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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
16
ago 2018
quinta-feira 10h00 Ensaio Aberto
Ensaio Aberto: Stenz, Stefanovich e Coro da Osesp


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Markus Stenz regente
Tamara Stefanovich piano
Coro Acadêmico da Osesp
Coro da Osesp


Programação
Sujeita a
Alterações
Luciano BERIO
Quattro Versioni Originali Della Ritirata Notturna di Madrid di Luigi Boccherini
Karol SZYMANOWSKI
Sinfonia nº 4 para Piano e Orquestra, Op.60 - Concertante
Charles IVES
The Unanswered Question, S.50
Claude DEBUSSY
Noturnos

 

Durante o Ensaio podem acontecer pausas, repetições de trechos

e alterações na ordem das obras de acordo com a orientação do regente. 

INGRESSOS
  R$ 12,00
  QUINTA-FEIRA 16/AGO/2018 10h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa
LUCIANO BERIO [1925-2003]

Quattro Versioni Originali della Ritirata Notturna di Madrid di Luigi Boccherini [1975]
10 MIN 
 
KAROL SZYMANOWSKI [1882-1937]
Sinfonia nº 4 Para Piano e Orquestra, Op.60 - Concertante [1932]

MODERATO. TEMPO COMMODO

ANDANTE MOLTO SOSTENUTO

ALLEGRO NON TROPPO, MA AGITATO ED ANSIOSO 
20 MIN 
 
/INTERVALO 
 
CHARLES IVES [1874-1954]

The Unanswered Question [1908 - rev.1930-5]
6 MIN 
 
CLAUDE DEBUSSY [1862-1918]
Noturnos [1897-9] 
NUVENS
FESTAS
SEREIAS 
25 MIN 
 
 
BERIO 
Quattro Versioni Originali della Ritirata Notturna di Madrid di Luigi Boccherini 
 
Foi no século XVII que se consolidou a música de programa, modalidade artística que viria a experimentar o apogeu dois séculos mais tarde, e que buscava recriar eventos em linguagem sonora. No século XIX essa música descritiva, com o nome de poema sinfônico, seria um dos gêneros mais populares, explorado por Liszt, Berlioz, Dukas, Strauss e tantos outros compositores de peso. Luigi Boccherini, compositor italiano nascido em 1743, que trabalhou na corte espanhola por mais de 40 anos, não escreveu muitas obras do tipo, mas seu quinteto para cordas Música Noturna das Ruas de Madri se tornou um dos favoritos das salas de concerto. Como se pode inferir pelo título, evoca a fervilhante vida noturna da capital espanhola, com sete movimentos curtos cheios de inovações sonoras, temas contagiantes e clara influência ibérica. Do último movimento, “Ritirata”, Boccherini faria várias versões. 
 
Em 1975 o Teatro La Scala, de Milão, encomendou a Luciano Berio, já então um compositor famoso, uma peça para servir de abertura para a temporada. Berio optou por uma obra breve, um tema com variações para orquestra, estruturalmente simples e muito acessível tanto para os músicos quanto para a plateia. Aglutinando quatro versões de Boccherini para a Ritirata, criou um autêntico bolo em camadas, em que cada estrato acentua o sabor dos outros, acrescentando cor e textura. A cada repetição do tema a orquestra adquire mais volume e momentum, finalmente decrescendo para terminar no mesmo espírito do início. É uma obra híbrida, em que a mão de Boccherini está claramente visível, mas a personalidade de Berio transparece com igual graça. 
 
 
SZYMANOWSKI 
Sinfonia nº 4 Para Piano e Orquestra, Op.60 - Concertante 
 
O título de Sinfonia Concertante é enganador. Na verdade, a obra de Szymanowski é, de direito, um concerto para piano e orquestra. Ele já havia feito vários esboços para uma obra deste tipo, todos posteriormente descartados. Foi apenas em 1932, depois de perder o posto de diretor do Conservatório de Varsóvia, que finalmente logrou compor a peça há tanto sonhada. Esperava assim, como intérprete, encontrar mais oportunidades de trabalho. O concerto foi escrito para ser executado pelo próprio compositor, que não se considerava um pianista brilhante. Por isso, Szymanowski concentrou muito do virtuosismo na parte da orquestra, que adquiriu aos seus ouvidos uma índole sinfônica. Ao contrário da luta entre solista e tutti, da história de David e Golias representada em sons que reforça o caráter heroico da maior parte dos concertos, o de Szymanowski tem uma qualidade solar peculiar, em que as intervenções do piano parecem comentar o discurso da orquestra, de maneira refinada e às vezes até irônica. 
 
