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Concerto para Trombone, Op.114: Allegro e Presto
Max BRUCH
Romance para Viola e Orquestra em Fá Maior, Op.85
Arthur HONEGGER
Intrada Para Trompete e Piano
Jean FRANÇAIX
Concerto para Clarineta e Orquestra: Allegro
Giuseppe TARTINI
Concerto para Trompete em Ré Maior
Alexey Konstantinovich LEBEDEV
Concerto para Trombone Baixo: Andante Cantable
Pyotr I. TCHAIKOVSKY
Concerto Para Violino em Ré Maior, Op.35: Allegro moderato
Antonín DVORÁK
Concerto para Violoncelo e Orquestra, Op.104: Allegro
Franz STRAUSS
Noturno
Carl Maria von WEBER
Concerto para Fagote em Fá Maior, Op.75: Allegro
Carl HÖHNE
Fantasia Eslava
Robert SCHUMANN
Três Romances para Oboé e Piano, Op.94
Sonata nº 1 Para Violino e Piano em Lá Menor, Op.105
Wolfgang A. MOZART
Adágio para Corne Inglês e Cordas em Fá Maior, K.580a
Quarteto para Oboé e Cordas em Fá Maior, K.370: Allegro
Richard STRAUSS
Don Juan, Op.20
Hector BERLIOZ
A Morte de Cleópatra
Claude DEBUSSY
Clair de Lune [orquestração de André Caplet]
Hector BERLIOZ
A Cativa, Op.12
Maurice RAVEL
Daphnis et Chloé: Suíte nº 2
Henk van LIJNSCHOOTEN
Ouverture 2000
Antonín DVORÁK
Sinfonia nº 9 em Mi Menor, Op.95 - Do Novo Mundo: IV Movimento
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Segurança
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Sonda-me
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Con te Partirò
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Ópera Turandot: Nessum Dorma
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ENSAIOS
Padre José Maurício: 250 anos
Autor:Carlos Alberto Figueiredo
01/mar/2017

José Maurício Nunes Garcia, considerado o maior compositor brasileiro do período colonial, nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de setembro de 1767, filho de escravos alforriados, Apolinário Nunes Garcia e Vitória Maria da Cruz. Órfão de pai aos seis anos, passou a viver com a tia e a mãe. Em 1792, tornou-se padre — mas, apesar de sua condição, casou-se com Severiana Rosa de Castro, parda como ele, com quem teve seis filhos.


José Maurício teve sua formação musical inicial com um conterrâneo de sua mãe, o músico mineiro Salvador José de Almeida e Faria (1732–99). Os anos de seminário lhe garantiram sólida formação humanista.


Considera-se tradicionalmente o ano de 1783 como o início da sua atividade profissional como músico, tomando como referência a data atribuída àquela que seria sua primeira obra: a antífona Tota Pulchra, CPM 1. O fato de José Maurício estar entre
 os signatários da fundação da Irmandade de Santa Cecília, em 1784, aos dezessete anos, atesta também sua precocidade como músico profissional.


Em 1795, foi nomeado professor público de música e passou a dar aulas gratuitas em sua casa da rua das Marrecas, tendo sido professor de Francisco Manoel da Silva (1795–1865) e Francisco da Luz Pinto (c.1798–1865), entre outros músicos de destaque de sua época. Sua atividade nesse curso perdurou até 1822.


Em 2 de julho de 1798, foi nomeado mestre de capela da Sé e Catedral do Rio de Janeiro, e, com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, foi nomeado também, pelo príncipe-regente D. João, Mestre da Real Capela. As atividades de José Maurício ligadas ao seu posto aumentaram muito com a chegada de D. João. Além de compositor, atuava como organista, arquivista, regente, administrador de pagamento de músicos, entre outras funções, o que provocou a fragilização de sua saúde.


