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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
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04
mai 2018
sexta-feira 20h30 Paineira
Temporada Osesp: Volmer rege Beethoven e Rachmaninov


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Arvo Volmer regente


Programação
Sujeita a
Alterações
Ludwig van BEETHOVEN
Sinfonia nº 2 em Ré Maior, Op.36
Sergei RACHMANINOV
Sinfonia nº 1 em Ré Menor, Op.13
INGRESSOS
  Entre R$ 50,00 e R$ 222,00
  SEXTA-FEIRA 04/MAI/2018 20h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

Falando de Música
Quem tem ingresso para o concerto da série sinfônica da temporada da Osesp pode chegar antes para ouvir uma aula em que são abordados, de forma descontraída e ilustrativa, aspectos estéticos das obras, biografia dos compositores e outras peculiaridades do programa que será apresentado em seguida.

Horário da palestra: uma hora antes do concerto.

Local: Salão Nobre ou conforme indicação.

Lotação: 250 lugares.

Notas de Programa

LUDWIG VAN BEETHOVEN [1770-1827]

Sinfonia nº 2 em Ré Maior, Op.36 [1801-2]

ADAGIO MOLTO. ALLEGRO CON BRIO

LARGHETTO
SCHERZO: ALLEGRO
ALLEGRO MOLTO

32 MIN

 

/INTERVALO


SERGEI RACHMANINOV [1873-1943]

Sinfonia nº 1 em Ré Menor, Op.13 [1896]

GRAVE. ALLEGRO MA NON TROPPO

ALLEGRO ANIMATO
LARGHETTO
ALLEGRO CON FUOCO

42 MIN

 

 

LUDWIG VAN BEETHOVEN

Sinfonia nº 2 em Ré Maior, Op.36 /AS NOVE SINFONIAS


Dizer que Beethoven está no centro do cânone da música de concerto não é somente uma frase de efeito. Ao redor dele, parecem girar passado e futuro, tradição e inovação, alimentando uma visão cíclica, e não linear, da história. Sua Sinfonia nº 2, herdeira intencional de Haydn e Mozart, é também uma premonição de sua própria Nona Sinfonia, tanto pelo contraste quanto pelo dinamismo característicos de um compositor determinado, em suas próprias palavras, “a seguir um novo caminho”.


O caráter predominantemente luminoso e até cômico da Sinfonia nº 2 enfraquece a análise simplista da sincronia artístico-biográfica. À época dessa composição, Beethoven confessou a um amigo médico que seus ouvidos zumbiam noite e dia e que ele chegava a evitar o contato social, temendo que seus inimigos percebessem sua perda auditiva. Em 1802, aconselhado a descansar da agitação de Viena, passou uma temporada na aldeia de Heiligenstadt — onde, além de terminar a Sinfonia, escreveu uma carta-testamento a seus irmãos, considerando seriamente o suicídio, que só não se concretizou graças à convicção íntima do valor de sua genialidade musical.


Ao estrear em 1803, a Sinfonia nº 2 foi recebida pelos críticos com adjetivos como “colossal”, “difícil” e — definição mais frequente à época —“bizarra” (mal sabiam o que os esperava na Sinfonia nº 3 — Eroica, dois anos mais tarde). Haydn procurou várias vezes realçar o efeito de seus movimentos iniciais com uma introdução lenta; Mozart, na Sinfonia nº 38 — Praga, fez o mesmo, com uma textura orquestral bastante elaborada. Mas Beethoven levou esse recurso ao paroxismo, ao carimbar, com força, a carga expressiva da introdução no restante da obra.


A potência do ritmo pontuado, o contraste entre desenhos temáticos mais amenos e intervenções ágeis — mas repletas de significado motívico — dos violinos e sopros do “Adagio Molto”, transferem-se, como que por osmose, tanto ao “Allegro Con Brio” inicial quanto ao último movimento. O primeiro tema do “Allegro Con Brio” se presta a desenvolvimentos sequenciais e à construção de alguns picos de intensidade, sem jamais perder a leveza e a propulsão. Já o segundo tema, de caráter marcial, é todo derivado da introdução, e seu desenvolvimento leva a sucessivas “crises”, que abrem espaço a soluções engenhosas. A técnica do encurtamento progressivo das frases, tão característica de Beethoven, garante o engajamento do ouvinte. O “Larghetto” mostra, mais uma vez, a dívida de Beethoven com Haydn, ao fazer uma simples canção percorrer um árduo percurso harmônico — e emocional — à medida que se desenvolve. Mas a diferença também é clara: Beethoven não está interessado nas evocações folclóricas de Haydn ou no sensualismo de Mozart; ele busca, em seus movimentos lentos, retratar o sublime.


