Boa música para um ego incurável
Daniel Fernandez

A Orquestra de São Paulo demonstrou na sua apresentação com o cantor argentino José Cura, nesta quinta-feira, no Knight Concert Hall, que não tem nada dever às melhores do mundo. Precisão, sincronia, ritmo, graça e um diretor que sabe matizar e  levar a nau a bom porto: John Neschling.

A orquestra foi formidável do princípio ao fim, entretanto o caso de Cura foi sem dúvida incurável. Embarcado numa ego trip, a nave de sua atuação naufragou já desde o primeiro intento com sua Vesti la  giubba, do Pagliacci. A orquestra começou sozinha com o Intermezzo e a seguir ele entrou, em mangas de camisa, com uma cadeira no ombro, para sentar-se a cantar. O que  fez projetando a voz, às vezes desastrosamente, na direção do piso do cenário. Sem entrar em detalhes sobre a  discutível acústica do local –há problemas com o que se diz ou canta no proscênio-- seu afã, durante toda a  noite, por passear entre a  orquestra, cantar para os violoncelistas e os violinistas, dando constantemente as costas ao público, e outras coisas que denunciaram uma atitude profundamente irreverente e imatura, diminuiu ainda mais o efeito de sua medíocre atuação.

Cura possui uma voz poderosa e com um belíssimo timbre, entretanto falta-lhe estudo, sensibilidade e  --como pôde-se ver-- respeito pelo  público. Muitas pessoas retiraram-se no intervalo. Outras, assim que terminou o concerto saíram em tropel sem esperar por bis. Cura se atreveu  a queixar-se desta fuga, antes de apresentar duas inesperadíssimas ofertas finais. Tomou  a saída do público como uma descortesia, seu ego não  lhe permitia ver que os que se foram simplesmente não  estavam contentes com o que tinham visto e escutado: uma bela voz desperdiçada e  uma  boa pessoa fazendo palhaçadas no palco e que acredita que por sua voz e  aparência todo o mundo vá aceitar seus gracejos (ainda que seja preciso admitir que muitos o fizeram). ``Ele é tão bonitinho!” – disse-me uma amiga--. “Pode-se perdoar-lhe que não cante''.

E é verdade que apenas cantou, porque foram somente três árias (a já mencionada, Recondita Harmonia e E lucevan le stelle, ambas de Tosca, de Puccini) com dois boleros de Manzanero, perpetrados com microfone. Não acredite que exagero quando comento sobre este cantor; que – talvez em tom de brincadeira - disse que deixaria de cantar ópera para cantar boleros, comentário que não foi bem acolhido pelo público. Por exemplo, em Recondita..., sustentando a nota final, em plena caricatura, fez parecer que isso lhe dava muito trabalho e a seguir, ao concluir o esforço, bateu com o pé no chão. Na ária seguinte, durante uma modulação, fez voltas com seu dedo como numa espiral. Gestos como estes demonstram que nem por acaso põe sentimento no que canta e  que parece ter pensado que as pessoas que lotavam a sala tinham ido para ver suas criancices cênicas e não a escutá-lo cantar “de verdade''.

Em relação aos bis, foram uma canção – cujo título não disse, outra mostra da sua descortesia - acompanhada por harpa e  um  Nessum dorma, de Puccini, que deixou  muito a  desejar.

Muitas pessoas nem mesmo aplaudiram e foram embora do teatro decepcionadas. Na segunda fila havia uma senhora que tinha um  certo ar parecido com María Félix nos seus últimos anos, que não aplaudiu  os encores e cujo sereno sorriso era todo um  poema. Alguns foram mais específicos ao comentar nos corredores. '' Senti vergonha por ele'', disse-me uma amiga argentina. “Disseram-me que no Colón foi vaiado''.

Cura disse que este era seu primeiro concerto nos Estados Unidos. Esperemos que, pelo menos em Miami, tenha sido o último.

Tradução de Francisco Piedrahita, voluntário da Osesp

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