Coisas fantásticas sobre música no Brasil
Philip Clark vê uma orquestra destinada a ocupar seu lugar entre as melhores do mundo

Quando o maestro John Neschling recebeu um telefonema propondo-lhe o cargo de diretor da Orquestra Sinfônica de São Paulo no Brasil, onde nascera, quase desligou o aparelho. “Eu havia saído do país para trabalhar na Europa Central”, relembra, “e voltar para lá era a última coisa que passava pela minha cabeça. Sempre que regi no Brasil o resultado era tão pobre que me deixava frustrado.”

Isso aconteceu em 1996, e agora, dez anos depois, Neschling está em Nova York como regente principal da mesma Orquestra Sinfônica de São Paulo. Está levando seus músicos para uma  ambiciosa temporada na América e em março pretende se apresentar nos principais palcos da Europa. Que teria, pois, levado Neschling a mudar de idéia e como foi possível criar uma orquestra internacional na América do Sul?  Ele diverte-se dizendo: “Pensei que minhas propostas, extremamente fora do comum, seriam recusadas e eu seria deixado de lado. Argumentei que precisávamos de uma nova sala de concerto e que todos os instrumentistas da orquestra tinham que ser reavaliados. Tive que enfrentar diversos problemas com o pessoal do sindicato. A verdade é que muitos dos músicos não estavam  à altura do trabalho. A condição final era que seus salários fossem triplicados. Com isso poderíamos atrair músicos de outros países sem que precisassem suplementar o que ganhavam fazendo bicos. Para meu assombro, todas essas condições foram aceitas e voltei para o Brasil.”

Neschling superou o problema dos músicos que não passaram no primeiro teste criando uma segunda orquestra, e descobriu o lugar perfeito para a sala de concerto de seus sonhos numa antiga estação ferroviária que, por incrível que pareça, tinha as mesmas dimensões do Concertgebouw de Amsterdã. O projeto progrediu a duras penas, mas hoje em dia os dados básicos das conquistas são de deixar o queixo caído. 70% da programação da orquestra dedica-se à música do século vinte e a novas composições, e conta basicamente com cerca de 11.000 assinantes de São Paulo – e até mais. Neschling tem quase carta branca para gravar o que deseja no selo BIS. Entre os principais compositores que têm trabalhado com a orquestra estão Heinz Holliger, Tan Dun e Krzysztof Penderecki; Peter Maxwell Davies será o próximo.

Alguns dias antes do concerto da orquestra em Nova York, Neschling hospedou importante simpósio sobre música clássica brasileira. Sempre teve a intenção de destacar a tradição clássica de seu país, e ele mesmo se surpreende com a grande diversidade de compositores brasileiros. Assinala que o Brasil é o único país da América a possuir tradição consistente de música clássica desde o século dezoito. O primeiro compositor brasileiro documentado, Faustino Xavier do Prado, era um sacerdote que combinava o estilo do canto gregoriano com o do barroco no começo dos anos 1700. O Réquiem de Mozart foi apresentado no Brasil apenas 20 anos depois de ter sido escrito, inspirando compositores locais. Em 1822 quando o Brasil tornou-se independente de Portugal os escravos foram libertados e muitos deles tornaram-se músicos. Infelizmente boa parte da música altamente polifônica, pós-mozartiana, escrita por compositores negros, foi esquecida, mas há excelentes exceções entre compositores  como Carlos Gomes, Francisco Braga e Alexandre Levi. O reconhecimento do cenário musical moderno brasileiro aumentou em 1922 quando Heitor Villa-Lobos tornou-se o principal compositor na Semana de Arte Moderna em São Paulo. Naturalmente, Villa-Lobos continua a dominar a percepção popular do que seja a música brasileira. “Era dono de personalidade gigantesca alcançando tremendo poder”, elabora Neschling. “Muitas pessoas confundem às vezes sua orquestração inovadora com baixa qualidade. É como se cortar cabelo duro: é preciso ir fundo para chegar às raízes. É preciso, quase sempre, repensar sua dinâmica, mas seu mundo sonoro não se compara a nenhum outro.” A Orquestra Sinfônica de São Paulo gravou todas as Bachianas brasileiras e pretende continuar a tarefa com a obra épica, Choros, ciclo de 13 peças consideradas por Neschling a obra prima de Villa-Lobos. Mais tarde, ouvi os discos gravados por Neshling das sinfonias de Beethoven e fiquei admirado com sua intensidade e força vital. Londres, Berlim, Nova York, Paris... São Paulo?

Tradução de Jaci Maraschin, voluntário da Osesp

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