito calculadas na sala de concerto e
 é acompanhado por efetivos instrumentais específicos: 
à frente, as vozes masculinas junto a uma orquestra de câmara; um pouco mais atrás, a soprano e o coro dos adultos ao lado de uma grande orquestra; em posição ainda mais recuada, o coro das crianças acompanhado por um órgão.


Um suposto modelo para Britten teria sido a Oitava Sinfonia de Gustav Mahler, igualmente composta para grande efetivo instrumental e coral, que combina o texto latino do Veni Creator Spiritus a trechos do Fausto II, de Goethe. A referência serve para lembrar a importância da tradição na criação musical de Britten, que também foi um intérprete de destaque da música dos outros, como testemunham as suas inúmeras gravações, sobretudo de Bach, Mozart, Schubert e Shostakovich, além de compositores ingleses, de Purcell a Frank Bridge (que fora seu professor).


[...]


Para a composição do War Requiem, muito mais importante do que essa frequentação da música dos outros seria o lastro do próprio Britten, compositor eclético, pela heterogeneidade de técnicas e de estilos 
— da música vocal e coral à orquestral e camerística. Ele estava pronto para a empreitada e, desse ângulo, o War Requiem é uma espécie de suma de sua criação. Britten pôs tudo nessa obra de encomenda, que desde a estreia passaria a ser considerada seu opus maior.


Havia ainda uma tradição mais específica na própria obra pregressa do compositor, que o tornava apto como poucos a escrever um réquiem de guerra: o seu pacifismo militante e sistemático. Durante a Segunda Guerra Mundial, recusou-se a lutar e foi reconhecido como “objetor de consciência” (conscientious objector). Eis o trecho inicial de sua argumentação ao tribunal: “Como eu acredito que há em cada homem o espírito de Deus, não posso destruir a vida humana, e sinto que é meu dever, até onde estiver ao meu alcance, não ajudar nessa destruição, por mais que eu desaprove as ações e as ideologias de determinados indivíduos. O todo de minha vida foi dedicado a atos de criação (sendo um músico de profissão), e eu não posso tomar parte em atos de destruição. Além do mais, eu sinto que a atitude fascista diante da vida só pode ser superada pela resistência passiva”. (2)


[...]


A interrogação, entoada pelo tenor de modo perplexo e indignado, que abre o primeiro dos nove poemas de Owen utilizados por Britten em seu réquiem — “What passing bells for these who die as cattle?” [Que sinos dobrarão por estes que morrem como gado?] — só vai encontrar resposta (e repouso) no verso derradeiro do último poema — “Let us sleep now” [Vamos dormir agora] —, cantado 
de início apenas pelo barítono, em seguida também pelo tenor, representando respectivamente o soldado alemão e o soldado inglês, reunidos antes no infortúnio das trincheiras, e agora na morte.


A melodia nesse momento se assemelha a uma canção de acalanto que vai preparar e encaminhar a missa para seu final apoteótico, em que pela primeira vez todos 
os integrantes atuam simultaneamente. É importante considerar que se chega ao geral pelo particular; e a língua moderna do poema insufla no latim litúrgico a concretude da experiência histórica — “let Us Sleep”, “requiem Aeternam” [descanso eterno], “requiescant in pace” [descansem em paz] são as expressões finais. A grande originalidade da obra reside justamente nessa alternância agônica entre os poemas de Owen e o texto latino da missa dos mortos, até esse momento final de confluência.


[...]


Britten afirmava que o War Requiem fora pensado como “reparação” aos mortos das duas guerras mundiais e a tantos outros nas demais guerras. E provavelmente ele pensava também na Guerra Fria e na Guerra
 do Vietnã, que já estavam então em curso. Mas é o sentimento do irreparável que perdura na audição dessa obra comovente e sublime.


1. Trechos do ensaio de Murilo Marcondes de Moura publicado na Revista Osesp 2017. Versão na íntegra nas páginas 66 a 70. Confira aqui.
2. Apud COOKE, Mervyn (org.). Britten: War Requiem. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, p. 15.

 

MURILO MARCONDES DE MOURA é professor de literatura brasileira da

Universidade de São Paulo (USP) e autor de O Mundo Sitiado – A Poesia

Brasileira e a Segunda Guerra Mundial (ed. 34, 2016), entre outros livros.


Leia sobre a obra War Requiem no ensaio "Música, Poesia e Pacifismo: o War Requiem de Benjamin Britten", escrito por Murilo Marcondes de Moura, aqui.