PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
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SEG A SEX – DAS 9h ÀS 18h
26
out 2017
quinta-feira 19h00 Recitais Série Especial Bach
Meneses: Suítes para Violoncelo


Antonio Meneses violoncelo


Programação
Sujeita a
Alterações
Johann Sebastian BACH
Suíte nº 1 para Violoncelo em Sol Maior, BWV 1007
Suíte nº 5 para Violoncelo em dó menor, BWV 1011
INGRESSOS
  R$ 97,00
  QUINTA-FEIRA 26/OUT/2017 19h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

BACH

Suítes Para Violoncelo


Parte relevante da música instrumental composta por Bach pertence ao breve período de seis anos (1717-23) em que trabalhou como mestre de capela na pequena Cöthen, localizada a sudoeste de Berlim, não muito distante de Leipzig. São dessa fase, por exemplo, os Concertos de Brandemburgo, o primeiro caderno de prelúdios e fugas d’O Cravo Bem Temperado, as Sonatas e Partitas Para Violino Solo (1) e as seis Suítes Para Violoncelo.


Conta-se que uma cópia do manuscrito foi encontrada pelo ainda adolescente violoncelista Pablo Casals (1876-1973), em um sebo na Catalunha, no final do século XIX. As primeiras performances datam do início do século XX, mas o primeiro registro completo em gravação, de Casals, só aconteceria entre o outono de 1936 e a primavera de 1939. E foi somente a partir daí que as peças deixaram de ser consideradas apenas exercícios e passaram a ocupar o lugar central que hoje têm no repertório para o instrumento. (2)


Todas as seis suítes são formadas por uma série de cinco danças, de diferentes origens e andamentos, que se organizam sempre em uma mesma sequência. Após a apresentação da tonalidade principal nas figurações do “Prelúdio”, seguem-se a “Allemande”, uma dança alemã de andamento moderado, a “Courante” – francesa, mais rápida –, a “Sarabande”, de origem espanhola, lenta e profunda, e uma “Gigue”, de origem britânica, mais acelerada. Mas há também, antes desse movimento final, a inserção de uma dança extra que varia dependendo do caso: “Minuet” nas suítes nº 1 e 2, “Bourrée” nas nº 3 e 4, e “Gavotte” nas duas últimas.


Assim como ocorre nas Sonatas e Partitas para violino, impressiona o domínio que Bach demonstra do então “emergente” sistema tonal que aqui se impõe em sua completude, mesmo partindo de um único instrumento, que na grande maioria do tempo emite uma nota após a outra (são poucos os momentos em que são utilizadas cordas duplas ou triplas). Observada de perto, a escrita de Bach se organiza a partir de fragmentos de motivos, sequências de escalas e acordes desmontados que vez por outra são entrecortados pontualmente por baixos. Mas uma escuta um pouco mais “à distância” do efeito do entrelaçamento dessas células revela um todo surpreendentemente amalgamado, como se cada elemento estivesse sempre ali, constituindo camadas que continuamente se sobrepõem.


Nessa rede de simultaneidades, equilibrar essas camadas, construir cada fraseado e controlar o desenrolar do tempo, tendo sempre em mente a relação do instante imediatamente presente com o mapa geral de cada suíte, são algumas habilidades com que só um intérprete experiente pode lidar. E o fato de esse intérprete ser sempre solo faz com que cada versão das Suítes de Bach seja especialmente única, desde Pablo Casals, passando por Paul Tortelier e Mstislav Rostropovich, até chegar à geração de Yo-Yo Ma e Antonio Meneses.


Em entrevista para a Revista Osesp 2017, (3) Meneses comenta o caso especial da Suíte nº 6 e como vem se preparando para o recital:


“Na Sexta Suíte, em Ré Maior, há uma particularidade: Bach escreveu essa peça para um instrumento de cinco cordas, que hoje não se usa mais. Geralmente, toca-se a Suíte nº 6 nas quatro cordas, mas é uma tortura do começo ao fim. É maravilhoso poder tocar essa obra da maneira que Bach a concebeu: isso abre possibilidades sonoras incríveis.

 

Não há muitas obras escritas para o violoncelo de cinco cordas, por isso é complicado se ter um instrumento desses. Pedi a um luthier que transformasse um instrumento barroco que eu já tinha, de maneira que se possa tocar tanto com quatro como com cinco cordas.


O desafio em São Paulo será tocar as Suítes no instrumento barroco e, em pouquíssimo tempo, passar para o violoncelo moderno para tocar o Concerto de Dvorák. (4) Tenho estudado todos os dias com ambos os instrumentos: assim a passagem de um a outro se torna natural.”

 

1. Interpretadas na íntegra em 17 de setembro por Isabelle Faust, Artista em Residência nesta Temporada da Osesp.
2. SIBLIN, Eric. As Suítes Para Violoncelo: J. S. Bach, Pablo Casals e a Busca Por Uma Obra-Prima Barroca. São Paulo: É Realizações, 2014.
3. Revista Osesp 2017, pp. 102-03
4. Nesta semana, além dos recitais das suítes de Bach, Meneses interpretará na sequência o Concerto Para Violoncelo em Si Menor de Dvorák, com a Osesp, regida por Nathalie Stutzmann, Artista Associada na Temporada.

