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ENSAIOS
Beethoven 250
Autor:Arthur Nestrovski
04/mar/2020

Em fins do século XVIII, na Alemanha, a porcentagem de autores do passado nos programas de concerto ficava em torno de 10%. Cem anos mais tarde, esse número já subira para quase 80%, contra 20% de compositores vivos. Há muitos fatores para essa mudança, mas talvez de todos o mais decisivo tenha sido o surgimento da obra de Beethoven. 

 

Muito do que nos parece natural, hoje, numa sala de concertos, está ligado, direta ou indiretamente, à sua obra e à sua pessoa. Para além de uma ideia canônica do repertório, centrada nos grandes autores — com Beethoven sempre presente —, pode-se pensar também no desenvolvimento das orquestras profissionais ao longo do século XIX, acima de tudo como instrumento para apresentação das nove sinfonias, que se tornaram uma obrigatoriedade. Com elas, a consolidação e evolução da figura do regente. E as características modernas do piano, respondendo a demandas que Beethoven conseguiu impor pessoalmente aos principais fabricantes de Viena e, por extensão, às fábricas inglesas e do resto da Europa1. Mais de um século depois de sua morte, a influência dele ainda se fazia sentir em avanços técnicos de grande alcance, como a duração dos primeiros LPs de 33  1/3 rpm (a Quinta Sinfonia na íntegra) e também dos CDs (75 minutos, a Nona Sinfonia).
           

Beethoven mudou a ideia do que pode ser um concerto. Sem perder a condição de arte pública, em boa medida pensada para auditórios de grande porte, sua música pede um tipo de atenção mais comumente associado à leitura de textos críticos ou filosóficos, ou da poesia mais elaborada. Acompanhar as mil e uma transformações de motivos mínimos, do início ao fim de um movimento, ou de uma sinfonia inteira permanece, para muitos de nós, um dos maiores desafios e um dos maiores prazeres da arte musical. Às vezes basta um único intervalo melódico para construir todo o universo sonoro, da mais variada e intensa expressão afetiva. Às vezes menos que isso: só um conceito, que se realiza de modos distintos, pode ser o bastante para organizar vastas expansões musicais2.  Difícil de descrever, fácil de reconhecer, impossível de resistir. Beethoven não só mudou a noção do que pode ser um concerto; mudou a própria ideia da música, definindo o caminho da modernidade.

 

Consagrada em biografias, anedotas, romances e filmes, a personalidade do compositor também serviu e serve ainda para fixar a figura do “gênio” romântico. Falava-se do gênio de Mozart, mas não do próprio Mozart nesses termos. Com Beethoven, “o gênio se torna uma identidade distinta, modelada pela vontade e não por graça de Deus”.3 E esse gênio define igualmente uma condição de vida e uma dignidade profissional, que o compositor foi capaz de conquistar. Está associado, ainda, aos ideais de liberdade, fraternidade e igualdade, que Beethoven exprimiu como ninguém, ao longo de toda uma obra e chegando ao ponto supremo no último movimento da Nona Sinfonia, com a “Ode à Alegria” do poeta Schiller entoada por solistas e coro.

 

Não é por acaso que a música de Beethoven foi usada, tantas vezes, em momentos críticos da história. Para ficar em dois exemplos: o tema inicial da Quinta — o famosíssimo “tam-tam-tam tããã!” —, empregado pelas forças aliadas durante a Segunda Guerra, em analogia ao curto-curto-curto-longo do código Morse, para a letra V, de “Vitória”; e a execução da Nona, com um quarteto internacional de solistas e uma orquestra de músicos de vários países, regida por Leonard Bernstein, logo após a queda do Muro de Berlim, em 1989 — com a palavra Freude (alegria), substituída por Freiheit (liberdade). Também não poderia ser outro o hino da Europa, senão o tema da Nona. Nada disso é por acaso. Beethoven não mudou apenas a noção do que pode ser um concerto e a própria ideia da música; mudou a ideia do que somos, ou do que pode ser uma humanidade livre e justa.

