Sucesso Brilhante no Châtelet
Sob a produção de André Furno como parte de sua série “Piano Quatro Estrelas”, foi um sucesso brilhante o primeiro concerto na França da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) (Le Monde de 27 de março de 2007), realizado na quinta-feira à noite no Teatro do Châtelet. Esse concerto se seguiu a uma série de dezesseis apresentações realizadas pela OSESP na Alemanha, Suíça, Polônia, Áustria, Espanha e Hungria. A festiva Abertura Concertante (1971) do compositor brasileiro Mozart Camargo Guarnieri anunciou – se assim se pode dizer – o tom: uma orquestra jovem e segura de si, com cordas homogêneas, madeiras espontâneas, metais e percussões cheios de bravura. Bernstein admirava Guarnieri, que admirava Bernstein e lhe retribuia em música.
Ainda que fosse o preferido do pianista Arturo Benedetto Michelangeli, o Quarto Concerto é ainda o menos apreciado dos concertos para piano e orquestra de Rachmaninov. Mas a visão hedonista e refinada de Nelson Freire, seu toque como sobre almofadas de ar, firme e macio ao mesmo tempo, sua liberdade de tom e sua fantástica destreza, o impuseram desde os primeiros compassos. O regente da orquestra John Neschling se revelou um acompanhante de primeiro plano, campeão de sintonia, privilegiando a justeza à expressão.
Dedos de matiz e fogo
No magnífico “Lento”, interpretado entre um devaneio debussyniano e um sonho schumanniano, o piano de Nelson Freire entoou sua berceuse solitária, enquanto no “Allegro vivace” final, de forma quase rapsódica, seu piano demonstrou com talento que dedos de matiz e de fogo possui o grande pianista brasileiro.
A Primeira Sinfonia de Tchaikovsky confirmou a excelência técnica dos músicos de São Paulo. Mas, sob a batuta sóbria de John Neschling, ela soou um pouco como Mendelssohn irrompendo com seu Sonho de uma Noite de Verão. Colorido magnífico, fraseados impecáveis, estrutura de uma nitidez perfeita, mas lirismo tímido e emoção sob controle. Faltou a nostalgia sombria e a efusão eslava e a valsa do “Scherzo”, onde se pode imaginar Tatiana observando Oneguin dançar com Olga no Baile dos Larine, não suscitaria nenhum duelo com Lensky.
O final teria sido uma ligeira decepção não fosse pelas peças deliciosas reservadas como bis. O público arrebatado ouviu arder o Mourão de César Guerra Peixe (1951), golpes de sapato no chão e arcos adoidados enquanto uma procissão de percussão passava pelo meio da orquestra. Houve gritos de alegria.
O segundo bis, ainda mais arrebatador, possuía a auriflama do regojizo popular: Malambo, movimento da suite balé La Estancia (1941), de Alberto Ginastera. E se seguiu o “Prelúdio” para cordas da sublime Bachianas Brasileiras nº 4, de Villa-Lobos, de um lirismo de cortar a respiração. Pena o programa da noite não ter sido mais brasileiro.
Tradução de Gilberto B. Schlittler, voluntário da Osesp