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ENSAIOS
Unsuk Chin: Ordem, Caos e Computadores
Autor:Hanno Ehrler
01/mar/2017

“Berlim é uma cidade como nenhuma outra no mundo. É uma cidade grande com muitas ofertas culturais: você tem tudo aqui. Mesmo assim, a cidade também tem o charme de uma cidade pequena”, diz Unsuk Chin. Ela acrescenta, você pode fazer o que quiser, seja se envolver na cena musical ou, se preferir, se retirar e ficar anônimo. A compositora gosta muito de morar na capital alemã e não tem nenhuma intenção de se mudar.


No entanto, se pensarmos na cena da música nova, pode parecer surpreendente que Chin se sinta tão à vontade na Alemanha. Afinal, as obras da compositora raramente aparecem
nos programas dos festivais de música nova. Embora viva no país há quase trinta anos, ela nunca participou do Festival de Donaueschingen ou dos Cursos de Música Nova em Darmstadt. Apenas em 2000 e 2013 sua música foi apresentada no festival de música de câmara de Witten. O festival Supersonic de Berlim apresentou um pequeno concerto seu em 2001, e de quando em quando o Ensemble Modern e o Ensemble Musikfabrik apresentam sua música.


A distância de Chin em relação à cena da música contemporânea certamente se baseia na recusa da compositora a se adaptar ao modo como essa cena funciona. Para quem ambiciona ter uma carreira no circuito da música nova, é necessário aceitar muitas encomendas e ficar constantemente em evidência — permanecendo no radar dos organizadores dos festivais. Chin acha isso insuportável: ela prefere não ser obrigada a terminar um trabalho sob pressão de prazos, por vezes às expensas da qualidade.


A situação do circuito de concertos “clássicos” é diferente, embora as obras de Chin não sejam de maneira alguma composições que façam concessões em termos de gosto; ao contrário, sua produção é contemporânea e desafiadora. Nesse contexto, sua música é frequentemente executada por conjuntos e músicos de primeiro nível, internacionalmente aclamados. A estreia mundial de seu Concerto Para Violino, por exemplo, foi com Viviane Hagner [a mesma solista que vem tocar o Concerto com a Osesp neste ano] e a Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim, sob regência de Kent Nagano. Mais tarde, seria interpretado por Christian Tetzlaff e a Filarmônica de Berlim, regidos por Simon Rattle. A música de Chin é apresentada nas principais salas de cidades como Londres, Nova York, Los Angeles, Estocolmo, Amsterdã, Paris e Tóquio — e com muito maior frequência do que na Alemanha.


Chin teve que superar uma série de obstáculos na busca por seu caminho na música. Seu pai tinha um piano e, desde muito cedo, ela queria ser pianista — mas a família não tinha dinheiro para pagar pelas aulas. Aprendeu o instrumento sozinha e estudou teoria musical também
por conta própria. Mais tarde, foi aprovada na Universidade Nacional de Seul, onde havia dois cursos de composição: música tradicional coreana ou música europeia. Chin escolheu a segunda opção e, de 1981 a 1985, foi aluna de Sukhi Kang, que, por sua vez, havia estudado com o compositor sul-coreano Isang Yun em Berlim.


Foi Sukhi Kang quem despertou o entusiasmo de Chin pela música de György Ligeti. Graças a uma bolsa do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico), a compositora teve oportunidade de continuar seus estudos com o próprio Ligeti em Hamburgo, a partir de 1985. Die Troerinnen [As Troianas], para três sopranos, coro feminino e orquestra — a primeira peça que Chin quis incluir em seu catálogo —, foi escrita em 1986, durante esse período de formação.


Em 1988, a compositora decidiu explorar o potencial da música eletroacústica e mudou-se para Berlim. No ano seguinte, terminou sua primeira peça puramente eletrônica, Gradus ad Infinitum, no estúdio da Universidade Técnica
de Berlim. Embora o catálogo de obras de Chin contenha apenas algumas peças com ou para equipamento eletrônico, seu fascínio pela composição eletroacústica e o desenvolvimento de sons eletrônicos continua o mesmo até hoje; como exemplificado pelas obras Xi, para conjunto e aparelhos eletrônicos, e Double Bind?, para violino e equipamento operado ao vivo.

