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ENSAIOS
"Isto é Beethoven" – Entrevista com Thierry Fischer
Autor:Arthur Nestrovski
04/mar/2020

Thierry Fischer, Diretor Musical e Regente Titular da Osesp a partir desta Temporada, já conduziu três ciclos completos das sinfonias de Beethoven e participou de outros tantos como flautista. Agora ele se prepara para abrir essas partituras como se fosse a primeira vez.

 

Vamos começar do começo. Como flautista principal da Orquestra de Câmara da Europa, você tocou o ciclo completo das sinfonias de Beethoven sob regência de Nikolaus Harnoncourt. Como foi essa experiência?

 

Foi mais do que um sonho, foi uma conquista. Quando soube que iria tocar e gravar as sinfonias de Beethoven com Harnoncourt, eu disse para mim mesmo: “pronto, depois disso posso morrer”. Um sentimento de realização plena aflorou fisicamente em mim após nossa apresentação da Sinfonia Pastoral em Graz (Áustria). Lembro-me perfeitamente de caminhar pelas ruas sentindo ter alcançado a Beleza suprema naquela noite. Meu pedacinho de metal — minha flauta — provavelmente não me levaria de novo para tão longe... Percebi que havia dado tudo de mim como artista, e isso me dava a sensação física, real, de estar pronto para a morte. Embora tenha ocorrido após uma apresentação específica, na verdade resultava de todo o trabalho que vínhamos fazendo naquelas três semanas com Harnoncourt, tocando Beethoven dia após dia. Essa experiência, que eu vivenciei como se fosse o fim — por achar que não havia nada maior com o que sonhar —, obviamente acabou abrindo uma nova dimensão para meu desejo de expressão artística. Como disse Beethoven: “as metas são apenas um estágio, o fim não existe”.

 

O que mais o impressionou na abordagem de Harnoncourt?

 

O que mais me impressionou não foi apenas seu tremendo conhecimento musical nem sua intransigência, mas o fato de ele se servir desses dois atributos de modo obsessivo, a serviço de uma profunda musicalidade. Isso incutia em cada músico uma enorme confiança e liberdade, o que valorizava ainda mais nosso trabalho como um coletivo.

 

Beethoven dizia que devemos amar a liberdade acima de qualquer outra coisa no mundo1. No trabalho com Harnoncourt eu descobri — a orquestra inteira descobriu — o que a liberdade pode trazer a jovens artistas. Aprendemos tudo sobre articulação, sobre consistência... não falo apenas do ponto de vista da performance historicamente informada, mas do que ele trouxe efetivamente para a potência do nosso próprio desejo, sobre a necessidade de encontrar liberdade por meio do trabalho. Foi absolutamente fenomenal. O homem era inacreditável.

 

Outro aspecto que chamava atenção em Harnoncourt era seu completo desinteresse pelo estrelato. Não ligava a mínima para isso.

 

Enfim, ele nos fascinava a ponto de querermos transcender a nós mesmos, pois tudo o que fazia era em prol da verdadeira Arte. O que Harnoncourt fez conosco, musicalmente, foi como ver as estátuas de Giacometti pela primeira vez. No começo você não entende nada e de repente se dá conta: “é lógico! Isso é a representação de um ser humano! Tem o movimento certo, o ritmo certo, a suspensão certa...”. E porque Harnoncourt nunca tentou nos desprezar, nem ser reconhecido, nem ser melhor do que outro colega, nem se comparar, ele nos deu a sensação de que a única coisa que importava era estarmos dispostos a nos maravilhar com o que nós mesmos seríamos capazes de fazer.

 

Essa experiência na juventude deve ter influenciado profundamente sua própria interpretação.

 

Ir na direção que Harnoncourt propunha era simplesmente irresistível. Todos nós sabíamos qual era o propósito daquele trabalho, porém, mais que saber, queríamos comungar com aquilo. Isso era fruto da combinação da personalidade única de Harnoncourt com, claro, a música sobre a qual estávamos debruçados: as sinfonias de Beethoven. Sinceramente, eu nunca tinha vivido, como flautista, uma experiência tão forte.

 

Éramos jovens músicos imaginando inocentemente saber o que significava o ritmo certo, forte, sforzando... mas na verdade não sabíamos nada. Tremíamos, literalmente, de tanto trabalhar a diferença entre forte e fortissimo, por exemplo. O esforço acabou por afetar nosso sono, nosso jeito de comer e até mesmo nossa respiração antes das apresentações e depois dos ensaios. Acho que nenhum membro da Orquestra de Câmara da Europa jamais conseguiu esquecer como foi aquele período, embora mais de vinte anos tenham se passado.

