Temporada 2019
agosto
s t q q s s d
<agosto>
segterquaquisexsábdom
293031 1 2 3 4
56 7 8 9 10 11
121314 15 16 17 18
192021 22 23 24 25
262728 29 30 311
2345678
jan fev mar abr
mai jun jul ago
set out nov dez
PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
06
abr 2019
sábado 16h30 Imbuia
Temporada Osesp: Blunier e Wispelwey


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Stefan Blunier regente
Pieter Wispelwey violoncelo


Programação
Sujeita a
Alterações
Heinz HOLLIGER
Duas Transcrições de Liszt
Dmitri SHOSTAKOVICH
Concerto nº 1 Para Violoncelo em Mi Bemol Maior, Op.107
Jean SIBELIUS
Sinfonia nº 1 em Mi Menor, Op.39
INGRESSOS
  Entre R$ 55,00 e R$ 230,00
  SÁBADO 06/ABR/2019 16h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

HEINZ HOLLIGER [1939]
Duas Transcrições de Liszt [1986]
   NUVENS CINZENTAS [ATTACCA]
   SINISTRO
12 MIN


DMITRI SHOSTAKOVICH [1906-1975]
Concerto nº 1 para Violoncelo em Mi Bemol Maior, Op.107 [1959]
   ALLEGRETTO
   MODERATO [ATTACCA]
   CADENZA [ATTACCA]
   ALLEGRO CON MOTO
30 MIN


/INTERVALO


JEAN SIBELIUS [1865-1957]
Sinfonia nº 1 em Mi Menor, Op.39 [1899-rev.1900]
   ANDANTE MA NON TROPPO. ALLEGRO ENERGICO
   ANDANTE MA NON TROPPO LENTO
   SCHERZO: ALLEGRO
   FINALE (QUASI UNA FANTASIA): ANDANTE. ALLEGRO MOLTO
38 MIN


HOLLIGER
Duas Transcrições de Liszt


“Na transcrição não há necessidade de muita invenção: uma certa fidelidade conjugal ao original é geralmente melhor [...]. Talvez praticar a arte da transcrição (que eu basicamente inventei) por cinquenta anos tenha me ensinado a manter o equilíbrio correto entre o muito e muito pouco nesse campo” — escreveu Franz Liszt (1811-86) em uma carta em 1880.1 Liszt tinha consciência de ter elevado a atividade da transcrição de algo puramente técnico, como era entendida até então, a um fazer artístico: ao transpor uma obra para outro meio, o transcritor impinge sua concepção estética sobre o original. Liszt consagrou-se na atividade transpondo para o piano peças orquestrais e operísticas em voga à sua época. Muitas de suas obras pianísticas, reversamente, têm passagens com indicações de instrumentos orquestrais, cujo objetivo é inspirar o intérprete em relação à intenção sonora.


Nuages Gris e Unstern! são peças para piano escritas no fim da vida do compositor, em 1881, quando Liszt abandonara o virtuosismo e a grandiosidade romântica que lhe renderam fama e sucesso na juventude, e recolhera-se em uma vida monástica nos arredores de Roma. As obras desse período são austeras, concisas e harmonicamente muito arrojadas – como se o compositor estivesse procurando reduzir sua expressão apenas ao essencial. Os títulos originais dessas duas peças evocam mistérios: Nuages Gris pode ser traduzida como Nuvens Cinzentas, e Unstern!, sem correspondência em português, alude a uma estrela que traz má sorte, tendo sido traduzida para o francês como Sinistre [Sinistro].


As transcrições de Heinz Holliger [1939] — oboísta, maestro e compositor suíço que colaborou com alguns dos mais célebres compositores da segunda metade do século XX [e um grande parceiro da Osesp, que estará conosco novamente este ano] — são, no mais puro sentido lisztiano, novas obras de arte feitas a partir de suas referências. Escritas em 1987, mais de cem anos depois das originais, elas transformam as obras de Liszt em nuvens e constelações de cores e luzes ainda inimagináveis nos céus vistos pelo compositor.

 

1 KREGOR, Jonathan. Liszt as Transcriber. Cambridge University Press, 2010, p. 1.


***


SHOSTAKOVICH
Concerto no 1 Para Violoncelo em Mi Bemol Maior, Op. 107


O progressivo afrouxamento das políticas de censura soviéticas que sucedeu a morte de Stalin, em março de 1953, permitiu a Dmitri Shostakovich (1906-75) dedicar-se mais à composição de obras de seu próprio interesse. Sua relação com o governo havia sido sempre ambígua: ora aclamado como grande compositor soviético, ora severamente reprimido, Shostakovich incorporou à sua música uma ironia tão fina que, com frequência, é difícil afirmar se uma obra enaltece ou deprecia o tema de seu programa.


