ENSAIOS
Escuta e Contemplação
Autor: Paulo da Costa e Silva
01/nov/2016
“Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (Carlos Drummond de Andrade, A Flor e a Náusea) O atleta se prepara para o salto. A plateia acompanha, com a respiração cortada. São alguns segundos de silêncio e concentração. Finalmente o salto é realizado. Mal o seu corpo toca na superfície da piscina, os alto-falantes disparam trechos de músicas, incentivos e narrações informativas. O silêncio é rapidamente substituído por uma profusão de sons. O mesmo se dá nas quadras de vôlei: a menor brecha no jogo (uma pausa do técnico, a mudança de posicionamento dos jogadores), e os alto-falantes logo começam a tagarelar. A excitação precisa ser mantida a qualquer custo.
 
Os Concertos de Piano de Beethoven
Autor: Jean-Paul Montagnier
01/out/2016
Ludwig van Beethoven começou bem cedo a dar o que falar, graças a seus dons como instrumentista, que aos doze anos já lhe valeram a nomeação como cravista da orquestra da corte de Bonn. Mais tarde, ao observar como o famoso abade Johann Franz Xaver Sterkel lidava com o piano, o jovem artista tomou consciência das delicadas sutilezas do instrumento. Seus progressos foram tão notáveis que, em 1791, Carl Ludwig Junker (1748-97) confessava que ouvira “um dos maiores pianistas, o querido e bom Beethoven. [...] Sua maneira de tratar o instrumento é tão diferente da habitual que dá a impressão de que ele atingiu esse nível de excelência seguindo caminhos que descobriu sozinho”. Se acreditarmos nesse testemunho, Beethoven desde cedo teria conseguido criar uma maneira muito pessoal de tocar, o que sem dúvida o ajudou a obter um lugar privilegiado junto à aristocracia vienense, quando foi morar na capital austríaca, munido apenas de uma carta de recomendação do conde Waldstein.
 
As Sinfonias de Schubert: Maravilhas e mistérios
Autor: Christian Wasselin
01/ago/2016
Morto aos 31 anos, Schubert chegou a trabalhar em quinze sinfonias, das quais cerca de metade não foi concluída ou ficou apenas no esboço. Chama atenção o fato de que uma de suas mais célebres criações seja, justamente, a Sinfonia nº 8, conhecida como Inacabada. Schubert também deixou incompletas várias outras partituras (em especial de música de câmara). Impossibilidade de concluir? Angústia diante da morte ou da doença? A discussão continua aberta.
 
O Apetite Onívoro de Mason Bates
Autor: Thomas May
01/jun/2016
Nascido em 1977, Mason Bates se tornou recentemente um dos compositores vivos mais tocados da cena orquestral norte-americana — ao lado de outro ilustre morador de São Francisco, John Adams. Desde a novidade trazida pela peça Rusty Air in Carolina [Ar Enferrujado em Carolina] — que a Sinfônica de Winston-Salem tocou pela primeira vez quando o autor tinha menos de 30 anos —, Bates tem sido cada vez mais procurado por diversos tipos de conjuntos orquestrais. Em junho de 2015, concluiu um período de cinco anos como compositor residente da Sinfônica de Chicago, presenteando a orquestra e seu diretor musical, Riccardo Muti, com a mais ambiciosa peça que compôs até hoje: Anthology of Fantastic Zoology [Antologia da Zoologia Fantástica]. Depois disso, Bates teve poucos meses para recobrar o fôlego e assumir um novo posto em Washington, como o primeiro compositor residente da história do Kennedy Center For The Performing Arts.
 
As Sinfonias de Prokofiev
Autor: Marco Aurélio Scarpinella Bueno
01/abr/2016
O começo da década de 1910 não foi muito fácil para as sinfonias. A revolução de timbres proposta por Debussy em Jeux, a de ritmos proposta por Stravinsky em A Sagração da Primavera e a da própria tonalidade musical proposta por Schoenberg em Pierrot Lunaire colocaram em xeque um dos gêneros fundamentais da música clássica na Europa Ocidental. O próprio Debussy afirmou que “desde Beethoven, havia provas suficientes que atestavam a inutilidade da sinfonia”,1 comentário que pode ser um tanto perturbador para quem aprendeu a se banhar na tradição musical austro- germânica sedimentada desde a época de Haydn.
 
