Temporada 2018
abril
s t q q s s d
<abril>
segterquaquisexsábdom
262728293031 1
234 5 6 7 8
9 1011 12 13 14 15
161718 19 20 21 22
232425 26 27 2829
30123456
jan fev mar abr
mai jun jul ago
set out nov dez
PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
09
mar 2018
sexta-feira 20h30 Araucária
Abertura da Temporada 2018 da Osesp


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop regente


Programação
Sujeita a
Alterações
Gustav MAHLER
Sinfonia nº 7 em Mi Menor
INGRESSOS
  Entre R$ 50,00 e R$ 222,00
  SEXTA-FEIRA 09/MAR/2018 20h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

Falando de Música
Quem tem ingresso para o concerto da série sinfônica da temporada da Osesp pode chegar antes para ouvir uma aula em que são abordados, de forma descontraída e ilustrativa, aspectos estéticos das obras, biografia dos compositores e outras peculiaridades do programa que será apresentado em seguida.

Horário da palestra: uma hora antes do concerto.

Local: Salão Nobre ou conforme indicação.

Lotação: 250 lugares.

Notas de Programa

 

GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 7 em Mi Menor

LANGSAM (ADAGIO). ALLEGRO CON FUOCO
NACHTMUSIK [NOTURNO] I: ALLEGRO MODERATO
SCHERZO: SCHATTENHAFT. FLIESSEND, ABER NICHT SCHNELL [SOMBRIO.FLUIDO, MAS NÃO         RÁPIDO]
NACHTMUSIK [NOTURNO] II: ANDANTE AMOROSO
RONDO FINALE: ALLEGRO ORDINARIO. ALLEGRO MODERATO MA ENERGICO

1H17MIN

 

Em 1904, no auge da carreira de regente e já gozando de sólida reputação como compositor, Gustav Mahler enfrentou um momento de desoladora seca criativa. Seguindo o padrão corrente de procurar inspiração em cenários naturais impactantes, foi para as montanhas do Tirol em busca da almejada renovação das ideias. Lá, começou a esboçar os temas que viriam a ser os movimentos pares de sua 7ª Sinfonia, as duas “Nachtmusik” (Noturnos).


No ano seguinte, novo período de aridez mental o levou às montanhas Dolomitas, mas dessa vez a bela paisagem não lhe ofereceu estímulo. Foi na volta da viagem frustrante que o som ritmado dos remos na água serviu de fagulha para a introdução de sua sinfonia mais extensa. Aos dois noturnos, compostos no ano anterior, faltava um fio condutor, que orientasse a escrita dos movimentos externos. A partir do caráter da introdução, o 1º, 3º e 5º movimentos foram compostos em rápida sequência, no incrível espaço de um mês; mas, depois de terminar a composição, Mahler decidiu engavetá-la. Temia que fosse mal recebida, e só a trouxe a público em 1908, em Praga. Alterou detalhes até a estréia. E, se não chegou a ser rejeitada, a sinfonia também não causou maior entusiasmo.


Ainda hoje ela continua sendo a mais polêmica das obras de Mahler. Longa, ambiciosa, audaciosa, com instrumentação inaudita, texturas densas, revolucionária exploração de sonoridades, movimentos aparentemente desconexos (apesar de uma simetria geral que organiza a estrutura), não é peça fácil, que agrada de imediato. Se as sinfonias que a precedem têm um “programa” relativamente simples de seguir, esta não conta uma história linear, e exige do ouvinte imaginação e concentração. Mahler explora dissonâncias ardidas e modulações bruscas que levam a tonalidades distantes. Expandindo ao máximo o estilo vienense, em um exagero que pode parecer pesado, carregado de cores e intenções a ponto de se tornar difícil de digerir, essa é uma obra que aponta para o século seguinte e constitui o apogeu da escrita sinfônica do autor. Talvez para nós, que vivemos numa época que valoriza a fragmentação e a simultaneidade, a própria falta de homogeneidade e o excesso de informações constituam atrativo especial.


Na introdução, a marcha fúnebre, sugerida pela cadência inspirada nos remos, é quebrada pelo ritmo pontuado dos metais e madeiras, que provêm um fluxo de energia constante. O movimento é longo e imponente, fazendo uso dos metais, que tradicionalmente retratam a inevitabilidade do destino. Curiosamente, a percussão, ao invés de reforçar a carga dramática desta simbologia, aparece como elemento de alívio e alegria. Poderíamos facilmente imaginar uma viagem noturna de carruagem por uma paisagem nevada. Não é viagem desprovida de perigos, mas o ponto focal da música, antes de ser a ameaça escondida, é o deslumbramento com o poder e a beleza do ambiente, uma espécie de imersão no fatalismo.


O primeiro noturno, nostálgico e com ecos de bandas militares, teria sido inspirado pelo quadro “A Ronda Noturna”, de Rembrandt. Se antes a natureza dominava a cena em toda a sua força, aqui ela está presente, porém mais amena. As madeiras emulam cantos e arrulhos de aves, e frases começadas por um instrumento são finalizadas por outro, em jogo delicado de ecos e transformações por expansão. O início exuberante vai sendo permeado de mistério, com a adição de passagens de indisfarçada sensualidade que se insinuam em meio à marcha. A escrita é gentil e poética, e mesmo as ousadias de linguagem, como o arco percussivo nas cordas, não têm intenção de agredir, mas sim de criar variedade de timbre.


O Scherzo que se segue é fantasmagórico e assustador, mas de maneira tão estereotipada que carrega em si sua negação, como uma paródia do clima de pesadelo que associamos à noite. É uma dança macabra, em que os instrumentos convidados a bailar parecem estar procurando a pulsação, sem conseguir encontrá-la. Os acentos em tempos fracos e a falta de “chão” tonal criam uma valsa distorcida em que há uma corrente de ansiedade sob o lirismo sempre prestes a se esfarelar. A ênfase do movimento está na volatilidade, na incompletude, na abstração, e ele é o mais curto da sinfonia justamente para não dar ao ouvinte a chance de desvendá-lo por completo: quando começamos a entender um ritmo ou um pensamento, ele se desfaz no ar. O movimento termina repentinamente, em gesto paradoxalmente gracioso.


O segundo noturno, deliciosamente arcaico, enfatiza as cordas dedilhadas, acrescentando à harpa os timbres inusitados do violão e do bandolim, que aparecem pela primeira vez em obra sinfônica. A orquestra tem a massa abrandada para estabelecer o efeito de serenata noturna. Notamos uma oposição constante entre a textura latina, sensual, leve e despreocupada dos solistas e as vozes mais densas e escuras do grupo orquestral, como em uma releitura do concerto grosso barroco. A intervenção camerística sutil no todo orquestral funciona como metáfora para o próprio ato de ir a um concerto: uma inserção de beleza no cotidiano brutal.


O Rondo Finale, que começa de maneira explosiva, já foi descrito como a luz do dia que irrompe, com suas feiras, quermesses, balbúrdias e atribulações.  Geralmente o Rondó é uma forma em que há um estribilho recorrente, mas aqui o retorno se dá por caminhos pedregosos e inesperados, e o tema vai se modificando e descaracterizando a cada volta. Talvez seja a música mais moderna de Mahler, com súbitas mudanças de caráter, superposições, frases interrompidas, guinadas violentas, caos constante, e sequências de intervalos de quarta que criam sensação de instabilidade e desconforto. Ao final, o tema principal do primeiro movimento é reestabelecido, em uma macro-representação do próprio conceito de rondó.


Laura Rónai