 

“Meu caro Luís, que vens fazer nesta hora/ de antimúsica pelo mundo afora?”, perguntava Carlos Drummond de Andrade, no seu poema “Beethoven” (de As Impurezas do Branco, 1973). “Erguendo o sentimento à culminância/ da divina explosão [...]/ que vens fazer, do longe de dois séculos,/ escuro Luís, Luís luminoso,/ em nosso tempo de compromisso e omisso?” Meio século depois, e chegando agora aos 250 anos de nascimento do compositor, os versos de Drummond só ganham força, assim como só se torna mais urgente, dia após dia, escutar Beethoven. É o que vamos fazer, do início ao fim desta Temporada 2020, que na verdade começou em dezembro de 2019, com a Nona (cantada em português) regida por Marin Alsop, em seus concertos de despedida como Regente Titular da Osesp.

 

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Bem-vindo, Thierry Fischer! O novo Diretor Musical da Osesp abre sua primeira Temporada regendo a Missa Solemnis de Beethoven. Ao longo do ano, regerá as sinfonias de nº 1 a 8, dentre várias outras obras, incluindo a estreia de uma abertura encomendada ao compositor baiano Paulo Costa Lima, em diálogo com a Sinfonia Pastoral. Acolhido muito calorosamente — na plateia e no palco — em dois concertos com entrada franca, que regeu na data do aniversário de 20 anos da Sala São Paulo, dia 9 de julho de 2019, Thierry será o artista mais presente no grande ciclo de obras de Beethoven que define nossa Temporada 2020. Difícil afirmar com certeza, na falta de registros, mas tudo indica que será um dos maiores, senão o maior ciclo jamais oferecido no país.
           

Além das sinfonias, teremos as quatro grandes obras corais sinfônicas, os cinco concertos para piano, o concerto para violino e o tríplice, várias aberturas, as 32 sonatas para piano (mais as Variações Diabelli), a integral das sonatas para violoncelo e piano, e os seis últimos quartetos de cordas, além de outras obras esparsas e de peças contemporâneas inspiradas na sua música. Tudo isso com a participação de solistas e regentes de primeiríssima linha, lado a lado com os músicos da Osesp e cantores do Coro da Osesp.
           

O Artista em Residência será o virtuose francês da viola Antoine Tamestit, que já esteve conosco em duas ocasiões e agora volta para tocar várias vezes, num dos concertos interpretando (com a violinista alemã Isabelle Faust) a estreia mundial de uma peça encomendada ao Compositor Visitante, o australiano Brett Dean. Falando em compositores: ouviremos também a estreia de um monodrama de João Guilherme Ripper, para soprano e orquestra, baseado nas Cartas Portuguesas da monja setecentista Mariana Alcoforado; e a estreia latino-americana de Inferno, para coro, orquestra e multi-instrumentista, do compositor português Nuno da Rocha; essas duas peças no âmbito do projeto SP-LX, em parceria com a Fundação Gulbenkian de Lisboa. E ainda: uma Sinfonieta Pastoral de Nailor Azevedo (Proveta), para a Banda Mantiqueira, naturalizando a Pastoral de Beethoven com referências musicais, ornitológicas e florestais do Brasil; e um Concerto para Trompete do porto-riquenho Roberto Sierra, coencomenda da Osesp com várias outras orquestras.

 

Para marcar o centenário de morte de Alberto Nepomuceno, vamos ouvir um número seleto de obras do autor cearense, como a Suíte Antiga, regida por Thierry Fischer.
           

A Sala São Paulo e a Osesp integram agora a Family of Halls, um grupo de teatros (com orquestras associadas) projetados pela Arup — antiga Artec — ao redor do mundo. A partir desta Temporada, será escolhido, a cada vez, um compositor que terá obras executadas em vários desses teatros. Para 2020-21, o escolhido foi o alemão Jörg Widmann. Vários movimentos de seu Duo (para viola e violino/ viola e violoncelo) serão interpretados por membros do Quarteto Osesp, num de seus concertos de assinatura.
           

