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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
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01
dez 2018
sábado 16h30 Jequitibá
Temporada Osesp: Osesp 60 - Guerrero rege Bruckner


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Giancarlo Guerrero regente


Programação
Sujeita a
Alterações
Anton BRUCKNER
Sinfonia nº 7 em Mi maior

 

OSESP 60
Apresentação de uma hora, sem intervalo, seguida de uma conversa entre solistas, maestro e público.

INGRESSOS
  Entre R$ 50,00 e R$ 222,00
  SÁBADO 01/DEZ/2018 16h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

Falando de Música
Quem tem ingresso para o concerto da série sinfônica da temporada da Osesp pode chegar antes para ouvir uma aula em que são abordados, de forma descontraída e ilustrativa, aspectos estéticos das obras, biografia dos compositores e outras peculiaridades do programa que será apresentado em seguida.

Horário da palestra: uma hora antes do concerto.

Local: Salão Nobre ou conforme indicação.

Lotação: 250 lugares.

Notas de Programa

ANTON BRUCKNER [1824-96]
Sinfonia nº 7 em Mi Maior [1881-3]
- ALLEGRO MODERATO
- ADAGIO
- SCHERZO. TRIO
- FINALE
64 MIN

 

“Bruckner! Este é o verdadeiro sucessor de Beethoven como sinfonista!” – a frase, dita por Wagner (1813-1883) ao colega em uma visita a Viena em 1875, encheu Anton Bruckner (1824-96) de alegria (1). O comentário, vindo de seu ídolo, significava muito para o compositor austríaco de origem provinciana e temperamento reservado que, já na faixa dos 50 anos, finalmente gozava da reputação internacional que conquistara com esforços diligentes ao longo da vida.

 

Bruckner nasceu na pequena cidade de Ansfelden, na então rural e conservadora região norte da Áustria, em uma família modesta. Aprendeu a tocar órgão com o pai, mestre-escola que tinha entre suas funções acompanhar os serviços litúrgicos ao instrumento. Com sua morte precoce, a família encaminhou o jovem Anton para estudar no mosteiro de Sankt Florian, singelo município vizinho a Linz cuja principal atração ainda é essa construção imponente do século xviii. Ele ali selaria as bases espirituais de sua fé católica e iniciaria sua formação como organista e compositor de música litúrgica – habilidades que se tornariam suas  principais ocupações até sua maturidade. O compositor manteria laços com Sankt Florian durante toda vida, sendo enterrado sob o órgão da abadia que receberia seu nome: der Bruckner Orgel.

 

Bruckner foi um aluno dedicado e começou cedo a trabalhar arduamente. Manteve humildemente a posição de estudante até depois dos 30 anos, interessando-se inicialmente pelas obras de J. S. Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert e Mendelssohn, e depois por Liszt e Wagner – de quem se tornou um admirador tão devoto que o próprio mestre chegou a constranger-se. Galgou com persistência e prudência cada degrau de sua carreira, construída paulatinamente a despeito das recorrentes negativas na obtenção de postos de trabalho almejados e do tardio reconhecimento de seu valor como compositor. A dedicação excessiva e a preocupação com o sucesso chegou mesmo a levá-lo a um ataque de nervos, com nuances de depressão, na maturidade.

 

Bruckner só conseguiu mudar-se para a capital austríaca – com sua agitação cultural e melhores possibilidades profissionais – já na faixa dos 40 anos, quando obteve um emprego estável como professor no Conservatório de Viena. Nesse meio, rivalizava em desvantagem com Brahms, já estabelecido e bem conectado, e cuja estética mais conservadora era preferida pela alta sociedade. Não bastasse, a grandiosidade de suas obras limitava as oportunidades de sua execução, e seu wagnerianismo provocava duras críticas da imprensa.  Não obstante, Bruckner já alcançara projeção internacional, como organista e compositor de música sacra vocal, quando decidiu enveredar para a produção sinfônica (sem saber que Brahms, à mesma época, também iniciava tardiamente sua primeira sinfonia – ambos finalmente sentindo-se aptos a conviver, nessa esfera, com a sombra de Beethoven).

 

Bruckner compôs 9 sinfonias, obtendo com a Sétima o auge de seu sucesso. Escrita entre 1881-83, quando o compositor já estava perto dos 60 anos, a obra inicia-se com um tema que lhe teria sido revelado em um sonho. O caráter nobre e pungente dessa melodia projeta-se do grave para o agudo em um longo crescendo, que culmina em um fortíssimo marcado pelos trombones. Segue-se um tema que remete à dança, seguido pelo desenvolvimento e recapitulação das ideias iniciais.

 

O segundo movimento, um Adagio muito expressivo, é o mais longo e possui caráter de elegia. Talvez premonizando a morte de Wagner, Bruckner trabalhava nesse trecho quando seu mestre faleceu. Aqui ele utiliza pela primeira vez um quarteto de tubas wagnerianas, e é possível ouvir reminiscências da ópera Crepúsculo dos Deuses, que encerra o ciclo O Anel do Nibelungo do compositor alemão. A estrutura do movimento, contudo, remete ao Adagio da Nona Sinfonia de Beethoven, obra que inspirou Bruckner na composição de quase toda sua produção orquestral. Um quarteto de trombones ao final desse movimento seria reaproveitado por Bruckner em seu célebre Te Deum, finalizado no mesmo ano.

 

O terceiro movimento, Scherzo, contrasta com os dois precedentes com sua força rítmica e dinâmica, marcada já no início pelos trompetes no agudo – podemos imaginar, talvez, que eles anunciam que o mundo continua a girar... O Finale, conciso para os padrões de Bruckner, retoma ideias do primeiro movimento, agora remodeladas para incorporar um caráter mais confiante e um final apoteótico. Bruckner interrompeu a finalização da obra para peregrinar até Bayreuth – cidade onde Wagner construíra o célebre teatro dedicado à encenação de suas óperas – e render-lhe a última homenagem.

 

A Sétima Sinfonia foi estreada com grande sucesso em Leipzig em dezembro de 1884, sob regência de Arthur Nikisch (1855-1922) – quando viu a obra pela primeira vez, o maestro a considerou a melhor produção orquestral depois de Beethoven. Seguiram-se apresentações em Munique (1885) e Viena (1886), igualmente com grande êxito, rendendo elogios até de críticos habituais do compositor.

 

A obra de Bruckner foi maculada por sua utilização na propaganda do Reich. Sua incorporação como um compositor emblemático da cultura alemã legitimava, simbolicamente, a anexação da Áustria pela Alemanha, que aconteceria em 1937. E foi justamente a Sétima Sinfonia, presenteada em uma gravação ao Führer pelo próprio Goebbels – Ministro da Propaganda do regime nazista –, que Hitler utilizou para remeter ao que seria a “velha e pura austrianidade” germânica.

 

1 A anedota foi contada por Göllerich, biógrafo contemporâneo do compositor (COELHO, Lauro Machado. O Menestrel de Deus: Vida e Obra de Anton Bruckner. São Paulo: Algol, 2009, p. 102).

 

JÚLIA TYGEL
é pianista, compositora e professora na
Faculdade de Música Souza Lima e no Ensino
à Distância da UFSCar. É doutora em Música
pela USP, com estágio na City University of New
York como bolsista CAPES/Fulbright.