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ENSAIOS
Entrevista: Paulo Szot | Esplendor vocal
Autor:Claudia Morales
14/mar/2019

Um dos cantores brasileiros de maior sucesso no mundo, o barítono Paulo Szot mal suspeitava de seu potencial sonoro quando foi para a Polônia praticar disciplinadamente os "pliés", "grand jetés" e "fouettés" que, sonhava, fariam dele um grande bailarino. Não hesitou em abraçar um novo caminho que a vida lhe mostrou por lá. Hoje ele mora em Nova York e é um dos nomes mais festejados da Broadway, além de se apresentar regularmente nos grandes teatros da cena lírica. Sua voz privilegiada, presença marcante e dedicação apaixonada ao palco poderão ser conferidas novamente ao vivo na Sala São Paulo, como Artista em Residência da Osesp.

 


 

Você foi para a Polônia, país de origem dos seus pais, concluir sua formação como bailarino. Após uma lesão nos joelhos, viu seu sonho de dançar cair por terra. Foi só então que descobriu seu potencial vocal. Poderia nos contar sobre essa transição em sua carreira? Qual sua formação musical e como foram suas primeiras experiências como cantor?

 

Eu queria dançar. Foi só quando me contundi que procurei o coro da universidade [Universidade Jaguelônica, na Cracóvia]. Quando comecei a repetir os vocalizes que eram determinados pelo regente, ele arregalou os olhos e me disse que teria um bom material vocal a ser explorado e desenvolvido. A partir dessa revelação, quis me tornar um cantor profissional e investi cada minuto no canto. Depois de dois anos, fiz minha primeira audição professional. Lembro-me que o diretor da Companhia [Nacional de Canto e Dança Slask] me ouviu e perguntou se eu tocava algum instrumento. Eu disse que havia estudado violino e piano, ele então me pediu para tocar algo no piano. Toquei uma Polonaise de Chopin. Depois de alguns compassos, o regente me avisou que eu estava contratado e que no dia seguinte deveria encontrá-lo na estação ferroviária de Cracóvia, pois iríamos, junto com outra jovem recém-admitida, até a cidade de Katowice, onde um ônibus nos levaria à sede da companhia, em Koszecin. O que eu não sabia era que a sede ficava num castelo no meio de um bosque, e nos arredores havia apartamentos disponíveis para os artistas contratados. Tudo parecia um sonho. Eu tinha 20 anos; mudei-me para lá e nunca mais parei de cantar.


Como se deu a passagem de coralista a protagonista de ópera?


Bem, ainda na Companhia Slask, fui promovido de coralista para solista após dois anos. Minha família me visitava uma vez ao ano e às vezes eu conseguia voltar para o Brasil por algumas semanas, geralmente em dezembro. Foi numa dessas visitas à família, em 1994, que me inscrevi para o Concurso Internacional Luciano Pavarotti. Ele viria ao Brasil fazer alguns concertos e selecionar cantores brasileiros para seu Concurso Internacional, sediado na Filadélfia. Me inscrevi, fui selecionado, e viajei ao Rio de Janeiro para a primeira audição com o nosso maior barítono de todos os tempos, Paulo Fortes, que faria a pré-seleção para Pavarotti. Paulo me aprovou e no dia seguinte eu conheci o mais famoso tenor da época. Mais uma vez, tudo parecia um sonho. Cantei para Pavarotti, foi inacreditável! Ele me aprovou já para ser finalista. Nesse momento, decidi deixar a Polônia e continuei meu aperfeiçoamento nos Estados Unidos e no Canadá.


Após alguns meses na América do Norte, senti que era tempo de ficar mais perto da minha família. Fiz o concurso do Teatro Municipal de São Paulo, que oferecia vagas para coralistas de seu maravilhoso Coro Lírico. Passei no concurso e ingressei no Municipal em 1996. Logo depois, o maestro Luiz Fernando Malheiro, que na época era assistente do maestro Isaac Karabtchevsky, me ouviu e ofereceu meu primeiro papel como protagonista em uma ópera: o Fígaro de O Barbeiro de Sevilha, numa produção do Teatro Municipal de São Paulo, no Teatro Paulo Eiró, em 1997, regida pelo próprio maestro Luiz Fernando Malheiro e dirigida por Enzo Dara. Foi assim que estreei como solista na ópera — e foi na minha cidade natal, São Paulo.


Você ganhou o Tony Award, prêmio máximo do teatro nos Estados Unidos, pela interpretação de Emile de Becque, no musical South Pacific, em 2008. Como surgiu a oportunidade de participar do musical?