 

Chin não reconhece uma identidade sul-coreana em seu trabalho como compositora. Pelo contrário: “Acho muito irritante o fato de que, por eu ser de origem coreana, minha obra automaticamente seja submetida ao estereótipo da música asiática”, diz ela. Apesar de eventualmente usar instrumentos típicos — como em Su (2009), peça para sheng e orquestra —, isso não deve
ser interpretado como um sinal de uma filiação com a tradição musical do leste asiático. Chin acredita que, de uma perspectiva composicional e de estética musical, não existem fronteiras entre os instrumentos asiáticos e os europeus: a questão é expandir o espectro tradicional dos instrumentos e seus universos sonoros.


Todas as obras de Unsuk Chin se caracterizam por um método estrito de construção. A música gera uma impressão a partir de contornos pungentes e definidos com transparência; por meio de uma linguagem melódica lúcida, que se limita a poucos elementos simples, e de timbres orquestrados com uma ideia precisa de suas qualidades. Desde o início de seu processo de criação, a compositora concebe uma visão estrutural dos materiais musicais com os quais trabalhará, pois deseja manter tudo sob controle. A bem da verdade, Chin se descreve como uma control freak [controladora obsessiva], e é por isso que ela demonstra tanto entusiasmo pela música eletroacústica, na qual tudo pode ser precisamente determinado. [...]

 

Unsuk Chin assume uma posição singular no campo da composição contemporânea — não por sua recusa em participar da cena da nova música, mas por razões estéticas. A obra da compositora é única na música contemporânea. Chin desenvolveu uma linguagem musical que não é derivativa nem tributária da obra de nenhum professor ou nenhuma escola de composição em particular. Sua obra é diferente, em sua natureza e em sua essência, de todo tipo de música, de quaisquer outras origens. No entanto, o mais surpreendente de tudo talvez seja o fato de Chin ter obtido tanto sucesso no circuito de concertos clássicos, sem fazer concessões quanto à modernidade de suas composições. Sua música é a prova viva de que a composição contemporânea é capaz de gerar grande envolvimento emocional e entusiasmo.

 


HANNO EHLER 
é musicólogo
e colaborador do jornal Frankfurter Allgemeine. Trechos de texto originalmente publicado no catálogo Roche Commissions de 2014, reproduzido sob autorização do Festival de Lucerna. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza.

 

 

 

CRONOLOGIA DE UNSUK CHIN

 

/1961
Unsuk Chin nasce a 14 de julho, filha de um ministro presbiteriano em Seul, Coreia do Sul.

 

/1965
Seu pai ensina-lhe os rudimentos da leitura musical;
ela começa a aprender piano sozinha, e logo está tocando nos serviços da igreja, em casamentos e em outras ocasiões.


/1974
Sem poder tomar aulas de piano por falta de recursos da família, decide aos treze anos de idade seguir carreira de compositora.


/1981
Começa a estudar na Universidade Nacional de Seul.


/1982-4
Estuda composição com Sukhi Kang, compositor sul-coreano, ex-aluno do compatriota Isang Yun em Berlim. Chin é apresentada à música europeia do pós-guerra.


/1983
Compõe Gestalten [Formas] (a partir de três pinturas de Paul Klee), para flauta, violino e piano.


/1984
Gestalten é escolhida pela Sociedade Internacional de Música Contemporânea (ISCM) para integrar o festival World Music Days, em Montreal.


/1985
Spektra tem estreia mundial em Amsterdã, onde a peça conquista o Grande Prêmio da Competição de Composição Internacional Gaudeamus. Chin recebe uma bolsa do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e se muda para a Alemanha.


/1985–8
Estuda composição com György Ligeti na Universidade de Música e Teatro de Hamburgo.


/1988
Conclui os estudos com Ligeti e retorna a Berlim, onde vive desde então.


/1989
Inicia uma parceria de dez anos com o Estúdio Eletrônico da Universidade Técnica de Berlim. Estreia mundial de Gradus ad Infinitum, em Amsterdã.


/1993
Santika Ekatala estreia a 6 de outubro em Tóquio e conquista o primeiro prêmio na Competição de Obras Orquestrais da Comemoração dos 50 Anos do Governo Metropolitano.


/1994
Assina um contrato de exclusividade com a editora londrina Boosey & Hawkes.


/1997
Estreia o Concerto para Piano, com a Orquestra Nacional de Gales da BBC e o solista Rolf Hind, em Cardiff.
Os Estudos Para Piano nº 2, 3 e 4 conquistam o primeiro prêmio de música contemporânea para piano no Concurso Internacional de Piano de Orléans (França).
Torna-se pela primeira vez membro do júri dos ISCM World Music Days.


/2000
Estreia o Estudo Para Piano nº 6, peça encomendada para comemorar o aniversário de 75 anos de Pierre Boulez, com o pianista Rolf Hind, no Southbank Centre
em Londres.