 

Lembro-me até mesmo de como eu estava vestido em um dos ensaios. Usava uma camiseta verde. Harnoncourt subiu a escada do palco do Stefaniensaal, em Graz, e comentou sobre meu pequeno solo de flauta na Sinfonia Pastoral: “você está indo rápido demais, porque quer ir mais rápido que o movimento”. Tudo que consegui responder foi: “sim, está bem”. Então ele arrematou: “e nem tente ir mais devagar, porque isto é Beethoven”. Esse era Harnoncourt. “Vocês precisam ir mais rápido, mais alto, mais forte, mais profundo! Tudo tem que ser mais!”

 

Harnoncourt fez com que eu percebesse que o virtuosismo, o controle da competência instrumental, não é a única coisa que importa. Nossa própria sensibilidade musical, um presente recebido das musas, jamais deve deixar de ser explorada.

 

Essa abordagem tinha suas idiossincrasias.

 

Sim. Por exemplo, no ensaio da Segunda Sinfonia de Beethoven. Segundo movimento. Ele colocou na frente da partitura uma carta que havia escrito a um amigo (ou alguém próximo, não lembro detalhes) sobre o significado de rubato. E mais, sobre o significado de rubato naquele lento movimento da Segunda Sinfonia que estávamos ensaiando. Ele lia a carta para nós e cantarolava o trecho em questão, interrompendo e corrigindo a si mesmo o tempo todo, buscando a exatidão. Só conseguíamos pensar: “esse cara é louco? Ele está tentando nos tornar mais flexíveis lendo uma carta?!”. E simplesmente porque ele leu aquela carta, daquele jeito, eu fiquei apavorado durante a apresentação. Eu era um flautista razoavelmente bom, convenhamos, o trecho era fácil, mas eu tremia horrores com medo de errar aquela parte.

 

Para tocar uma sequência simples de notas ele estimulou em nós uma grande fragilidade, como se estivéssemos no topo das Cataratas do Niágara, sem rede nem qualquer proteção. Essa vulnerabilidade criava transcendência. Graças a Harnoncourt eu aprendi o tipo de artista que ainda quero ser.

 

Trabalhar nesse nível de excelência requer uma habilidade especial para lidar com expectativas — próprias e dos outros.

 

Harnoncourt não nos intimidava, mas éramos jovens e sabíamos que estudar oito horas por dia era o mínimo que deveríamos fazer. Eu não podia suportar sequer a possibilidade de
desapontá-lo. E, claro, algo terrível tinha de acontecer — e aconteceu.

 

Faltavam seis meses para as gravações. Havíamos tocado o ciclo completo das sinfonias de Beethoven em Waduz, Liechtenstein, e em Graz, na Áustria. Estávamos em Viena, tocando a Sinfonia Pastoral no teatro Musikverein. Ao final de “A Tempestade”, a flauta surge trazendo uma melodia tranquila, muito fácil, em uma escala lenta — “pá-pá-pá-pá-pá...”. Eu toquei três notas erradas em sequência. “Pá-pá-pó-póó-póóó”. Não dava para acreditar. Foi como um haraquiri. Passei uma semana inteira sem dormir, completamente transtornado.

 

O que aprendi com este erro foi o seguinte: minha vontade de fazer as coisas acontecerem era tão grande que me atrapalhou. Eu era um estudante tão dedicado, tão preocupado em agradar o mestre... Queria dar o melhor de mim nas apresentações, quando, na verdade, por ter me preparado antes, o certo seria simplesmente deixar fluir.

 

A excelência na interpretação está em deixar fluir. Quando falamos do mais alto nível de expressão, de um mestre como Beethoven, precisamos ir além da mera vontade de mostrar o que podemos fazer; porque no fim isso não significa nada. No momento da apresentação devemos dar vida, de modo criativo, às convenções. Uma boa performance é consequência. Consequência do conhecimento, da leitura, do desejo, da determinação, do amor pelo que se faz... Eu poderia falar horas sobre isso. Todos temos formas diferentes de ler a história da música, de analisar as regras da interpretação clássica, de compreender as indicações de uma partitura...

 

Você deve ter sentido muito a perda de Harnoncourt, em 2016.

 

Alice [viúva de Harnoncourt] me mandou uma carta escrita por ele. Ouça a história. Abbado havia morrido há seis anos. Ele era tudo para a orquestra. Depois, morreu Boulez. Em seguida, meu professor de flauta, Aurèle Nicolet. E, de repente, me dei conta: “Harnoncourt poder ser o próximo. E eu nem cheguei a lhe agradecer”. Sabia que ele não estava bem. Então, escrevi uma carta que dizia, em termos gerais: “Caro Maestro Harnoncourt, lembrei-me do senhor e gostaria de agradecer por tudo que fizemos juntos. Desejando serenidade, com afeto, Thierry”.

