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ENSAIOS
O Desafio de Interpretar um Grande Mestre
Autor:Isabelle Faust
01/mar/2017

Quando eu era estudante, meu professor, Christoph Poppen, era muito aberto para a questão da interpretação historicamente informada e também muito consciente dos problemas estilísticos entre Bach e a tradição do violino com a qual havíamos crescido — penso nas lendárias gravações de Henryk Szeryng, Nathan Milstein ou Arthur Grumiaux. Estávamos acostumados àquelas versões e não nos sentíamos automaticamente impulsionados a procurar saber de um caminho de interpretação historicamente mais informado. E, claro, esse repertório é tecnicamente tão difícil que o desafio de tentar tocar as notas afinadas e com uma qualidade de som aceitável já é suficiente para manter qualquer violinista ocupado por bastante tempo!


O aspecto da informação histórica entrou no meu processo de trabalho de maneira mais séria apenas depois de formada. Fui estimulada por colegas à minha volta e também por ter cada vez mais contato com conjuntos historicamente informados e com músicos maravilhosos do piano e do cravo, como Andreas Staier [também presente na Temporada 2017 da Osesp], que considero uma das minhas influências musicais mais fortes. Desde a primeira vez que toquei com corda de tripa, ao lado da orquestra de câmara Concerto Köln, tenho procurado explorar cada vez mais esse campo — e venho gostando muito. Tenho tido a sorte de tocar bastante com corda de tripa e instrumentos históricos ultimamente. E isso, é claro, me levou a procurar uma abordagem completamente diferente de Bach do que aprendi quando era jovem.


A música de Bach é cheia de pontos de interrogação para nós — existem muitos caminhos possíveis para escolher, e estamos longe de ter qualquer indicação suficientemente concreta, de primeira mão. Não sabemos sequer ao certo por que ele escreveu as Sonatas e Partitas. Quando eu estava planejando gravar essas peças, achei que a melhor maneira de lidar com o aspecto temerário de se fazer mais uma gravação dessas, que talvez sejam
 as peças mais difíceis do repertório de violino, seria encontrar o máximo possível de informação sobre aquela música e, assim, ter pelo menos a ilusão de algum tipo de terreno seguro em que pisar.


É preciso ser bastante desapegado e controlado quando se apresenta a música quase “universal” das Sonatas e Partitas de Bach, mas ao mesmo tempo é preciso que seja algo vindo do fundo do coração. Tenho me esforçado para obter toda informação teórica, para digeri-la e unificá-la com aquilo que, no fundo, me liga emocionalmente à música. Às vezes acho difícil encontrar meu caminho, em meio a tanto trabalho intelectual, em direção a uma interpretação pessoal, mas “informada”. Eu não queria soar seca ou didática.


Quando finalmente chegou a hora de gravar, tentei parar de me preocupar com questões teóricas, para fazer uma versão muito pessoal. Bach será sempre uma tarefa difícil: ele é mais distante da nossa época do que muitos compositores que consideramos entre os mais executados hoje em dia. Basta lembrar que existe muita informação disponível sobre Brahms ou Schumann, por exemplo: relatos em primeira mão, cartas e outras pistas, até mesmo gravações de Joseph Joachim ou de alunos de Clara Schumann. Com isso, nos damos conta de que estamos apenas algumas gerações depois deles.


ISABELLE FAUST

Texto publicado originalmente na revista The Strad, em julho de 2013, reproduzido sob autorização. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza.