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ENSAIOS
O testamento de Heiligenstadt
Autor:Tradução de Sergio Tellaroli
04/mar/2020

   Franz Xaver Stöber

   Beethovens Leichenzug vor dem ehemaligen Schwarzspanierkloster in Wien
   [Funeral de Beethoven em frente ao antigo Schwarzspanierkloster em Viena], 1827

 

 

Em 1802 Beethoven constatou que sua perda auditiva não teria cura e, pior, iria progredir.

 

Por conselho médico, e com o propósito de se revigorar, foi passar o verão na aldeia de Heiligenstadt, ao norte de Viena. Hoje incorporada à cidade, Heiligenstadt era então cercada pela natureza. Beethoven apreciava as longas caminhadas no campo — muitas de suas inspirações surgiram nesses passeios e eram rabiscadas em cadernos e folhas avulsas que ele costumava levar consigo.


Naquele verão, Beethoven escreveu uma carta ao mesmo tempo dolorosa e pragmática aos irmãos Karl e Johann (embora, estranhamente, haja um espaço em branco no local onde deveria constar o nome de Johann). Ninguém jamais soube da existência de tal documento, que só seria encontrado no quarto do compositor após sua morte com a ordem expressa de ser “lido e executado”.


Apesar do tom profundamente depressivo, no “Testamento de Heiligenstadt” Beethoven rechaça o suicídio e reforça seu poderoso gênio dramático, registrando a obstinação em superar tal estado mental por meio da arte.


Suas apresentações como pianista virtuose estavam com os dias contados, comprometidas pela audição debilitada, mas ele voltaria toda sua energia à composição. Logo após escrever a carta/testamento, começou a trabalhar em sua Terceira Sinfonia, a Eroica.

 

***

 

Vista atual do pátio com acesso aos aposentos de Beethoven em Heiligenstadt. O edifício, restaurado, abriga o Beethoven Museum.

 

 

A meus irmãos, Carl e [Johann] Beethoven

 

Ó, vós, que me reputais ou declarais hostil, casmurro ou misantropo, que injustiça cometeis; não sabeis a causa secreta daquilo que assim vos parece; desde a infância, meu coração e minha mente inclinaram-se para o terno sentimento da benevolência, e mesmo as grandes obras, sempre foi minha disposição realizá-las, mas considerai que, há seis anos, me acomete uma condição atroz, agravada por médicos insensatos; ludibriado ano após ano em minha esperança de ser curado, mas obrigado por fim a reconhecer um mal duradouro (cuja cura talvez demande anos ou seja mesmo impossível), logo precisei apartar-me e levar uma vida solitária, embora nascido com um temperamento fogoso e vivaz, receptivo às distrações da sociedade; ainda que, por vezes, tenha desejado superar tudo isso, ó, quão duramente rechaçou-me então a redobrada e triste descoberta de minha audição ruim, sem que eu pudesse dizer às pessoas: “Falai mais alto, gritai, pois sou surdo”; ah, como poderia anunciar desse modo a debilidade de um sentido que haveria de possuir em grau mais elevado que qualquer outra pessoa? — um sentido de que, no passado, desfrutei à perfeição, uma perfeição da qual, em meu ofício, por certo poucos hoje gozam ou algum dia gozaram. Ó, não, não posso fazê-lo; perdoai-me, pois, ao me verdes recuar quando, de bom grado, ter-me-ia juntado a vós; dói-me em dobro esse meu infortúnio, porque ele faz com que me tomem por outra pessoa; não me é dado comprazer-me do conforto da companhia humana, das conversas mais refinadas, das efusões recíprocas; inteiramente só, posso permitir-me estar em companhia quase tão somente na medida em que o exige a necessidade suprema, sou obrigado a viver como um proscrito; quando me acerco de um grupo de pessoas, acomete-me aguda ansiedade, porque temo o perigo de deixar entrever minha condição. Assim foi também nesses seis meses que passei no campo; a intimação de meu sensato médico para que eu poupasse ao máximo a audição veio quase ao encontro daquela que é hoje minha disposição natural, embora, arrebatado pelo ímpeto de buscar companhia, eu tenha por vezes me deixado levar; mas que humilhação quando alguém a meu lado ouvia ao longe uma flauta, ao passo que eu nada ouvia, ou quando alguém ouvia cantar o pastor, que eu tampouco ouvia; acontecimentos assim levaram-me às raias do desespero, pouco faltou para que pusesse fim a minha vida. Somente ela, a arte, me deteve; ah, julguei impossível deixar este mundo antes de produzir tudo aquilo que me sentia disposto a produzir, e assim fui vivendo esta vida miserável, verdadeiramente miserável, em um corpo tão sensível que uma mudança mais rápida é capaz de me lançar da melhor à pior das condições. Paciência, dizem; a ela cumpre-me agora escolher como guia, e assim fiz. Nutro constantemente a esperança de perseverar, e tal há de ser minha decisão: perseverar até que às implacáveis Parcas apraza cortar o fio; aí, então, talvez melhore, talvez não — estou preparado. Obrigado já em meu vigésimo oitavo ano de vida1 a me tornar filósofo, é-me difícil, mais difícil para o artista que para qualquer outro. Deus, do alto vês meu íntimo, tu o conheces, sabes que nele habitam o amor ao próximo e o pendor para fazer o bem. E, vós, homens, ao lerdes isto, pensai na injustiça que cometestes contra mim, e que ao infeliz sirva de consolo encontrar um semelhante que, a despeito de todas as barreiras impostas pela natureza, afinal fez tudo que estava em seu poder para merecer acolhida nas fileiras dos artistas e das pessoas dignas. Vós, meus irmãos Carl e [Johann], tão logo eu esteja morto, e estando ainda em vida o professor Schmidt, pedi-lhe em meu nome que descreva minha enfermidade e juntai estas páginas que ora escrevo a meu prontuário médico, para que, tanto quanto possível, o mundo comigo se reconcilie após a minha morte. Ao mesmo tempo, declaro-vos aqui, ambos, herdeiros de minha pequena fortuna (se é possível chamá-la assim); reparti-a com retidão, convivei em paz e ajudai um ao outro; aquilo que fizestes contra mim, sabeis, vos foi perdoado há tempos; a ti, meu irmão Carl, agradeço ainda em especial pela afeição a mim dedicada nos últimos tempos.

