Orquestra brilha, mas tenor deixa a audiência querendo mais
Lawrence Budmen

O tenor José Cura e a Orquestra de São Paulo do Brasil formaram a combinação explosiva no primeiro programa da Associação de Concertos no teatro John S. e James L. Knight do Centro Carnival, na quinta-feira . Com o maestro John Neschling inflamando as oferendas musicais de sotaque latino, o nível de energia nunca esmoreceu.

O conjunto de São Paulo é um motor orquestral capaz de ocupar por si só posição importante no palco mundial. A Abertura Il Guarany, de Antonio Carlos Gomes, exibiu sopros agudos e metais estrondosos. Neschling regeu essa imitação de Verdi da maneira mais completa possível.

As exuberantes cordas brilharam resplendorosamente no movimento da abertura das Bachianas Brasileiras No 4 de Heitor Villa-Lobos. Neschling trouxe coerência a essa mistura de difícil manejo de Bach, Tchaikovsky, Hollywood e música brasileira nativa. Aluno do renomado pedagogo vienense Hans Swarowsky (que também foi mestre de Zubin Mehta e Claudio Abbado), Neschling é um soberbo construtor de orquestras e colorista musical que traz musicalidade sutil às partituras mais vulgares.

O último tour de force da orquestra foi Estância, suíte de balé de Ginastera. Arrebatadores duetos de flauta e cordas capturaram a langorosa sentimentalidade da Dança do Trigo. Uma execução em alta voltagem do Malambo final fez a platéia aplaudir de pé.

Cura, contudo, foi o verdadeiro atrativo do concerto. Num momento em que o mundo da ópera busca um substituto para os adorados Três Tenores, Cura tem os recursos vocais e o carisma para fazer sentir sua presença.

O ardor vocal desse tenor e os registros médios e baixos sombriamente polidos têm o fascínio dos de Plácido Domingo, mas seu canto pode ser instável. Vesti la giubba, de Pagliacci, de Leoncavallo, foi além do esperado emocionalmente, cantado num forte sem trégua. Em duas árias da Tosca de Puccini, o apaixonante vocalismo de Cura e seus tom sensual, suave e doce mantiveram a audiência fascinada.

Em dois boleros (Somos novios e Esta tarde vi llover), Cura cantou com a usual facilidade de Frank Sinatra ou Tony Bennett. Mas apenas três árias e duas canções populares foram um tanto insignificantes para uma platéia de aproximadamente 1.700 pessoas que pagaram 75 dólares – 125 para os melhores lugares - na sala de concertos cuja capacidade total é de 2.400 lugares..

A brincadeira de Cura com o maestro tomou um tempo precioso quando ele poderia ter cantado árias adicionais. Em vez de dar um recital, ele parecia estar fazendo uma audição para um “show” de cabaré. Quando retornou na conclusão do programa, Cura censurou a platéia por sair no intervalo. Infelizmente, a parte da platéia que ele sentiu obrigação de censurar não era aquela que havia se retirado.

Como bis, Cura ofereceu uma adorável canção de amor espanhola surpreendentemente suave (com um requintado acompanhamento de harpa) e uma versão em voz estentórea do Nessun Dorma do Turandot. Exclusivamente pela força da voz e da personalidade, Cura veio e conquistou, mas os amantes da voz mereciam ouvir mais desse poderoso tenor na oeuvre operática, para qual sua voz é tão bem ajustada.

Tradução de Lucy Petrovicic, voluntária da Osesp

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