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23
fev 2017
quinta-feira 19h30 Concertos a Preço Popular
Concertos a Preço Popular: Karabtchevsky rege Villa-Lobos
MAIS DATAS 24 fev 17  


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Isaac Karabtchevsky regente


Programação
Sujeita a
Alterações
Heitor VILLA-LOBOS
Sinfonia nº 2 - Ascensão
INGRESSOS
  R$ 15,00
  QUINTA-FEIRA 23/FEV/2017 19h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

A Sinfonia nº 2 — Ascenção [sic], de Villa Lobos, traz a data de 1917 – antes, portanto, do compositor ter ouvido qualquer obra sua executada por uma orquestra profissional. Porém, a estreia em 1944 sugere que ao menos parte dela pode ter sido escrita bem mais tarde. Qualquer que seja a hipótese correta, o ouvinte ficaria indeciso entre a surpresa por uma obra em que Villa-Lobos já se apresenta tão ele-mesmo, ou por sua capacidade de replicar, na maturidade, seu próprio estilo de iniciante.



Os subtítulos de várias de suas sinfonias nos levariam a crer que a visão villa-lobiana do gênero sinfônico seria predominantemente programática ou descritiva, à maneira francesa de Berlioz ou Liszt. Isso é uma das fontes de controvérsia, porque, à exceção das Sinfonias nº 3 – A Guerra, nº 4 – A Vitória e nº 10 — Ameríndia, os subtítulos podem dar uma pista ao ouvinte e estabelecer uma ambiência, mas não determinam forma e conteúdo.



Apontamentos sobre a Sinfonia nº 2 indicam que o subtítulo, Ascensão, descreve o estado de espírito do compositor na época em que ela foi composta; pode também sugerir o momento ascendente da trajetória do compositor. Mais concretamente, os temas principais de todos os quatro movimentos da Sinfonia nº 2 têm um agudo perfil ascendente. Estudante assíduo do Curso de Composição Musical de Vincent D’Indy na década de 1910, Villa-Lobos constrói sua peça de acordo com o princípio cíclico, em que ideias extraídas do primeiro movimento retornam, ora transfiguradas, ora como reminiscências, nos movimentos subsequentes, conferindo à obra coesão formal e continuidade expressiva.

No caso da Sinfonia nº 2, a principal ideia recorrente, ré-fá-mi, é apresentada pelos contrabaixos e violoncelos, num violento movimento sequencial ascendente, absorvido por trompas e trombones, que voltará em vários momentos como pontuação ou contraponto. Um método característico de construção sinfônica já está aqui em operação: o ornamentado acorde inicial dá a largada para motivos principais e um ostinato, que provavelmente veio da imaginação do compositor, mas que “registra” em nossos ouvidos como ritmo folclórico, serve de pano de fundo a uma sucessão de novas ideias, reunidas em grupos temáticos bem delineados, que alternam contemplação, lirismo e atividade frenética.

Uma miríade de influências e quase citações são filtradas, como num passe de mágica, pela habilidade de Villa-Lobos de imprimir uma marca pessoal com seu peculiar vocabulário harmônico e sua orquestração imaginativa, herdados da formação francesa, de D’Indy a Debussy. O terceiro motivo do primeiro grupo temático lembra o Prelúdio nº 20, Op.28, de Chopin, O segundo grupo temático poderia ter saído, como muitos outros trechos desta sinfonia, de um balé de Tchaikovsky. O intricado contraponto e o trabalho de desenvolvimento motívico são uma tentativa laboriosa de emular as sinfonias germânicas. O tema lírico do terceiro grupo temático é um reflexo da experiência de Villa-Lobos com as óperas de Puccini. Ele também tenta, nesse estágio prematuro de sua carreira, se apegar ao processo acadêmico de desenvolvimento e reexposição, mas o resultado é inevitavelmente temperado pelo seu arrebatamento.

O segundo movimento também costura, em rápida sucessão, elementos um pouco discordantes. Ecos de Dukas, Mussorgsky e Rimsky-Korsakov dão lugar a uma valsa meio velhaca, emoldurada por floreios típicos da música russa de balé. Uma passagem virtuosística do clarinete anuncia o retorno do motivo da “ascensão” sob diferentes disfarces e também um episódio contrastante.

De forma geral, Villa-Lobos reserva em suas sinfonias sua maior originalidade para as atmosferas sinistras ou dolorosas dos movimentos lentos. O desta sinfonia parece anunciar o tipo de melancolia seresteira que se tornaria, mais tarde, a marca registrada de suas Bachianas Brasileiras. Mais uma vez, ele introduz o retorno do motivo da ascensão, que unifica a intenção dos quatro movimentos.

O mesmo motivo, agora transformado, introduz o último movimento. Em forma de balada e menos frenético que o das Sinfonias nº 3 e nº 4, mas certamente elaborado com mais perícia, o movimento traz o mesmo recurso das Sinfonias nº 1 de Brahms ou Mahler, em que a introdução de caráter fragmentado, inquieto e trágico revela, pouco a pouco, um cenário mais luminoso. Aqui, Villa-Lobos viaja gradualmente por uma profusão de seções nostálgicas e amargas, até que um ritmo mais animado vai, pouco a pouco, conduzindo a orquestra através de imensas dificuldades técnicas a uma sucessão de clímax cada vez mais intensos, interrompidos ora por um soturno diálogo meio wagneriano entre o clarone e a percussão, ora por uma meditação compartilhada pela flauta, pelo clarinete e pela viola solo, até que o episódio final combina apoteoticamente o motivo da ascensão com o do prelúdio de Chopin.

O fato de a orquestração desta Segunda Sinfonia ser notavelmente similar à da Primeira indica que a maior parte dela deve ter sido composta efetivamente na década de 1910. No entanto, aqui temos o retrato do artista como jovem corcel, um Villa-Lobos muito mais ambicioso e disposto a empregar toda a perícia numa obra de proporções comparáveis às das sinfonias germânicas do início do século XX, formato que ele revisitaria, com reformulações bem drásticas, a partir da Sinfonia nº 6, em 1944.

FÁBIO ZANON é violonista e professor da Royal Academy of Music de Londres e autor de Villa-Lobos (Coleção “Folha Explica”, Publifolha, 2009). Desde 2013, é o coordenador artístico-pedagógico do Festival de Inverno de Campos do Jordão.