Estreia Spectres-Spéculaires, no Festival de Música Contemporânea de Câmara de Witten.


/2001
Estreia Kalá, com a Sinfônica de Gotemburgo regida por Peter Eötvös, em Gotemburgo.
Estreia a versão definitiva de Miroirs Des Temps, com o Hilliard Ensemble e a Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim regida por Kent Nagano, em Berlim.


/2001-2

É compositora em residência da Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim.


/2002
Estreia o Concerto Para Violino, com Viviane Hagner como solista e a Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim regida por Kent Nagano.


/2005
Em abril, o Concerto Para Violino é interpretado por Christian Tetzlaff e a Filarmônica de Berlim regida por Simon Rattle, em Berlim.
Chin conquista o prêmio Arnold Schoenberg, em Viena.
Um CD de peças de Chin gravadas pelo Ensemble Intercontemporain é lançado na série 20/21 da Deutsches Grammophon.


/2006
É convidada pelo regente Myung-Whun Chung para ser compositora em residência da Orquestra Filarmônica de Seul.


/2006-7
Estreia Double Bind?, com a violinista Hae-Sung Kang, marcando o início da colaboração de Chin com o Ircam, em Paris.


/2007
Estreia Alice in Wonderland,
a primeira ópera de Chin, montada por Achim Freyer e regida por Kent Nagano no Teatro Nacional da Bavária, na abertura do Festival de Ópera de Munique. A obra foi eleita a melhor estreia do ano numa votação de críticos internacionais da revista Opernwelt, e incluída na lista das melhores do ano do Los Angeles Times.
Recebe o Heidelberg Artist Prize e os prêmios das fundações Kyung-Ahm e Daewon.


/2008
Estreia Rocaná, com a Orquestra Sinfônica de Montreal regida por Kent Nagano, em Montreal.


/2009
Estreia o Concerto Para Violoncelo, com o solista Alban Gerhardt (para quem a peça foi escrita) e a Orquestra Sinfônica Escocesa da BBC regida por Ilan Volkov, durante o festival BBC Proms, em Londres.


/2009–10
É compositora em residência da Philharmonie em Essen.


/2010
Gougalon conquista o Prêmio de Composição Musical da Fundação Prince Pierre de Mônaco.
O Concerto Para Violoncelo conquista um British Composer Award.
O álbum de peças de Chin lançado em 2009 pelo selo
Analekta é indicado para o Midem Classical Award de 2010.


/2011
Estreia Fanfare Chimérique, com o Ensemble Intercontemporain, no Centro Georges Pompidou, em Paris.
É convidada pelo regente Esa-Pekka Salonen para ser diretora artística da série Music of Today, da orquestra Philharmonia (Londres).
A Orquestra Sinfônica da BBC dedica um dia inteiro à música de Chin como parte de sua série Total Immersion.


/2012
Vence o Ho-Am, o mais cobiçado prêmio de artes da Coreia do Sul.
Esa-Pekka Salonen rege o Concerto Para Violino, com Viviane Hagner como solista no Festival de Edimburgo e no Festival Beethoven, em Bonn.
A 25 de agosto, Unuk Chin recebe encomenda da série Roche Commissions.


/2013
Estreia Graffiti, com a Filarmônica de Los Angeles regida por Gustavo Dudamel, em Los Angeles. A primeira apresentação alemã foi em 9 de junho, em Colônia, como parte da série WDR do Musikfabrik.
Gougalon é apresentada pela primeira vez nos EUA, com Alan Gilbert e a Filarmônica de Nova York. A apresentação é listada pela New York Magazine como um dos dez melhores concertos clássicos do ano.
Estreia a nova versão do Concerto Para Violoncelo, no Teatro Nacional de Munique, com o violoncelista Alban Gerhardt
e a Orquestra Estatal da Baviera regida por
Kent Nagano.
É a principal atração dos quatro dias do Tonsättarfestivalen, em Estocolmo.


/2014
É compositora em residência na Casa da Música (Porto) e no Festival de Lucerna, onde estreia Le Silence Des Sirènes, com a soprano Barbara Hannigan e a Orquestra Acadêmica do Festival de Lucerna regida por
Simon Rattle.


/2015
Estreia mundial de Mannequin, no Sage Gateshead (Reino Unido), pela National Youth Orchestra regida por Ilan Volkov.
A Ópera Real de Londres encomenda a segunda ópera de Chin, Alice Through The Looking Glass, com previsão de estreia na temporada 2018-9.


/2017
É compositora visitante da Osesp.