PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
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SEG A SEX – DAS 9h ÀS 18h
27
fev 2015
sexta-feira 21h00 Sapucaia
Concerto de Abertura da Temporada Osesp 2015


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop regente


Programação
Sujeita a
Alterações
Christopher ROUSE
Rapture
Gustav MAHLER
Sinfonia nº 5 em Dó Sustenido Menor
INGRESSOS
  Entre R$ 45,00 e R$ 178,00
  SEXTA-FEIRA 27/FEV/2015 21h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

Terminei de escrever Rapture [Arrebatamento] em minha casa em Pittsford, Nova York, em 9 de janeiro de 2000. Encomendada pela Orquestra Sinfônica de Pittsburgh, a peça é dedicada a seu diretor musical, Mariss Jansons.

 

Deve-se notar que o título desta partitura não é “The” Rapture [“O” Arrebatamento]; a peça não está relacionada a nenhuma fonte religiosa em específico. Usei a palavra “arrebatamento” para transmitir um sentido de felicidade espiritual, seja religiosa ou não. À exceção de minha obra natalina Karolju (1990), essa é a música mais descaradamente tonal que já compus. Queria retratar uma progressão em direção a um êxtase cada vez mais ofuscante, mas a obra como Christopher Rouse um todo habita um mundo em que não existe escuridão — por isso a quase completa ausência de dissonância duradoura.


Rapture também é um exercício de aceleração gradual do andamento, que começa bem lento e, ao longo de seus onze minutos de duração, se acelera aos poucos, até atingir o ritmo perigosamente rápido dos últimos momentos. Embora muitas vezes minha música seja associada à tristeza e ao desespero, Rapture faz parte de uma série de composições — como Compline (1996), Kabir Padavali (1997) e Concert de Gaudí (1998) — que olham “para a luz”.
CHRISTOPHER ROUSE. Tradução de Rogerio Galindo.

 

 


A Sinfonia nº 5 marca o início de uma nova fase na constelação dos “mundos” criados por Mahler. Não ouvimos mais a voz humana, e nos afastamos das sugestões programáticas que orientavam as evocações heroicas ou irônicas das quatro sinfonias anteriores, ainda baseadas nos pressupostos estéticos do Romantismo tardio. No limiar da modernidade, uma célebre frase do compositor expõe os princípios de sua poética musical: “O conteúdo constantemente novo e em mutação determina sua própria forma”. Esse “novo estilo” exigia uma nova técnica, capaz de estabelecer um tenso equilíbrio entre a liberdade recém-conquistada e a mais rigorosa coerência sinfônica, o que parecia impossível na época: “A Quinta é uma obra amaldiçoada. Ninguém a compreende ou compreenderá”.


Não sem ironia, contribui também para essa “maldição” um acontecimento feliz. O próprio Mahler relata que, após seu encontro e casamento com Alma, a composição tomou um rumo diferente do planejado. O aspecto mais debatido pela crítica, logo após a estreia em 1904, foi o abrupto contraste entre a primeira parte, dominada pela reiteração obsessiva do tema da morte, e o tom apaixonado e otimista dos movimentos finais. Em seu livro Gustav Mahler, Deryck Cooke chega a se referir à Quinta como uma obra “esquizofrênica”, relembrando o diagnóstico feito por Sigmund Freud, a quem o compositor procurou anos depois, quando seu casamento e sua saúde foram abalados pelos diversos “golpes do destino” que ecoam em suas últimas obras.


Mas é no plano musical que esses contrastes e essas fraturas assumem pleno sentido e interesse. A Sinfonia nº 5 começa com um apelo solitário do trompete, num movimento que, segundo a partitura, deve ser conduzido em passo contido, “como um cortejo fúnebre”. O ritmo da marcha oscila entre o lúgubre e o elegíaco, sendo atravessado por trios melancólicos e passagens de quase desesperada alegria, nas quais a presença da morte dialoga musicalmente com o perpétuo tumulto da vida. O tema fúnebre dos trompetes retorna constantemente, interrompendo as digressões e impondo ordem ao cortejo, até se dissolver na distância.


