Conjunto brasileiro oferece magnífico espetáculo
O regente da Orquestra de São Paulo dá início ao programa Regional Arts Music at Eight Series com um concerto excepcional
Márcio Bezerra
Extraordinário! Essa é a palavra que descreve o concerto inaugural da Regional Arts Music at Eight Series do Kravis Center for the Performing Arts. Apresentando o segundo compromisso da Orquestra de São Paulo, aclamada internacionalmente, o evento brindou a audiência com diversos estilos sinfônicos, todos interpretados com maestria pelo conjunto brasileiro.
O programa começou com a abertura da zarzuela, La Boda de Luís Alonso, de Jerônimo Giménez. Raramente executada fora da Espanha, a obra, apesar de leve e alegre, exige muita técnica principalmente das cordas. Sob a direção de John Neshling, a orquestra interpretou-a com notável precisão e talento.
O programa continuou com as Variações sobre um tema rococó, op. 33 de Peter Tchaikovsky, igualmente suave e agradável. Verdadeira gema deste mestre de concerti, esta obra para violoncelo e orquestra é característica das tendências neoclássicas que inspiraram tantos compositores românticos da segunda metade do século dezenove. Assim, não apenas desenvolve seu gracioso tema clássico, mas emprega uma formação muito semelhante à da época de Mozart.
À medida que esta peça presta homenagem ao ídolo de Tchaikovsky, mostra também fortes marcas da assinatura do compositor russo, desde a melancolia do tema principal até à exuberância da escrita para as cordas.
O solista Antonio Meneses uniu-se à orquestra nessa apresentação que, embora tecnicamente competente, impressionou muito mais pelo tom quente e impecável que conseguiu extrair de seu lendário violoncelo Gagliano nas variações lentas.
Neshling e a orquestra mostraram-se parceiros ideais: os inúmeros momentos de música de câmera inseridos nas partes orquestrais foram tocados com gusto resultando em extraordinário efeito.
A segunda parte do programa, dedicado a outro tipo do repertório russo, constituiu-se da Sinfonia n. 2 em mi menor, op. 27 de Sergei Rachmaninoff. Como exemplo tardio do gênero romântico, a bela obra enfrenta diversos problemas comuns que desafiavam os compositores que vieram depois da idade áurea das sinfonias. Na verdade, podemos indagar até que ponto seriam viáveis e efetivos certos longos temas românticos, desenvolvidos nos arcos, para criar tensões nos primeiros movimentos sinfônicos. A resposta óbvia é negativa. É que o encanto produzido pela invenção melódica logo dá lugar ao tédio. Entretanto, o movimento lento desta sinfonia tem seu apelo, caracterizando uma das mais memoráveis melodias do compositor russo.
Apesar de suas limitações, a obra não deixa de ser bela demonstração do estilo sinfônico. Mais uma vez, aqui, todos os naipes da orquestra de São Paulo demonstraram compreensão e competência. O final foi particularmente brilhante, salientando a movimentação rítmica quase ausente na maior parte desta gigantesca sinfonia.
Durante o concerto todo, o maestro Neshling demonstrou completo domínio do pódio, tecnicamente impecável e expressivo, sem imposições desnecessárias. Trata-se, também, de um empresário de visão: grande parte das conquistas de sua orquestra dependem, sem qualquer dúvida, de suas habilidades administrativas.
O peso e a melancolia da Segunda Sinfonia de Rachmaninoff foram aliviados com as duas peças que a orquestra tocou como bis depois da tão merecida ovação da platéia de pé. A orquestra tocou primeiramente Mourão de César Guerra-Peixe dirigida por um Neshling muito bem humorado. Em seguida, Malambo de Alberto Ginastera encerrou essa noite excepcional de música de maneira eletrizante.
Tradução de Jaci Maraschin, voluntário da OSESP