Sinfônica de São Paulo - Imperdível
Gil French

A primeira audição de uma orquestra de classe internacional sem ser da América (do Norte) ou da Europa, eu sempre considero especialmente gratificante. Eu nunca ouvira falar da Orquestra de São Paulo ou do seu diretor artístico John Neschling até um mês antes de começarem sua turnê pela costa leste, no último mês de novembro.

Os membros da orquestra tocam de forma magnífica e são donos de instrumentos de primeira linha. Mas uma orquestra não é melhor do que a pessoa que está no púlpito e Neschling está com tudo! Em 1997 ele se tornou regente da orquestra, insistindo na qualidade, desde o início, inclusive no compromisso de conseguir uma nova sala de concerto (a Sala São Paulo, com capacidade para 1500 lugares, uma das criações do especialista em acústica, Russell Johnson, da qual este diz ter o maior orgulho). Sob a regência de Neschling, a orquestra já gravou mais de 20 CDs, incluindo um contrato com o selo BIS. No outono passado ele levou sua orquestra para a sua segunda turnê americana – foram 14 cidades em Nova York, Maryland, Carolina do Norte e Florida.

Neschling nasceu no Rio de Janeiro e é sobrinho-neto de Arnold Schoenberg. Completará 60 anos este ano e criou uma orquestra de técnica esplêndida e conjunto impecável. Ele sabe revigorar uma frase e sustentar a tensão durante longos períodos. Quando se vira de frente para os violoncelos e contrabaixos, você sabe que ele os vê como sendo o fundamento rítmico: sua pulsação nunca esmorece. Enquanto os olha, seu ouvido esquerdo, ligado ao centro da orquestra, está incrivelmente alerta para as vozes internas e as tonalidades dos sopros, baixos, percussão, segundos violinos e violas, que aumentam ou diminuem com um pequeno movimento de sua cabeça. Enquanto isso, sua mão esquerda, balançando ao longo da coxa, está gesticulando nas suas costas para os primeiros violinos. Ele ouve tudo! (Há muito tempo estou convencido de que a maioria dos regentes não ouve – eles só extraem da música o que percebem).

Quando Neschling inclina seu corpanzil em direção à orquestra, o som aumenta gradual ou rapidamente – o que quer que tenha sido pedido – como se o maestro tivesse controle instantâneo de uma máquina e, no entanto, nunca soa mecânico ou impessoal. O entrosamento existente entre ele e os músicos é igual ao de velhos amigos. Acima de tudo, Neschling tem grande domínio de estrutura – ele sabe para onde está indo e como chegar lá.

Eu fiquei impressionado com os seus dois primeiros concertos. No dia 1º de novembro, no Metropolitan Museum da cidade de Nova York, desde as primeiras notas da Abertura Concertante (1942) do brasileiro Camargo Guarnieri, as cordas se mostravam ricas e maduras, com portamentos precisos e de tonalidade apurada e nuançadas. A timpanista principal, Elizabeth del Grande, destacou-se com ritmos fortes, incisivos, agressivos e Neschling, com impulsos enérgicos. (Nenhum machismo aqui! O contrabaixo principal também é uma mulher). As madeiras eram competentes e de destaque, especialmente o rico oboé europeu.

Ainda que a orquestra fosse um pouco imprecisa na introdução das Variações Rococó de Tchaikovsky, quando entrou o brasileiro Antonio Meneses, violoncelista principal do Beaux Arts Trio, o restante apresentou a serenidade de uma música de câmara. Nas variações do Andante, Meneses fez com que a música falasse, chorasse e mesmo derramasse lágrimas como só os russos conseguem fazer. Neschling não deixou por menos e acompanhou à risca a profundidade de expressão e os rubatos sutis de Meneses. Articulação e clareza estavam inseridas em trechos longos, contínuos e transcendentes, unindo cada variação à seguinte, criando assim uma estrutura completa. A apresentação foi uma obra de primorosa sintonia, algo próximo ao êxtase.

Na Sinfonia Nº 2 de Rachmaninoff, Neschling deu ao desenvolvimento do primeiro movimento o tipo de crescendo emocionante que Tchaikovsky nesse mesmo movimento da sua Sinfonia Nº 4. Eu nunca havia ouvido essa sinfonia de Rachmaninoff com essa construção emocional. E como este regente sabe dar vida a uma frase!Entretanto, com todo o poder e força, o estilo básico era clássico: suficientemente claro e enxuto para permitir que as vozes internas produzissem seu efeito, geralmente submersas em funções harmônicas e coloridas. Como resultado, a fuga do segundo movimento foi especialmente envolvente. Neschling conduziu o famoso terceiro movimento num passo apressado, tornando-o altamente dramático – expressivo de uma forma diferente (nem sempre ao gosto de todos). No finale, ele andou pelo púlpito, sorrindo, se inclinando, solicitando respostas de toda a orquestra.

O bis, Mourão, de César Guerra-Peixe, um músico do nordeste brasileiro, foi mais para cordas com algum bater de pés energético no início e três percussionistas entrando no final como um miniconjunto de mariachi. Embora Neschling e seus músicos não façam pose, eles possuem um carisma especial que não se encontra na América.

Isso ficou evidente na noite seguinte, no Clemens Center, em Elmira, Nova York, quando a orquestra começou com o que parecia uma reflexão. Somente quando chegavam ao final da introdução de La Boda de Luis Alonso (1896) de Jerônimo Gimenez, uma peça curta no estilo rico e jocoso de España, de Chabrier, é que Neschling entrou e alcançou o púlpito no tempo certo para o crescendo do “prato principal”.

O concerto da cidade de Nova York foi o mais tradicional dos dois porque a orquestra não podia apinhar mais do que 80 músicos no palco do museu. Em Elmira, exceto pela Abertura Festiva, de Shostakovich, a noite foi latina, com todos os 95 músicos.

Villa-Lobos não agrada muito aos meus ouvidos, mas Neschling e Meneses deram um cunho retórico aos seus padrões e ritmos que tornaram seu Concerto para Violoncelo Nº 2 suntuoso, emotivo e fácil de ser ouvido. Mais uma vez, Meneses foi o músico consumado, lembrando Rostropovich e em perfeita sintonia com Neschling. Em Bachianas Brasileiras Nº 4, o regente conduziu a repetição de todo o primeiro movimento, que era tudo menos rotineiro, apresentado-o com novas nuances, de uma música que parece absolutamente simples na partitura. O finale parecia uma desenfreada festa brasileira cheia de contra-ritmos contagiantes e sustentando altas harmonias nos violinos.

A Suíte Estância, de Ginastera, na sua abertura, retumbou com sopros, baixos, percussão e naipes de cordas competindo entre si. A Dança do Trigo, sutilmente elaborada, terminou com o som suave, quase mudo e acariciante da trompa, e acompanhando esse decrescendo, do tipo de ppppp que Tchaikovsky desejava para a sua Patética. E, no famoso finale, Neschling lançou mão de duas de suas forças: energizar mesmo a menor frase e construir um movimento perpétuo insistente.

É uma pena que a platéia não tenha pedido mais; o segundo movimento do La Mer, de Debussy, teria sido o bis.

Tradução de Marina Lindenberg Lima, voluntária da Osesp

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