Eu já estava com minha carreira operística internacional de certa forma iniciada quando fi quei sabendo do interesse do Lincoln Center Theater na remontagem do South Pacific. Recebi um e-mail enquanto cantava Cosi Fan Tutte, na Ópera de Nice, e em seguida partiria para Boston. Como estaria relativamente perto de Nova York, seria possível participar da audição. O papel de Emile de Becque foi escrito originalmente para o grande baixo italiano Enzo Pinza, e queriam para a remontagem um ator com emissão operística também. Fiz a audição com mais de duzentos cantores de ópera; levei as canções e cenas do personagem. Fui convocado para mais duas audições e depois de algumas semanas obtive a confirmação e o contrato para fazer Emile de Becque no Lincoln Center Theater, o que seria também a minha estreia na Broadway.


Foi uma experiência sem precedentes, singular e inesquecível. Transformou minha vida, dentro e fora dos palcos, e foi um grande aprendizado. Eu sempre amei musicais, porém me dedicara somente à ópera até então. Aprendi sobre as premiações anuais e fiquei feliz e surpreso, confesso, quando os prêmios que antecedem o Tony foram chegando. Nunca sonhei que isso pudesse acontecer comigo. E então chegou a tão esperada noite da cerimônia do Prêmio Tony. Quando ouvi Liza Minnelli lendo meu nome naquele envelope tive que conter a emoção e, ao menos, conseguir agradecer à pessoas mais importantes da minha vida quando subi ao palco do gigantesco Radio City Music Hall, com transmissão ao vivo para o mundo todo. Era como a final da Copa do Mundo para os amantes de teatro. Até hoje, às vezes, é difícil acreditar…


Do ponto de vista técnico, quanto é diferente para um cantor lírico fazer musicais e cantar com microfone, por exemplo? E do ponto de vista artístico?


Do ponto de vista técnico, tive que aprender e criar resistência física e vocal para enfrentar oito apresentações semanais. Nunca pensei em relaxar a voz por causa dos microfones (não usados em ópera). Sempre cantei com a mesma técnica operística e vigor vocal. O que mudava era somente o estilo musical. Assim como aprendemos a cantar óperas barrocas, mozartianas, Lieder, o verismo etc., tive que aprender mais um estilo, o do teatro musical. No caso de South Pacific, o estilo da era de ouro da Broadway. Do ponto de vista artístico, aí sim era um outro universo...


O trabalho de criação de personagem na ópera é breve e sempre fica em segundo plano, isso não é uma crítica e, sim, um fato. A técnica vocal e excelência musical é o que rege a ópera, ou seja, todas as intenções devem estar na música e na execução vocal. E deve ser assim, na ópera. Por exemplo: não adianta nada o cantor ser um grande ator se não for primeiro um grande cantor. O canto fica sempre na frente.


Já no teatro, o canal de comunicação é outro. É a compreensão profunda da personagem, é o processo de construção e desconstrução de ideias, camadas, enfim, é o ator. E, no caso dos musicais, um ator que canta. Porém, meu objetivo foi tentar unificar o cantor com o ator e vice-versa. É difícil, mas quando isso acontece é extremamente prazeroso para quem está no palco e acredito que também para o público.


Sua estreia no Metropolitan Opera House, de Nova York, em 2010, com "O Nariz" (de Shostakovich), se deu justamente com o papel que você considera ter sido o mais difícil de sua carreira até o momento. O desafi o contou a favor?


Sim, sim e sim! É um grande sonho de todo cantor poder um dia cantar no Metropolitan Opera House. É a mais famosa casa de ópera de todos os tempos. Todos os grandes cantores se apresentaram lá, inclusive a nossa absoluta e maior representante na ópera, a grande diva Bidu Sayão — uma das maiores estrelas do Met na sua época.


Eu havia sido contratado como cover de Fígaro em As Bodas de Fígaro, em 2004, e de Don Giovanni, em 2005. Mas foi somente quando Peter Gelb, gerente-geral do Metropolitan Opera, me viu em South Pacific que me convidou para protagonizar O Nariz. Este é um Shostakovich bastante difícil e extenso. Kovaliov está em cena praticamente o tempo todo, e a escrita são malabarismos vocais virtuosos e infindos. Me apaixonei pelo papel imediatamente, e pelas dificuldades que apresentava também. De alguma forma, senti menos a pressão por estrear no Met com um papel pouco conhecido, confesso; mas mesmo assim as expectativas em torno dessa produção eram altas. Seria a primeira voz masculina brasileira a cantar no Met. Fui regido por Valery Gergiev e dirigido por William Kentridge. A montagem voltou ao Met em 2013, quando foi transmitida ao vivo para cinemas do mundo todo pela série “Live from Lincoln Center”.