 

Eu estava nos Estados Unidos. Na semana seguinte, peguei um voo para o Canadá e liguei para minha mulher, na Suíça, assim que desembarquei. Ela perguntou se eu já sabia da notícia, e em seguida me contou: “Harnoncourt morreu”.

 

Não sei como cheguei ao hotel. Na manhã seguinte, uma carta vinda de Sankt Georgen (Áustria), onde Harnoncourt morava, foi entregue em minha casa. Eu estava no Canadá e tinha uma carta dele, já morto, sobre minha escrivaninha, na Suíça. Quando finalmente voltei para casa, não conseguia abrir a porta do escritório. A tensão era absurda. Lá dentro parecia haver um fantasma por centímetro quadrado. E eu li a carta... com sua assinatura trêmula... Ele me respondera três dias antes de morrer. Lembrar disso me emociona. Este homem mudou minha vida. Ainda hoje. Pensar nele me faz querer tocar as sinfonias de Beethoven melhor do que nunca. É o que vamos fazer na Osesp.

 

Seu début como Regente Titular da Osesp não poderia ter um repertório mais adequado.

 

Apresentar um ciclo completo das sinfonias de Beethoven é um privilégio e uma oportunidade única — não teremos chance de fazer isso muitas vezes. No relacionamento com os músicos, espero que possamos desenvolver essa noção de “deixar fluir”.

 

Vou realizar um trabalho intenso com eles, enviar meu próprio material, várias anotações sobre a parte dos sopros, estou revisitando tudo para nossos encontros. Esta será a quarta vez que apresento o ciclo completo das sinfonias de Beethoven. Sei bem o que está em jogo e, ainda assim, tenho me dedicado ao preparo deste ciclo como se estivesse abrindo uma partitura de Beethoven pela primeira vez. Isso com vinte anos de experiência com essas obras, como regente e como flautista.

 

O trabalho que faremos com Beethoven colocará nossa visão comum de excelência no mesmo plano, o que nos permitirá tocar melhor Bruckner, Stravinsky, Shostakovich, Strauss, Tchaikovsky, Mozart, Schubert... Estou determinado a fazer isso.

 

A postura independente de Beethoven como livre pensador no mundo do início do século XIX parece especialmente relevante para os tempos estranhos em que vivemos. É, sem dúvida, uma das expressões mais memoráveis dos ideais políticos e humanistas adotados pela Revolução Francesa. Objetivamente, isso é relevante para a compreensão artística de suas obras? De que modo?

 

Beethoven era um homem de ação, amava a vida e lutava para superar suas dificuldades. O amor e a liberdade estão no centro de sua singularidade. Ação, luta e amor: três coisas muito importantes para ele. Eu me identifico com essas ideias nesse ciclo de sinfonias.

 

Beethoven se sentia tão sozinho, tão incompreendido... nessas condições, desenvolveu um senso de ética que ninguém, em toda a história da música, jamais havia tido. Com sua visão única, ele se recusava a aceitar as convenções da sociedade. Haydn compôs 104 sinfonias perfeitamente de acordo com o esperado na época; Beethoven inicia sua primeira sinfonia — veja bem, logo a primeira — com uma dissonância. Isso é admirável! Ele rejeitava as formalidades em geral. Nunca considerou, sequer por um segundo, ser outra pessoa além dele mesmo2.  Outra grande inspiração para todos nós, artistas.

 

A luta é marca fundamental da vida de Beethoven. Ele precisava encontrar heróis. Como sabemos, descreveu diferentes heróis em suas composições, heróis que trouxeram a vitória. Mas o que eu percebo é que sua noção de vitória não significa sucesso. Sua noção de vitória é: nunca desistir. São coisas muito diferentes. Isso é Arte. Eu aprendo com ele todos os dias, até hoje. Ainda me sinto atraído por conhecê-lo mais.

 

Por que é tão importante para uma orquestra tocar essas obras repetidas vezes?

 

Porque a personalidade única de Beethoven desperta o desejo de responder a este chamado.

 

 

1 N. do E.: “Fazer todo o bem que se possa, amar sobretudo a liberdade e, mesmo que seja por um trono, jamais renegar a verdade.”

2 N. do E.: “Príncipes existem e existirão aos milhares, Beethoven há apenas um.”


Entrevista a Arthur Nestrovski
Tradução de Claudia Morales