O terceiro movimento marca outra inovação: temos um “Scherzo: Allegro” — bem mais rápido que o habitual minueto sinfônico — construído sobre um econômico motivo de três notas, o que aumenta a impressão de vigor do todo. O final, “Allegro Molto”, foi o principal alvo da incompreensão de seus contemporâneos. Eles já estavam acostumados às excentricidades de Haydn, mas Beethoven foi ainda mais audacioso. O tema inicial parece uma provocação: três gestos curtos, jocosos e impertinentes, que percorrem uma oitava e meia em dois segundos e seguram a atmosfera de galhofa até o fim, incorporando episódios dramáticos que contrastam com um excesso de energia à beira do absurdo. É Beethoven enfrentando a tragédia pessoal com sua comédia sublime.


[2009]

 

FÁBIO ZANON é violonista, professor da Royal Academy of Music de Londres

e autor de Villa-Lobos (Coleção “Folha Explica”, Publifolha, 2009). Desde 2013, é o

coordenador artístico-pedagógico do Festival de Inverno de Campos do Jordão.

 

 

RACHMANINOV

Sinfonia nº 1 em Ré Menor, Op.13


Será que a história da música seria diferente se Alexander Glazunov não tivesse perdido o juízo enquanto regia a primeira apresentação da Sinfonia nº 1 de Rachmaninov? Nos seus melhores momentos, as sinfonias belamente trabalhadas do próprio Glazunov beiram a grandeza. Talvez se não bebesse tanto, elas não apenas beirassem a grandeza. Infelizmente, sua própria carreira não foi a única a ser atrapalhada pela bebida. Aos 23 anos, Rachmaninov tinha passado dois anos trabalhando em sua primeira sinfonia, cujos clímax irrompem de células melódicas tomadas do canto ortodoxo. Não que Glazunov tivesse percebido isso. Ele mal olhou a partitura antes da estreia. Naquela fatídica noite de 1897, regeu “como um zumbi”, de acordo com um relato. Cada parte da orquestra estava em um lugar. O pobre Rachmaminov se escondeu durante a apresentação e depois correu para a rua para fugir das vaias.


A posteridade não colocou toda a culpa em Glazunov. É comum que se afirme que, mesmo numa bela performance, a Sinfonia nº 1 é basicamente um desastre musical.

 

Bobagem — recorro a Mark Morris, cujo A Guide to 20th - Century Composers (Methuen, 1996) é uma das quatro pesquisas indispensáveis sobre a música do século XX. Eis o veredito de Morris sobre a Sinfonia nº 1: “Um dos melhores trabalhos de Rachmaninov, heroico no tom, tendo óbvias dívidas com Tchaikovsky e Borodin, mas construída com um fluxo de propósito sinfônico e livre da espécie de beleza límpida e nostálgica de que a música mais tardia dele está impregnada [...]. Ela consegue fazer o que as sinfonias do próprio Glazunov tentaram com tanta frequência e sem êxito”.


Eis uma estocada que Glazunov fez por merecer, mas que não altera o fato de que se passaram dez anos antes de Rachmaninov ter coragem de escrever outra sinfonia, numa época em que ele já tinha nas costas o triunfo do Concerto nº 2 Para Piano.


Não dá para evitar pensar o que poderia ter acontecido se a Sinfonia nº 1 tivesse sido um sucesso. Rachmaninov poderia ter ido adiante e escrito sete ou oito sinfonias. Nós teríamos um ciclo russo que rivalizaria com os de Prokofiev e Shostakovich. Nada contra o sarcasmo desenvolto de um e a frieza de cortar os pulsos do outro, mas seria bom ter uma alternativa.


Rachmaninov é um compositor intrigante, esquivo e imenso. Nada daquilo que certa vez o pianista Alfred Brendel descreveu arrogantemente como “música para adolescentes”. Esse tipo de atitude esnobe hoje parece muito mais antiquado do que qualquer coisa que o compositor tenha escrito.


Como nota de rodapé, não nos esqueçamos de que Rachmaninov foi um dos pianistas supremos do século XX. No YouTube, pode-se encontrá-lo tocando seu arranjo de Liebeslied, de Kreisler. Nos quase cem anos desde que ele fez essa gravação, ninguém igualou seus rubatos, suspensos com perfeição.


É ouvir e chorar.


[2015]


DAMIAN THOMPSON é jornalista, crítico de música
 e autor de Waiting For Antichrist: Charisma

And Apocalypse
in a Pentecostal Church
 (Oxford University Press, 2005), entre outros livros.


[Trechos de artigo publicado
 na revista The Spectator, em 18 de outubro de 2014. Tradução Rogério Galindo].

 


Leia o ensaio "A Era de Beethoven", de Arthur Nestrovski, aqui.