Após esse primeiro contrato como protagonista, tive a honra de fazer parte da programação dessa incrível companhia por seis temporadas seguidas em repertórios tradicionais e contemporâneos como Carmen, O Morcego (de Strauss), Manon (de Massenet) e A Morte de Klinghoffer (de John Adams). A recepção positiva de O Nariz contribuiu para que outros grandes teatros como o La Scala de Milão, o da Ópera de Paris, Ópera de Roma, Bayerische Staatsoper [Munique], Ópera de São Francisco, entre outros, me oferecessem grandes oportunidades também. Então, com certeza, o desafio de O Nariz contou a favor, sim. Retorno ao Metropolitan Opera em outubro e novembro para a linda montagem de Madame Butterfly, de Puccini, no papel de Sharpless.


Em 2018, ano de centenário de nascimento de Bernstein, você cantou em vários lugares a Missa, regida por Marin Alsop, com quem já tinha trabalhado numa memorável versão de "Candide" com a Osesp, em 2014. Como tem sido esta parceria?


Trabalhar com Marin Alsop é um prazer enorme, e fazer Candide com a regente que havia dirigido a antológica produção da Filarmônica de Nova York, com Patti LuPone e Kristin Chenoweth, foi uma experiência inesquecível. Candide foi nosso primeiro grande trabalho juntos, graças ao convite do diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski. Desde o primeiro momento nos ensaios, me senti protegido e tranquilo, pois Marin transmite confiança, respeito e conhecimento.


Desde então, fizemos outros concertos com a Osesp e um com Kristin Chenoweth, em Baltimore. Marin me convidou para fazer o importantíssimo papel do Celebrante na monumental Missa, de Leonard Bernstein. A primeira montagem foi no Southbank Centre, de Londres, e em seguida no Festival de Ravinia [próximo a Chicago].


Nossa parceria continua durante minha estadia como Artista em Residência da Temporada, em São Paulo, onde faremos vários concertos com a Osesp.


Como Artista em Residência da Osesp, nesta Temporada, você participará de várias apresentações em programas diferentes com a orquestra, além de um concerto de música de câmara (com o pianista Nahim Marun) e "masterclasses". O que pode nos dizer sobre os vários repertórios e formatos?


Primeiro gostaria de enfatizar que foi com honra e felicidade imensas que recebi esse convite da Osesp, feito pelo Arthur Nestrovski. Significa muito para mim. A Osesp é a grande orquestra que nos representa internacionalmente, com suas turnês e suas primorosas gravações. Tem sede na magnífica Sala São Paulo, que é orgulho para nós, brasileiros. Ser Artista em Residência na Osesp, em 2019, é um marco na minha carreira.


Em junho faremos um concerto revisitando alguns grandes compositores sinfônicos e operísticos russos, pois são parte importante da minha trajetória nos palcos. A estreia no Met foi com Shostakovich (O Nariz), as estreias na Europa (França) e na Austrália foram com Tchaikovsky (Eugene Onegin). No Scala de Milão, também estreei com uma ópera russa: Coração de Cachorro, de Alexander Raskatov.


Em julho farei minha estreia na grandiosa Sinfonia nº 8 de Gustav Mahler, que sempre foi um dos meus compositores prediletos do repertório sinfônico (fiz em 2017 o ciclo Canções de um Viandante com a Osesp, na Sala São Paulo e em Campos do Jordão).


Em novembro retorno à Osesp para um concerto e homenagem a Mozart, com árias de papéis que foram marcantes na minha carreira, como Don Giovanni, Fígaro, Conde Almaviva, Guglielmo e Don Alfonso. Esse divertidíssimo programa será regido pelo nosso grande maestro Isaac Karabtchevsky.


Em dezembro, faremos um recital com o esplêndido pianista Nahim Marum. Temos já uma parceria de muitos anos em recitais, em várias cidades brasileiras. Prestaremos homenagem ao nosso Claudio Santoro, assim como a Ernest Chausson, Franz Liszt e, como não poderia faltar, Giuseppe Verdi. Ainda em dezembro farei uma masterclass na Osesp com jovens talentos brasileiros e, também sob regência de Marin Alsop, participarei de Todos Juntos — Uma Ode Global à Alegria, um megaprojeto executado em várias partes do planeta, com a sempre exuberante Sinfonia nº 9 de Beethoven, cantada em português. Convido a todos os meus amados paulistanos a prestigiar a programação da Osesp!


Entrevista a Claudia Morales


GRAVAÇÕES RECOMENDADAS

 

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The New Broadway Cast Recording
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