 

SERGIO MOLINA é compositor, Doutor em Música pela USP,
coordenador da Pós-Graduação em Canção Popular na FASM (SP)
e professor de Composição no ICG/UEPA de Belém.


ENTREVISTA COM ANTONIO MENESES

 

Em 2017, o grande violoncelista brasileiro Antonio Meneses celebra seus sessenta anos. O pernambucano comemora a data com a Osesp em três concertos, sob regência de Nathalie Stutzmann. No programa, uma das obras mais queridas do público: o Concerto Para Violoncelo, de Dvorák. Duas horas antes dos concertos com a Orquestra, Meneses interpreta, a cada noite, duas Suítes Para Violoncelo Solo de Johann Sebastian Bach, apresentando assim, ao final dos três dias, a integral das Suítes do compositor alemão. Leia abaixo trechos da entrevista que Meneses concedeu em janeiro à Revista Osesp.


TODA EFEMÉRIDE É TAMBÉM UMA OPORTUNIDADE PARA BALANÇOS E PROSPECÇÕES. COMO VÊ A CENA MUSICAL BRASILEIRA, ÀS VÉSPERAS DE SEU ANIVERSÁRIO DE SESSENTA ANOS?
Bem, minha opinião é de alguém que sempre morou na Europa. O que pude observar ao longo dos últimos vinte anos é que, de maneira geral, houve uma melhora. Os casos mais notáveis são o das orquestras que temos hoje e que, quando eu era jovem, não existiam ou não tinham essa qualidade. Penso sobretudo na Osesp e na Filarmônica de Minas Gerais.


Por outro lado, o Brasil é sempre cheio de altos e baixos. Estamos num vale, e há ainda muitos “baixos”, o que é uma pena. Para ficar num exemplo recente: o fato de que a Oficina de Música de Curitiba, depois de 34 anos, tenha sido cancelada, é muito triste.


Os projetos têm que ter continuidade, não há outra maneira. Mas tudo ainda depende muito da política.


A OSESP TEM O PRIVILÉGIO DE CONTAR COM SUA PRESENÇA COM ALGUMA FREQUÊNCIA; COMO VÊ A PARCERIA ENTRE SOLISTA, ORQUESTRA E REGENTE?
Sempre tive uma ótima relação com a Osesp, desde antes da nova Osesp. Toquei muitas vezes com Eleazar e guardo belas recordações. A parceria com a orquestra e os maestros com quem pude colaborar — tanto os diferentes regentes titulares quanto os convidados — foi sempre muito boa. E as turnês de que participei com a orquestra, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, foram para mim memoráveis.


NO CONCERTO PARA VIOLONCELO, DE DVORÁK, A OSESP SERÁ REGIDA POR NATHALIE STUTZMANN, OUTRA ARTISTA COM QUEM A ORQUESTRA MANTÉM RELAÇÃO DE PROXIMIDADE. VOCÊ TAMBÉM INTERPRETARÁ A INTEGRAL DAS SUÍTES PARA VIOLONCELO SOLO, DE BACH. QUAL É SUA EXPECTATIVA COM RELAÇÃO A ESSAS APRESENTAÇÕES?
Vai ser a primeira vez que me apresento com Nathalie. Aliás, nunca vi um concerto dela ao vivo: conheço e admiro seu trabalho de gravações e de vê-la na televisão. É uma musicista maravilhosa, tanto como cantora como regente: vê-se que a música sai realmente da alma dela. E é isso que tento fazer também, que a música saia do coração. Por isso, estou convencido de que será um encontro muito feliz.


Para tocar as Suítes de Bach na Sala São Paulo, vou me apresentar com um violoncelo barroco.


E no caso da Sexta Suíte, em Ré Maior, há uma particularidade: Bach escreveu essa peça para um instrumento de cinco cordas, que hoje não se usa mais. Geralmente, toca-se a Suíte nº 6 nas quatro cordas, mas é uma tortura do começo ao fim. É maravilhoso poder tocar essa obra da maneira que Bach a concebeu: isso abre possibilidades sonoras incríveis.


Não há muitas obras escritas para o violoncelo de cinco cordas, por isso é complicado se ter um instrumento desses. Pedi a um luthier que transformasse um instrumento barroco que eu já tinha, de maneira que se possa tocar tanto com quatro como com cinco cordas.


O desafio em São Paulo será tocar as suítes no instrumento barroco e, em pouquíssimo tempo, passar para o violoncelo moderno para tocar o Concerto de Dvorák. Tenho estudado todos os dias com ambos os instrumentos: assim a passagem de um a outro se torna natural.

 

Entrevista a RICARDO TEPERMAN