Permaneceu oficialmente no posto de Mestre da Capela Real — e, a partir de 1822, Imperial
— até o final de sua vida, embora haja dúvidas sobre sua real participação nas principais funções da capela a partir da chegada do compositor português Marcos Portugal (1762–1830), em 1811. Fazia também parte de suas funções as composições encomendadas por D. João para a Real Quinta de Santa Cruz. Além de todas essas atividades, há muitos registros sobre composições feitas por José Maurício para irmandades cariocas.


Sua atuação como regente foi muito importante para a vida musical na cidade. José Maurício dirigiu o Réquiem de Mozart, na Igreja de Nossa Senhora do Parto, no Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1819. Na mesma ocasião, foi ouvido o Ofício de Defuntos, de David Perez (1711–78). Há indícios de que também teria conduzido A Criação de Haydn.


A maior parte da grande produção de José Maurício é sacra ou religiosa, sendo composta, em sua maioria, para quatro vozes: soprano, contralto, tenor e baixo. A paleta instrumental utilizada pelo compositor inclui prioritariamente as cordas. Entre as madeiras, as flautas, as clarinetas e os fagotes predominam, com numerosos solos para os dois primeiros instrumentos. A única obra em fonte autógrafa que utiliza o oboé é a Missa de Santa Cecília, CPM 113. Os metais mais utilizados são as trompas e os clarins. Os trombones só aparecem, em fontes autógrafas, na mesma obra que os oboés. O tímpano está presente em várias obras de maior porte.

 


Em boa parte de suas obras sacras e religiosas, o acompanhamento se limita ao orgão. Porém, há uma distinção importante nas partes para esse instrumento, sempre considerando apenas as fontes autógrafas. Nas datadas até 1801, a parte de órgão é exclusivamente um baixo cifrado. Nas obras a partir de 1809, há uma mistura intensa de baixo cifrado com escrita obrigada na mesma parte de órgão. Entretanto, a Missa Dos Defuntos, CPM 184, de 1809, apresenta ainda a parte de órgão estritamente como baixo cifrado. Em obras com acompanhamento orquestral, a partir de 1809, não há mais a parte do órgão, e, consequentemente, a presença do baixo cifrado, com exceção da Missa Pastoril, CPM 108, de 1811, e das Matinas do Apóstolo São Pedro, CPM 173, de 1815.


Sua música para a Semana Santa apresenta características contrastantes. Embora a maioria seja austera e concisa, apenas para vozes
 e órgão, evocando o estilo antigo, outras são exuberantes, tais como duas composições feitas sobre o texto do gradual Haec Dies, CPM 209 e 210, para o Domingo da Páscoa.


Destaca-se, no período entre 1793 e 1800, a grande quantidade de graduais, composições curtas, para quatro vozes e instrumentação reduzida: cordas, flautas e trompas. Outro grupo notável de composições curtas são os hinos para matinas, laudes ou vésperas, sempre para vozes e órgão. Nenhuma das fontes registra a data, mas o fato de serem escritos, quase todos, para a Capela Real, indica que sejam posteriores a 1808.


As obras de José Maurício são predominantemente homofônicas e o uníssono nas vozes é muito usado, sendo poucas as fugas existentes.


Quatro missas se destacam em sua produção: Missa de Nossa Senhora da Conceição, CPM 106, Missa Pastoril, CPM 108, Missa de Nossa Senhora do Carmo, CPM 110, e a Missa de Santa Cecília, CPM 113. Esta, com claras características românticas, foi composta em 1826, como encomenda da Irmandade de Santa Cecília, e representa a culminância da produção mauriciana, mas também seu ocaso, sendo considerada sua última composição.


Suas obras fúnebres têm características bastante diversas. Num extremo, encontramos o Ofício Dos Defuntos, CPM 183, de 1799, em estilo antigo, apenas com acompanhamento de órgão, austero e conciso. No outro extremo, o Ofício Dos Defuntos, CPM 186, de 1816, dramático, exuberante, rico em variações texturais e tonais, além de ser instrumentado. A comparação entre a Missa de Réquiem, CPM 184, de 1809, e a de 1816, CPM 185, também mostra grandes contrastes. A primeira, mais concisa, utiliza apenas as vozes, com variações de textura, e acompanhamento de órgão, enquanto a de 1816, orquestrada, apresenta solos de grande expressividade, tais como o “Ingemisco”, para soprano.


