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ENSAIOS
Elas Orquestrais: Viva Azamiga!
Autor:Heloísa Fischer
08/mar/2017

"Respeita as mina (sic). A revolução será feminista ou não será. Women do it better. Leio estas frases todos os dias, ao cruzar a pequena rua sem saída onde moro. As primeiras ocupam lados opostos do mesmo poste. A frase em inglês está na sala de um apartamento térreo, em cartolina rosa. 'Há uma ativista na vizinhança', talvez você pense.

 

Mas não. Cada frase surgiu em separado, ao longo do tempo. São lembretes urbanos de um grande avanço social. A discussão sobre o lugar da mulher está na ordem do dia, todos os dias, de forma visível, vigorosa e assertiva.

 

Este processo, nítido nas ruas, parece ter ganhado vulto com a hiperconectividade e a comunicação em rede. A infosfera é um espaço de convívio que propicia ações coletivas, facilita interações comunitárias, confronta divergências, estimula debates... e fortalece a musculatura da articulação feminina. Fragilidade virou estereótipo datado, felizmente.

 

Bastam alguns minutos em feed de notícias de redes sociais para saltar aos olhos o vigor e a assertividade dos posts de mulheres, publicando individualmente ou em grupos. O mesmo no Whatsapp. Igual situação ocorre no mundo off-line. Em comparação com poucos anos atrás, o discurso, a atitude e a mobilização das mulheres ganharam força inédita.

 

Estas vozes potentes são ouvidas nos ambientes de trabalho, na política, na família, no esporte, na arte, na cultura. E também, claro, chegam à música clássica e às orquestras. O mundo dos concertos, marcado pela manutenção de suas tradições e pela aridez de espaços ocupados por mulheres, tem demonstrado uma bem-vinda sintonia com o espírito do tempo.

 

Ficou para trás a época em que abordar a presença feminina em composição e regência significava resgatar nomes de outrora ou reclamar da escassez vigente. Havia mesmo poucos nomes em destaque. Parecia suficiente evocar Hildegard von Bingen, Clara Schumann, Fanny Mendelsshon e Chiquinha Gonzaga ou relembrar a memória de Nadia Boulanger.

 

Era justificada a acidez ao criticar a Filarmônica de Viena por chegar ao século 21 sem jamais ter empregado musicistas. Apontar o machismo das batutas ao redor do globo. Cobrar orquestras brasileiras pela baixíssima cota de mulheres. Protestar pela escassa participação delas em cargos de gestão.

 

Alguns marcos nacionais e internacionais em duas décadas pavimentaram caminhos rumo à igualdade de gênero. A cronologia começaria em 1994, com Naomi Munakata tornando-se regente do Coro da Osesp. Dois anos depois, Ligia Amadio assumia a regência titular da Orquestra Sinfônica Nacional da UFF, no Rio.

 

Em 1998 foi a vez de Claudia Toni ser indicada diretora-executiva da Osesp. Deborah Borda chegou à presidência da Filarmônica de Los Angeles no ano 2000. O veto feminino em Viena caiu em 2002. Marin Alsop assumiu a direção musical da Sinfônica de Baltimore em 2007.

 

O horizonte atual é bem mais amplo. Experimente dar um Google na expressão em inglês women conductors (regentes mulheres) e surgirão mais de trinta grandes profissionais. Frente a tal galeria, o comentário misógino do maestro Vasily Petrenko em 2013 –'Uma moça bonita no pódium desvia a mente para outro lugar' –soa ainda mais anacrônico.

 

Marin Alsop é, sem dúvida, o maior nome. A americana JoAnn Falleta faz um importante trabalho. As jovens Alondra de la Parra, mexicana, e Joana Carneiro, portuguesa, já mostraram na Sala São Paulo por que são reverenciadas não só em seus países de origem. A ainda-mais-jovem Mirga Gražinytė-Tyla, da Lituânia, há pouco assumiu a direção musical da Sinfônica de Birmingham.

 

Susanna Mälkki, finlandesa que regeu a Osesp em 2014, foi escolhida 'Regente do ano 2017' pelo guia internacional Musical America. A brilhante italiana Speranza Scapucci, primeira mulher a subir (recentemente) no pódium da Ópera de Viena. A inglesa Sian Edwards, que já esteve conosco no Festival de Campos do Jordão, orientando e dirigindo a orquestra de alunos. Devemos, também, prestar atenção na trajetória consolidada de Simone Young, da Austrália, na neozelandesa Gemma New, que mal chegou à casa dos 30, na chinesa Xian Zhang; na sul-coreana Han-Na Chang; e em Yip Wing-sie, de Hong Kong.

 

É importante também observar o crescimento significativo do número de compositoras no circuito clássico internacional. Das russas Sofia Gubaidulina e Lera Auerbach (compositoras visitantes da Osesp nas temporadas 2010 e 2012) à americana Missy Mazzoli, da cubana Tania León à britânica Tansy Davies: a quantidade de talentos é tão grande quanto a diversidade de estilos.

 

O novo ethos sinfônico não só garante como exige uma maior presença feminina. Neste cenário, a Osesp apresenta caráter único no país – e até internacionalmente. Além das regentes Marin Alsop e Valentina Peleggi (titular e assistente), a orquestra receberá na temporada 2017 Nathalie Stutzman (artista associada), Isabelle Faust (artista em residência) e Unsuk Chin (compositora visitante).

 

Um incrível time de mulheres para nos inspirar por todo ano. Que a arte delas ultrapasse os limites da sala de concertos e entusiasme muitas brasileiras a se aproximarem da música clássica. E não se surpreenda caso surja um post mais ou menos assim na sua timeline – será mais um lembrete vigoroso e assertivo de avanço social:

 

Osesp lacrando em 2017 com azamiga Marin, Valentina, Nathalie, Isabelle e Unsuk. Mitou geral!

 

 

HELOISA FISCHER é jornalista, fundadora e diretora criativa de VivaMúsica!. Produz o podcast "Música clássica y beyond".