PETER ILYICH TCHAIKOVSKY
Concerto nº 1 para Piano
NIKOLAI MEDTNER
Concerto nº 1 para Piano; Liebliches Kind! (trad. Sudbin)

Yevgeny Sudbin piano
Orquestra Sinfônica de São Paulo
John Neschling

BIS- 1588(SACD)

Gravação de referência - Tchaikovsky: Argerich/Abbado (DG)

 

David Hurwitz

Você sabe que tem um vencedor em suas mãos quando a performance de uma peça que você conhece de cor e a tem em dúzias de outras gravações faz com que você se sente e a ouça com novos ouvidos. Foi isso exatamente o que aconteceu na abertura deste primeiro concerto de Tchaikovsky.
Yevgeny Sudbin atacou esses acordes retumbantes do tipo liberace com o tempero de um virtuoso – e, graças a um pequeno movimento de arpejo com a mão direita no auge de cada seqüência, também com um toque de humor. Esta abertura empolgante, no entanto, torna-se um tanto enganosa, pois o que caracteriza o restante da apresentação é o desejo de Sudbin de engajar a orquestra num verdadeiro diálogo. Mas, note-se, nada é precioso ou maneirismo: ele simplesmente sabe onde sua parte se insere no contexto geral e, em momentos como o segundo tema do primeiro movimento e o Andante integral, ele deixa seus colegas dos sopros e cordas se sobressaírem e os acompanha.

O resultado, conquanto nunca deixando de lado os elementos de virtuosismo (particularmente no finale), apresenta uma interação que poucas outras versões alcançam. Dois pequenos pontos no primeiro movimento aparecem em que a tensão cai um pouco, quando Sudbin se entrega a um élan sonhador, mas de resto esta é uma performance convincente desta peça de fôlego como qualquer outra encontrada em disco. A orquestra e o regente têm tanto a oferecer quanto o solista, completamente sintonizados frente ao conceito interpretativo e totalmente marcante em sua resposta coletiva. Eu teria adorado ouvi-los ao vivo.
O primeiro concerto de Medtner, com um único movimento de 34 minutos de efusão pós-romântica que ninguém parece gostar muito, também recebe uma performance poderosa e convincente. Sudbin também deve ser quase excepcional no mundo da arte na medida em que sua escrita é tão excelente quanto o seu toque ao piano, o que já é dizer muito. Ele defende muito bem a peça e conduz o ouvinte através das suas reviravoltas com clareza e entusiasmo. Entretanto, apesar de suas declarações de amor pela peça, cuja sinceridade eu não questiono, é significativo o fato de  ter que, falando dela, gastar três vezes mais do que de Tchaikovsky. Em outras palavras, ela exige um esforço especial para agradar. E, na verdade, não deveria. Sim, em alguns momentos poderá soar como Rachmaninov sem as melodias, mas não há nada radical ou desconcertante quanto ao estilo de Medtner.

Talvez ele enfatize a forma mais do que o imediatismo da expressão emocional, mas a conclusão é que não é fácil captar a forma de um único movimento, que dura mais do que meia hora, num contato casual. Mas se você fizer o esforço, descobrirá uma peça impressionantemente grandiosa, turbulenta, que cresce da tragédia para o triunfo desafiador. É uma peça do conhecedor, com toda certeza, e por essa razão não terá necessariamente o mesmo apelo para o público que  Tchaikovsky (daí uma única nota de cautela na avaliação global da qualidade artística). Entretanto, Sudbin merece uma tonelada de créditos por apresentar a peça e dotá-la de todos os gramas de paixão que ela merece. Como ele próprio afirma, é música que cresce em você, dado o tempo suficiente, e você saberá desde o começo se sente vontade de investir nela. A própria transcrição de uma das canções de Medtner por Sudbin a torna um bis perfeito e o som em todos os formatos representa, como é típico deste selo, o estado-da-arte. Em suma, um disco para sempre.

Tradução de Marina Lindenberg Lima, Voluntária da Osesp

Voltar