Tudo isso só se faz possível com o apoio de muitas pessoas e instituições, a quem somos sempre muito gratos. A começar pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado, a continuar pelos patrocinadores, apoiadores e parceiros, com destaque para a Rádio e TV Cultura. Falando em nome dos músicos da Orquestra e cantores dos Coros (Coro da Osesp, Coro Acadêmico, Coro Juvenil e Coro Infantil), agora é nossa vez de agradecer e aplaudir também o público, tão dedicado à Osesp e tão entusiasmado. Agradecimentos aos devotados membros dos vários Conselhos da Fundação Osesp e aos igualmente dedicados integrantes das equipes da casa. Thierry Fischer e Marcelo Lopes (Diretor Executivo) foram interlocutores preciosos na montagem da programação, sem falar nas Comissões Artísticas da Orquestra e do Coro. O quadro de Voluntários ajuda e defende as beethovenianas causas, que são de todos nós. Esse projeto da Osesp representa muito não apenas para os que participam dele, mas para tantos que se empenham em proteger a cultura e a educação — neste ano, em especial, honrando o espírito do criador da Nona.

 

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A primeira biografia de Beethoven foi escrita por um certo Johann Aloys Schlosser e publicada em Praga, no mesmo ano da morte do compositor (1827). Depois dela vieram as de Schindler (1840) e, noutra escala, o magnum opus em cinco volumes do norte-americano Thayer (1866-79), até hoje uma referência. São só as três primeiras biografias numa sequência de milhares de publicações biográficas e analíticas, às quais se somam obras de ficção e poesia, filmes, documentários e aulas digitais, compondo a vasta biblioteca de obras sobre a vida e a obra desse que se tornou o próprio emblema da música clássica4.  
           

Nunca deixa de impressionar, nesses relatos, a experiência “viva” de Ludwig van Beethoven ao mesmo tempo compondo e lidando com as tribulações de seu sobrinho e afilhado Karl, discutindo com o irmão, a cunhada e outros membros da família, escrevendo a editores, autoridades, promotores de concertos e mecenas, em busca de apoio, ou sofrendo nas mãos de sucessivos médicos; e ainda, com menor frequência, gozando dos confortos de um pequeno círculo de admiradores e amigos, tudo isso num ambiente, para nós chocante, de limitações econômicas, alimentares, higiênicas, de saúde e da condição geral da vida. Era uma existência dura, premida por dificuldades; no caso dele, tornadas ainda piores pelo humor irascível e quase permanente disposição de desconfiança, para não dizer desprezo pela humanidade — a mesma humanidade que recebia dele a mais alta expressão de esperança e de amor.
           

“Patética, heroica, pastoral ou trágica/ tua voz é sempre um grito modulado,/ um caminho lunar conduzindo à alegria”, escreve Drummond no seu poema. Que essa voz nos inspire, em tempos estranhos, e que a alegria nos ensine o que queremos, na música e muito além da música.

 

1 DENORA, Tia. Beethoven and the Construction of Genius. Musical Politics in Vienna, 1792-1803. Berkeley: Univ. of California Press, 1995.

2 “Só chegando à conclusão se pode perceber a integridade, a unidade até então escondida do processo que nos trouxe até ali.” DAHLHAUS, Carl. Ludwig van Beethoven. Approaches to his Music. Tradução de Mary Whittall. Oxford: Clarendon Press, 1991; p. 236.

3 ROSS, Alex “Deus Ex Musica”. The New Yorker. p. 47, 20 out. 2014.

4 Em 2014, depois de duas décadas à procura de um editor, foi postumamente publicado o inusitado último romance do escritor Sanford Friedman (1928-2010), Conversations with Beethoven. O livro tem um formato único: só o que se lê, da primeira à última página, são as anotações — entre reais e imaginárias — dos interlocutores em “cadernos de conversa” mantidos por Beethoven, privado da audição. Fora isso, uma ou outra carta, ou bilhete, dentre os quais alguns dele mesmo. Jamais se escuta ali a voz do próprio Beethoven, só a de seus familiares, assistentes e visitantes, num período de pouco mais de um semestre, entre 1826 e sua morte em março de 1827. Nenhuma outra obra evoca tão contundentemente a pessoa do compositor. O livro saiu pela New York Review Books Classics, com introdução de Richard Howard.

 

ARTHUR NESTROVSKI
Diretor Artístico da Osesp