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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
SEG A SEX – DAS 9h ÀS 18h
14
set 2017
quinta-feira 10h00 Ensaio Aberto
Ensaio Aberto: Penderecki e Faust


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Krzysztof Penderecki regente
Isabelle Faust violino
Coro Acadêmico da Osesp
Coro da Osesp


Programação
Sujeita a
Alterações
Krzysztof PENDERECKI
Hino a São Daniel
Karol SZYMANOWSKI
Concerto nº 1 Para Violino, Op.35
Krzysztof PENDERECKI
Sinfonia nº 4 - Adagio

 

Durante o Ensaio podem acontecer pausas, repetições de trechos

e alterações na ordem das obras de acordo com a orientação do regente. 

INGRESSOS
  R$ 10,00
  QUINTA-FEIRA 14/SET/2017 10h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

PENDERECKI

Hino a São Daniel /COMPOSITOR EM RESIDÊNCIA
SZYMANOWSKI

Concerto nº 1 Para Violino, Op.35

PENDERECKI

Sinfonia nº 4 - Adagio


No cenário musical dos anos 1950, várias correntes apresentavam-se como opção para os jovens compositores: experiências-limite do serialismo pós-weberniano de Pierre Boulez, música eletroacústica como a de Stockhausen, a música “estocástica” do grego Iannis Xenakis e, já nos anos 1960, as primeiras criações minimalistas dos norte-americanos Phillip Glass e Steve Reich. Isso sem falar da sedutora música popular, que se lançava para além das fronteiras da música de entretenimento, com o free jazz ruidoso de John Coltrane e as montagens de sonoridades do rock britânico.

 

Nascido em 1933 na Polônia, Krzysztof Penderecki começou a se destacar justamente por não se alinhar diretamente a nenhuma dessas estéticas principais: “um caminhante solitário, evitando as estradas pavimentadas das tendências dominantes”, definiu-o bem Mieczyslaw Tomaszewski em seu ensaio sobre o compositor, na Revista Osesp 2017.


O Hino a São Daniel, que abre o programa desta semana, foi composto em 1997 e pertence a uma fase em que as consonâncias voltaram a ter um papel relevante na obra de Penderecki. Escrito para coro, madeiras (clarinetes e fagotes), metais, percussão e apenas o contrabaixo do naipe de cordas, tem seu próprio vocabulário melódico- harmônico, que se transforma continuamente em seções contrastantes, habilmente interligadas rumo ao êxtase final. Em uma entrevista recente para a televisão de
 Hong Kong, ao comentar o fato de muitas músicas se iniciarem com uma pequena ideia que pouco a pouco vai se transfigurando, o compositor sintetiza: “acredito que todas as peças que escrevi são metamorfoses”.

 

Identificar metamorfoses no trato orquestral pode 
ser uma estratégia para a escuta do já centenário Concerto nº 1 Para Violino (1916) do também polonês Karol Szymanowski. (1) Ao contrário de sua Abertura de Concerto, Op.12 — interpretada pela Osesp, sob regência de Marzena Diakun, em abril —, que se baseava em referências estilísticas do final do século XIX, o Concerto nº 1 tem uma escrita precocemente moderna, com atmosferas variadas, fusões e sobreposições de camadas sonoras, e uma radical exploração do instrumento solista, que antecipa em duas décadas algumas soluções encontradas depois por Béla Bartók. A peça se estrutura em um único movimento contínuo de cerca de 18 minutos, que anuncia uma cadência composta pelo violinista Paul Kochanski, a quem o concerto foi dedicado.

 

Encomendada pela Radio France por ocasião do bicentenário da Declaração dos Direitos do Homem e 
do Cidadão em 1989, a Quarta Sinfonia de Penderecki — peça que encerra este programa totalmente dedicado à música polonesa —, traz o subtítulo Adagio. Trata-se aqui muito mais de uma indicação de caráter — reforçando a densidade e a concentração sempre presente — do que uma indicação de andamento.

 

Logo no início, e em muitos momentos, ainda que
 em segundo plano, há uma nota longa sustentada, inicialmente um dó, depois um sol, sempre a envolver esboços de melodia, ora insinuados nas violas, ora no corne-inglês. Contrapontos aqui e ali são sugeridos, suscitando desdobramentos dessas pequenas células, que aos poucos colocam a música em curso, livrando-a do impasse que a imobilizava, criando engrenagens e somando forças para erguer e amparar as arquiteturas, por sua vez logo desconstruídas. Desenhos motívicos de Shostakovich e massas orquestrais de Bruckner podem ser evocados, sempre filtrados pela lente generosa do olhar inventivo de Penderecki. Mais adiante, a meio caminho, novas seções de estase são criadas; trêmulos nas cordas são riscados por sons agudos nas percussões, um lamento ao fagote, um toque fúnebre, e a espiral volta a se formar. A Sinfonia segue nesse vaivém, entre montagens
 e abandonos, até seu desenlace final. Ao retornar pela última vez à nota dó, restam apenas as cores mais graves: um solo de clarone, toques no tímpano, uma campana ao longe, violas em pizzicato.

 

Quando não está regendo e difundindo música mundo afora, Penderecki se recolhe para criar em sua fazenda no sul da Polônia, cercado por uma floresta por ele mesmo cultivada há mais de 40 anos. Como o próprio compositor explica, organiza-se como “um mundo em si, meu universo, em cuja harmonia sou capaz de moldar a mim mesmo”. É desse lugar que provém essa música, tão particular quanto essencial, a música de um “caminhante solitário” em constante metamorfose, próximo de completar 84 anos.


1. Ao violino teremos a “Artista em Residência” da Osesp em 2017, a alemã Isabelle Faust.

 

SERGIO MOLINA é compositor, Doutor em Música pela USP,
coordenador da Pós-Graduação em Canção Popular na FASM (SP)
e professor de Composição no ICG/UEPA de Belém.
 


Leia o ensaio “Penderecki: Rebelião e Libertação”, de Mieczyslaw Tomaszewski, aqui.

 


 

Leia o ensaio "O Desafio de Interpretar um Grande Mestre", de Isabelle Faust, aqui.