As obras profanas são bem mais raras que as sacras ou religiosas. São conhecidas apenas três obras instrumentais: a Sinfonia Fúnebre, a Abertura Zemira e a Abertura em Ré. As obras dramáticas conhecidas se concentram nos anos de 1808 e 1809: Coro Para o Entremês, CPM 227, de 1808, O Triunfo da América, CPM 228, e Ulissea — Drama Eroico, CPM 229, de 1809. A existência ou não da única ópera de José Maurício, Le Due Gemelle, que teria sido encomendada por D. João para o Real Teatro São João, é cercada de controvérsia. Entre as modinhas, encontramos Beijo a Mão Que me Condena, CPM 226, Marília, se Não me Amas, CPM 238, e No Momento da Partida, Meu Coração t’Entreguei, CPM 239.


As fontes manuscritas que transmitem a obra de José Maurício podem ser encontradas em acervos brasileiros e estrangeiros: Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ, Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro, Museu Carlos Gomes (Campinas), Museu da Inconfidência (Ouro Preto), orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense (São João del-Rei), Museu Romântico (Montevidéu, Uruguai) e Palácio Ducal de Vila Viçosa (Portugal). O Acervo Cleofe Person de Mattos reúne vasta documentação digitalizada ligada às pesquisas da musicóloga em torno do compositor, e está disponível em CD-ROM e no site www.acpm.com.br.


José Maurício é o compositor brasileiro sacro mais publicado. O Catálogo de Publicações de Música Sacra e Religiosa Brasileira (CMSRB) aponta 176 obras publicadas entre 1897 e o presente, representando cerca de 30% do total. As publicações de obras profanas são bem menos frequentes.


Sua discografia abarca, do ano de 1949 ao presente, cerca de 150 obras gravadas, em acetatos, LPs, CDs e DVD.

 

Vários estudos musicológicos têm focalizado o compositor carioca, destacando-se o Catálogo Temático Das Obras do Padre José Maurício Nunes Garcia, publicado em 1970, e José Maurício Nunes Garcia: Biografia, publicado em 1997, ambos da pesquisadora Cleofe Person de Mattos.


Em 2017, na comemoração dos 250 anos de nascimento de José Maurício, sua obra terá grande destaque na temporada da Osesp. Duas de suas raras obras orquestrais serão apresentadas em concerto: a protofonia Zemira, de 1803, e a Abertura em Ré, composta em data desconhecida. Duas de suas obras fúnebres também terão destaque nesta temporada: o Ofício Fúnebre a Oito Vozes, CPM 191, composto em data desconhecida, e a Missa de Réquiem, de 1809.


O Ofício Fúnebre, já executado na temporada de 2015, apresenta textura rara na obra mauriciana, a oito vozes, com acompanhamento de órgão. A obra apresenta os nove responsórios, nos quais os versos têm a textura a quatro vozes. É grande a variedade tonal e harmônica, expressando de forma decisiva o texto litúrgico das matinas de defuntos. A Missa de Réquiem é a quatro vozes, mas com algumas seções a duas vozes, sempre com acompanhamento de órgão.


As duas obras fúnebres serão lançadas em gravação pelo Selo Digital da Osesp, com publicação simultânea de suas edições críticas pela editora Criadores do Brasil: a primeira realizada por Carlos Alberto Figueiredo, a partir de fontes de cópias de época, e a segunda por Jetro Meira de Oliveira, a partir do manuscrito autógrafo.

 

CARLOS ALBERTO FIGUEIREDO é regente do Coro de Câmara Pro-Arte do Rio de Janeiro e professor de regência coral e análise musical na UNIRIO.