 

beethoven

Anúncio de rifa para “Spa & hopedagem em Heiligenstadt”, (1843). A estância hidromineral atraía figuras ilustres de Viena.

 

É meu desejo que vós tenhais uma vida melhor e mais despreocupada que a minha; recomendai a virtude a vossos filhos, porque somente ela, e não o dinheiro, traz felicidade, e falo por experiência própria: foi ela que, mesmo na miséria, me elevou o espírito; a ela agradeço, assim como a minha arte, pelo fato de não ter, pelo suicídio, posto fim a minha vida. Adeus, e amai-vos um ao outro. Agradeço a todos os amigos, sobretudo ao príncipe Lichnowsky e ao professor Schmidt. Os instrumentos2 do príncipe L., que um de vós possa guardá-los, sem que, contudo, vos desentendais por causa disso; tão logo eles vos sejam de algum proveito para coisa mais útil, vendei-os simplesmente; quão feliz estarei se, sob minha sepultura, ainda vos puder ser útil — que assim seja. Com alegria, apresso-me em direção à morte — caso ela chegue antes que eu tenha oportunidade de desenvolver todas as minhas capacidades artísticas, ainda assim, e a despeito de minha dura sina, chegar-me-á ela cedo demais; eu decerto desejaria que tardasse ainda um pouco. Também assim, no entanto, ficarei satisfeito, pois não me libertará a morte de meu sofrimento infindável? Vem, pois, quando quiseres, vou corajosamente a teu encontro. Adeus, e não me esqueçais por completo na morte; eu o mereço de vossa parte, porque muitas vezes em minha vida pensei em vós, em vos fazer felizes, e que assim sejais —


Ludwig van Beethoven
[Selo]

Heiligenstadt,

6 de outubro de 1802

 

 ***

 

Heiligenstadt, 10 de outubro de 1802. Assim despeço-me de ti, e, aliás, com tristeza. Sim, a amada esperança que trouxe comigo até aqui de, pelo menos até certo ponto, me curar, essa esperança deve agora abandonar-me por completo; tal como caem e secam as folhas do outono, também ela ressecou; vou-me embora quase da mesma maneira como aqui cheguei — até o elevado ânimo, que tantas vezes avivou-me a alma nos belos dias de verão, desapareceu. Ó, Providência, concede-me ao menos um dia puro de alegria — já há tanto tempo não ecoa em mim a alegria verdadeira. Ó, quando — quando, meu Deus? — poderei tornar a senti-la no templo da natureza e dos homens? Nunca? Não — ó, seria demasiado cruel.

 

<<A meus irmãos Carl e [Johann], a ser lido e cumprido após a minha morte.>>

<<Recebido em 21 de setembro de 1827 das mãos do senhor Artaria et Comp., Kohlmarkte. Jak. Hotschevar.>>

<<Recebido das mãos do senhor Jakob von Hotschevar. Johanna van Beethoven.>>

 

 

1 N. do E.: No momento da escritura do “Testamento”, Beethoven tinha 32 anos.
2 N. do E.: O príncipe lhe dera de presente um violino e um violoncelo (Guarneri), outro violino (Amati) e uma viola de 1690.
3 N. do E: “Artaria et Comp.” era uma importante editora musical de Viena, e Kohlmarkte, 9, seu endereço. Johanna era cunhada de Beethoven, casada com seu irmão Carl. Jakob Von Hotschevar (parente de Johanna) foi nomeado tutor do filho de ambos, Karl von Beethoven, único herdeiro do compositor (mas ainda menor de idade) quando da morte deste, em 1827.

 

Tradução de Sergio Tellaroli