Segundo o compositor, em carta a uma amiga, “nem sei se esse Concerto é música boa ou ruim [..]. Parece apenas fácil e agradável de escrever (apesar do fato de que pode vir a se tornar uma horrível peça cafona)”. Hoje sabemos que ele se subestimava como intérprete e compositor. A parte solo tem atrativos suficientes para engajar os melhores pianistas da atualidade. E é justamente a minuciosa riqueza da escrita orquestral, em que cada instrumento recebe um facho de luz, e o flerte com o sentimentalismo, em verve lírica desabrida, que tornam a obra memorável e totalmente original. 
 
 
IVES
The Unanswered Question 
 
Charles Ives é um dos mais interessantes compositores a surgirem no século XX, autor de uma música ao mesmo tempo inquestionavelmente pessoal e profundamente ligada a seu país de origem, os Estados Unidos. The Unanswered Question (A Pergunta Não Respondida) foi escrita como contraponto a Central Park in the Dark, ambas sob o título de Duas Contemplações. Inicialmente para grupo de câmara e mais tarde arranjada por Ives para orquestra, a obra é narrativa, com explicações fornecidas pelo autor, e põe em cena grupos de intérpretes que interagem sem necessariamente se ver: um trompete (que lança a pergunta), o quinteto de flautas e o conjunto de cordas. 
 
As cordas preparam uma cama de acordes que representam “O Silêncio dos Druidas – que nada Sabem, Veem ou Ouvem”. É uma música mesmerizante, em que pequenas mudanças muito sutis são gradualmente introduzidas. As cordas estão alheias ao seu entorno: perpetuam o tecido tonal, sem se preocuparem seja com a pergunta, seja com a resposta. Sobre esse leito imperturbável, o trompete faz, repetidas vezes, sua pergunta desconcertante, “A Perene Questão da Existência”. As flautas tentam responder, a cada vez de um jeito diferente, progressivamente mais atonal e perturbador: hesitante, combativo, desesperado, raivoso, e finalmente desalentado. A peça termina com a pergunta – agora já quase um mantra – parada no ar uma última vez. 
 
Um dos aspectos mais curiosos desta peça inquietante, é que cabe ao assertivo trompete, normalmente o portador de boas ou más notícias, e, portanto, aquele que responde, o papel de questionar obsessivamente. Na verdade, mais do que apontar o fato de que a pergunta nunca é respondida, Ives estabelece uma ambiguidade na própria pergunta, que conseguimos ouvir, mas não compreender. 
 
 
DEBUSSY
Noturnos 
 
O musicólogo Joseph Kerman descreve a música de Debussy como “uma totalidade única e delicadamente pulsante, a que os instrumentos individuais contribuem com lampejos momentâneos de cor. Pode-se pensar em um quadro impressionista, em que pequenas e discretas áreas de pigmentos, visíveis de perto, se fundem em indescritíveis campos cromáticos quando você se afasta para olhar o quadro como um todo”. 
 
A imagem não poderia ser mais apta no que se refere aos Noturnos. Para compor esta obra, Debussy se inspirou em um grupo de quadros do pintor norte-americano Whistler, que se notabilizou por traços delicados, em linhas harmoniosas, que parecem banhados de luz própria. Whistler se interessava particularmente por música, e em seus quadros, que frequentemente tomavam como título termos musicais, tentava capturar a sensação fugidia de uma sucessão de acordes. 
 
Há uma justiça poética em ver obras pictóricas inspiradas em música se tornarem a inspiração para composições musicais. É o próprio Debussy quem esclarece: “O título de Noturnos [...] não se destina a designar a forma usual do Noturno, mas sim todas as várias impressões e efeitos especiais da luz que a palavra sugere. 
 
'Nuvens' descreve o aspecto imutável do céu e o lento e solene movimento das nuvens, que desaparecem em tons de cinza levemente tingidos de branco. 'Festas' nos dá o ritmo vibrante e dançante da atmosfera com clarões repentinos de luz. Há também o episódio da procissão (uma deslumbrante visão fantástica), que passa pela cena festiva e se funde nela. Mas o pano de fundo resiste e permanece igual: o festival com sua mistura de música e poeira luminosa, participando do ritmo cósmico. 'Sereias' representa o mar e seus inúmeros ritmos e, finalmente, entre as ondas prateadas pelo luar, é ouvida a misteriosa canção das Sereias enquanto riem e se afastam”. 
 
LAURA RÓNAI é doutora em Música, responsável pela cadeira 
de flauta transversal
na UNIRIO e professora 
no programa de Pós-Graduação em Música.
É também diretora da Orquestra Barroca da UNIRIO.