Presença poderosa de tenor marca abertura no Centro Carnival
David Fleshler

O talento teatral do tenor argentino José Cura logo se fez sentir em sua apresentação na quinta-feira no novo Centro Carnival para as Artes Cênicas.

Quando a Orquestra de São Paulo tocava o prelúdio do famoso Vesti la giubba, de Pagliacci, um homem imponente de cabelos pretos entrou (por uma porta marcada com a palavra Saída), carregando uma cadeira preta comum em seu ombro, sem sorrir e ignorando a platéia. Levantou a mão para aquietar os aplausos, colocou a cadeira ao lado do maestro, sentou-se e colocou uma mão sobre os olhos enquanto a orquestra terminava a introdução.

"Recitar!" ele começou, e lançou-se numa poderosa, dramática expressão da mágoa do palhaço Canio pela traição de sua mulher.

O concerto, que começou no estranho horário das 21 horas, marcou a noite de abertura da Associação de Concertos da Flórida em sua nova sede na sala de concertos Knight do Centro Carnival, no centro de Miami. Uma multidão cintilante vibrou com a atuação de Cura e a soberba execução da orquestra brasileira.

Cura, que recém cantara Tosca no Metropolitan, tem uma voz poderosa, embora  lhe faltem o brilho e as notas altas de arrepiar a espinha de alguns dos grandes tenores. Seu tom e seu fraseado não foram sempre polidos. Mas, como Maria Callas, que também possuía um equipamento vocal instável, ele emocionou a audiência pela mera força dramática de sua voz e estilo.

Em E lucevan la stelle, de Tosca, deixou um soluço arrastar-se em sua voz sem trazer muita violência à linha vocal, para expressar o amor e o sofrimento de Cavaradossi à véspera de sua execução. Possuía completa liberdade no palco. Ousava virar as costas para a platéia para cantar para os segundos violinos e violoncelos. Pegou um microfone e amaciou sua voz com uma canção para um par de sombrios Boleros de Armando Manzanero.

A orquestra, que no passado esteve em vias de extinção, agora conta com amplo apoio governamental, um rol de músicos internacionais e um som claro e rico. Os metais tocaram com poder e sem um toque sequer de crueza, com o belo trabalho particularmente das trompas. As cordas luziam fracamente e cantavam, tocando com impressionante unidade de ataque, sob a cordial mas firme regência do maestro John Neschling.

Suas execuções da Bachianas Brasileiras No. 4 de Villa-Lobos e da suite de balé Estancia de Ginastera mostraram liberdade e expressividade que advêm de cuidadoso preparo e íntimo conhecimento da música.

A platéia, que aplaudiu desenfreadamente, foi recompensada com três bis, muito embora cerca de um terço dela tenha perdido o último  em sua correria para seus carros

"A última vez que estive aqui a sala estava cheia," observou Cura. "Então, para vocês que ficaram..."

Ele então se lançou ao que provavelmente foi a segunda mais famosa ária de ópera (depois de Vesti la giubba), a Nessun dorma, de Puccini, terminando literalmente numa nota alta enquanto os gritos de aprovação da platéia abafavam a orquestra.

A Orquestra de São Paulo volta ao Centro Broward para Artes Cênicas no sábado às 20 horas com o violoncelista Antonio Meneses para uma apresentação das obras de Shostakovich e Tchaikovsky. Para informações, consulte www.concertofla.org ou ligue para 877-433-3200, ext. 301.

Tradução de Lucy Petrovicic, voluntária da Osesp

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