O movimento seguinte, “tempestuosamente emocionado e com extrema veemência”, impõe enormes desafios à interpretação, pois o todo orquestral, desde os incisivos compassos iniciais, tenta se equilibrar entre a expressão melódica e rítmica de um descontrolado desespero e uma estrutura desesperadamente controlada. O esquema tradicional da forma-sonata não sobrevive a essa tensão e acaba estilhaçado pelo próprio contraste entre os temas.
A reconciliação possível não está mais garantida, e a conclusão do embate acaba vindo de fora, de maneira quase arbitrária, na figura de um exultante coral “wagneriano”, que interrompe a sucessão de fanfarras militares, grotescas canções de ninar e lamentos “selvagens”, dos quais no final ouvimos apenas os cacos.


A segunda parte da sinfonia apresenta um longo e complexo “Scherzo”, que foge da forma ternária tradicional e incorpora procedimentos típicos de um “desenvolvimento”, como na forma-sonata. Estamos longe da sombria primeira parte, mas a aparente simplicidade dos temas esconde uma ainda maior complexidade da estrutura musical. Valsas refinadas e populares, ao lado de evocações de outras danças, giram em torno de algo que o próprio Mahler chamou de “caos que engendra continuamente um novo mundo, destinado a desaparecer no nada”. O fluxo dos temas e motivos é retomado e rompido a cada instante, sempre em novas configurações, alcançando momentos de pungente lirismo ou desembocando em fugatos e ecos que antecipam os contrastes da música expressionista, uma geração mais tarde.


A última parte da obra é aberta pelo conhecido “Adagietto”, escolhido para a trilha sonora do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti. No contexto da Sinfonia, essa peça coloca em cena uma nova ruptura, composta por longas e oscilantes frases das cordas e da harpa, sobre uma harmonia indecisa e um ritmo ansiosamente lento. Na origem desse movimento, encontramos duas citações contraditórias, relacionadas ao contexto do encontro com Alma (a quem a partitura foi enviada, como uma declaração de amor): a canção “Ich bin der Welt abhanden gekommen” [Estou perdido para o mundo], composta um ano antes pelo próprio Mahler; e o motivo do apaixonado olhar entre os amantes, na ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner.

 

Após o introspectivo “Adagietto”, o último movimento nos surpreende com uma animada conversa entre os sopros, num clima quase pastoral. Os temas principais são apresentados de maneira simples e direta, mas novamente Mahler subverte a tradição, reelaborando com ironia a forma desse rondó. Passagens joviais e virtuosísticas são entremeadas por diálogos quase camerísticos, enquanto um conjunto de fugatos teima em interromper a habitual reexposição dos temas, até que um hino de incontida felicidade reúne todas a vozes num final claramente otimista. Ao expor sem medo, em seus mundos sinfônicos, os contrastes que dão forma às contradições de seu próprio mundo, Mahler reafirma para todos nós a esperança de que novos conteúdos, tanto artísticos quanto sociais, possam escapar da morte e um dia alcançar as formas que merecem. [2011]
JORGE DE ALMEIDA é doutor em Filosofia e professor de Teoria Literária Comparada na USP. Tradutor e ensaísta, é autor de Crítica Dialética em Theodor Adorno – Música e Verdade Nos Anos Vinte (Ateliê, 2007). Leia também o ensaio “Os Mundos de Mahler”, de Jorge de Almeida, no site www.osesp.art.br.

 

 

 

CHRISTOPHER ROUSE 
Rapture [Arrebatamento] [2000]
11 MIN

 

GUSTAV MAHLER 
Sinfonia nº 5 em Dó Sustenido Menor [1901-2]
- Trauermarsch (Marcha Fúnebre)
- Stürmisch bewegt, mit grosster Vehemenz
(Tempestuosamente Emocionado e Com Extrema Veemência)
- Scherzo: kräftig, nicht zu schnell [Forte, Não Muito Rápido]
- Adagietto. Sehr langsam [Muito Lentamente]
- Rondo Finale: Allegro
68 MIN