Bela Bártok | Entre a Síntese e a Desagregação
Autor: Paulo Schiller
31/mar/2016
Em maio de 1913, A Sagração da Primavera, de Stravinsky, estreou em Paris e provocou escândalo. Cerca de três meses antes, as Duas Imagens, de Béla Bartók, eram vaiadas em sua primeira apresentação em Budapeste. Nascido em 1881, Bartók — tido por muitos como o maior compositor húngaro ao lado de Liszt —, viria a ser, juntamente com Stravinsky, um dos principais representantes da modernidade na música do século xx.
 
Uma gramática do caos: notas sobre Villa-Lobos
Autor: Lorenzo Mammì
01/mar/2016
Em um artigo de 1951, Pierre Boulez fala de Stravinsky em termos muito depreciativos: “O malogro de Stravinsky consiste na incoerência (ou seja, na inconsistência) do seu vocabulário; exaurido um certo número de expedientes destinados a mascarar o colapso tonal, ele se encontrou ‘desprevenidamente’ sem uma nova sintaxe. [...] Convém no entanto assinalar, para sermos exatos, que até então (ou seja, até o período neoclássico) Stravinsky não sabia ‘compor’: as grandes obras, como Sagração da Primavera e Les Noces [As Bodas], acontecem por justaposição, por repetição ou por sobreposições sucessivas, procedimentos óbvios de alcance limitado.”1

Nessa perspectiva, a guinada neoclássica torna- se uma escolha obrigatória: “Incapaz de chegar por si mesmo à coerência de uma linguagem diferente da tonal, Stravinsky abandona a luta que apenas iniciara e volta os seus expedientes, tornados jogos arbitrários e gratuitos que visam a um prazer do ouvido já ‘pervertido’, para um vocabulário pelo qual não é responsável. Digamos que opera um transfert.”
 
Richard Strauss
Autor: Edward Said
01/nov/2015
Em seu brilhante perfil de Johnny Carson para a revista The New Yorker, Kenneth Tynan chegou à conclusão de que, seja lá o que Carson fizesse, ele era o único a fazê-lo, e sempre com perfeição. Era comediante de stand-up, apresentador de talk show, celebridade de Hollywood — mas o fenômeno Carson, que durou mais de duas décadas, supera qualquer uma dessas definições e é mais do que a soma delas.

Proporções guardadas, o mesmo vale para Richard Strauss, cuja carreira impressionantemente longa ocorreu em paralelo com muitas das grandes mudanças na música do século xx e teve contato com elas de estranhas maneiras, sem de fato delas participar. Glenn Gould descreveu a serena indiferença de Strauss em relação a todas as tendências à sua volta, enquanto despreocupadamente fazia a sua própria música, mais ou menos como Tynan escreveu sobre Carson. Certamente, há muito de verdade nessa visão sobre Strauss, mesmo se isso significa esquecer o efeito musical devastador de Salomé (1903-5) e de Elektra (1906-8), óperas à sua época consideradas revolucionárias a ponto de serem escandalosas. Schoenberg, Mahler e Debussy estiveram entre os primeiros entusiastas de Strauss, mas é a densidade das associações literárias e culturais em torno da sua carreira que torna Strauss talvez a figura mais rica, e de algum modo a mais enigmática, da música do século xx.
 
Quem tem Medo de Schoenberg?
Autor: Jorge de Almeida
01/set/2015
Eu tenho. Há diversas razões para temer Schoenberg, e muitas razões para admirá-lo. Talvez sejam as mesmas… Por isso é preciso abrir os ouvidos para o que esse “medo” diz sobre nós, sobre a sua música e sobre o século que já nos separa.
 
Carl Nielsen
Autor: Karl Aage Rasmussen
01/jun/2015
Quem é o compositor mais subestimado do século XX? O crítico de música norte-americano Alex Ross fez essa pergunta no seu popular blog, e ele mesmo deu a resposta: Carl Nielsen. “Músicos de orquestra confessam que tendem a resmungar um pouco quando Nielsen aparece em suas estantes; o hábito do compositor de escrever notas furiosamente rápidas, e depois passá-las de uma seção para outra, em estilo de revezamento, pode fazer até mesmo um conjunto de virtuoses soar confuso. Os ouvintes, por outro lado, frequentemente saem das execuções de Nielsen satisfeitos, mas um pouco atordoados, sem saber exatamente qual a placa do caminhão que os atropelou. O poder rítmico de sua música é enorme — a Sinfonia no 4 - A Inextinguível é de um dinamismo comparável apenas às sinfonias de Beethoven”.