Em junho de 1953, ele repentinamente anunciou que estava escrevendo um concerto para violoncelo, dedicado ao amigo Mstislav Rostropovich (1927-2007), lendário instrumentista que havia sido seu aluno no Conservatório de Moscou. O colega já ansiava pelo feito, em silêncio – por recomendação da esposa de Shostakovich — e seu entusiasmo foi tamanho que, ao receber a partitura em agosto, ele aprendeu o concerto em quatro dias e o tocou de cor ao compositor. Essa proeza maravilhou Shostakovich: tendo estudado violoncelo na juventude, sabia ter composto uma das obras mais difíceis já escritas para o instrumento. Em suas memórias, Rostropovich conta que os dois ficaram tão animados que ele tocou o concerto três vezes, intercaladas a doses de vodka.


Rostropovich estreou com sucesso a obra em outubro, em São Petersburgo, com a Orquestra Filarmônica de Leningrado (hoje Orquestra Filarmônica de São Petersburgo), sob regência de Evgeny Mravinsky (1903-88).


O concerto baseia-se em um tema derivado do motivo DSCH, formado pelas notas correspondentes às iniciais do nome do compositor, em alemão (Ré, Mi bemol, Dó, Si). Apresentado logo no início pelo violoncelo solo, o tema é variado e distorcido ao longo de todos os quatro movimentos, calcando-se, contudo, em uma sólida estrutura formal. O primeiro e último movimentos, de caráter neurotizante, emolduram o lirismo do segundo movimento e a pungência do terceiro – que, na verdade, é uma longa cadência para violoncelo solo. Do segundo ao quarto movimentos, a obra deve ser tocada de forma contínua, sem interrupções.


Sete anos depois, Shostakovich dedicaria novamente a Rostropovich seu Segundo Concerto para Violoncelo.


***


SIBELIUS
Sinfonia no 1 em Mi Menor, Op. 39


Em 1892, um crítico finlandês assim definiu a música de Sibelius: “nós reconhecemos essas [colorações sonoras] como nossas, mesmo que nunca as tenhamos ouvido como tais”.2 À época, efervescia na Finlândia um movimento nacionalista, que buscava nas tradições orais referências para a criação de símbolos da identidade nacional. Politicamente, o movimento culminaria na independência do país do domínio russo, em 1917. Jean Sibelius (1865-1957), então na casa dos vinte anos, tornara-se repentinamente o grande compositor da nova música nacional ao estrear, com enorme sucesso, sua primeira obra orquestral: a Sinfonia Kullervo, baseada no Kalevala – epopeia do povo finlandês compilada (e, em certa medida, recriada) por Elias Löhnrot em 1835.


Originário de uma das famílias de matriz sueca que então formavam majoritariamente a elite na Finlândia, contudo, o próprio Sibelius aprendera finlandês como segunda língua, e precisou  investigar as tradições orais finlandesas para incorporá-las à sua música. Em 1891, logo após retornar de um período de estudos em Berlim e em Viena, ele viajou à pequena cidade de Porvoo para ouvir os cantos rúnicos – poemas épicos cantados – da griô (mestre de cultura popular) Larin Paraske, sumidade da tradição oral da Finlândia. A experiência influenciou profundamente sua produção subsequente, especialmente Kullervo, os poemas sinfônicos que o seguiram (incluindo o aclamado Finlândia), e sua Primeira Sinfonia, iniciada em 1898 e finalizada no ano seguinte. 


Embora não tenha um programa explícito, a narrativa musical da Primeira Sinfonia a conecta à saga do herói da Kalevala e ao tempo mítico de suas aventuras pagãs. O passado é revisitado, contudo, com uma linguagem harmônica moderna e ambígua, e com a coesão da forma sinfônica. Tradição oral e cosmopolitismo urbano mesclam-se e interpolam-se em um jogo contínuo.


A sinfonia começa com um rulo de tímpano em pianíssimo que parece pincelar a paisagem vasta e erma da natureza nórdica, onde ressoa a melodia de uma época distante, tocada por um clarinete solo. Logo os violinos fazem a ponte para o presente, iniciando a forma-sonata e revelando influências do romantismo tardio germânico. Reminiscências desse tempo pré-civilizatório voltam a predominar no segundo movimento, depois transformados pela ótica modernista no agitado terceiro e no dramático quarto movimentos. Compõem ainda o mosaico sonoro influências da tradição russa, que revelam a admiração de Sibelius por Tchaikovsky e outros compositores da nação da qual a Finlândia politicamente procurava se libertar.


A Primeira Sinfonia foi estreada em abril de 1899 pela Filarmônica de Helsinki sob a batuta do compositor. Sibelius revisou a obra logo depois, destruindo a versão original. Nas duas décadas seguintes, ele comporia as outras seis sinfonias que o consagraram como grande compositor finlandês do gênero – mas, novamente, destruiria o que teria vindo a se tornar sua Oitava Sinfonia.


2 HUTTUNEN, Matti. “The National Composer and the Idea of Finnishness: Sibelius and the Formation of Finnish Musical Style.” In GRIMLEY, Daniel M. (ed.). The Cambridge Companion to Sibelius. Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 50.


JÚLIA TYGEL
Doutora em musicologia (USP), Pianista, é Assessora Artística da OSESP.