Uma conversa com...
Yevgeny Sudbin

Jeremy Nicholas encontra-se com o jovem pianista russo no momento em que este lança seu primeiro disco de concerto, apresentando um dos pináculos do repertório popular e uma combinação desafiadora.

Se cada vez que abrimos a Gramophone surge um novo pianista jovem, como pode alguém sobressair na multidão?

No caso de Yevgeny Sudbin registra-se um CD de estréia das sonatas de Scarlatti (BIS, 5/05) que atrai críticas entusiasmadas e, depois, o lançamento de um segundo disco (BIS, 11/05) com repertório totalmente diferente (Variações de Chopin e Segunda Sonata de Rachmaninov) que atrai resposta igualmente entusiástica. Agora, como parte de seu contrato de exclusividade por cinco anos com a etiqueta sueca, surge a primeira gravação de um concerto: o Concerto em si bemol menor de Tchaikovsky, combinado com o Primeiro Concerto de Medtner, raramente ouvido.

A primeira pergunta tinha que ser, com outras 149 versões disponíveis, por que Tchaikovsky? O simpático jovem russo (ele nasceu em 1980, mudou-se para a Alemanha com a família em 1990 e tem vivido em Londres desde 1997) responde com um sorriso irônico de confissão. "É uma boa pergunta, mas esse concerto sempre foi especial para mim, foi a obra que me despertou o interesse pela música clássica e a primeiríssima gravação que ouvi -a versão por Gilels. Eu devia ter quatro ou cinco anos de idade. Assim, desde essa época eu sempre desejei tocá-la, mas, como sempre acontece com as grandes obras, tem-se sempre a esperança de contribuir com algo diferente, algo individual. O dilema que enfrentei foi que é preciso ter conhecimento de todas as gravações que já foram feitas e, ao mesmo tempo, levá-la a novas alturas, sem ser despudorado. É uma questão de equilibrar as gravações anteriores com a contribuição do pensamento individual".

Se ele ama Tchaikovsky, Sudbin fala com ardor missionário quando se trata de Medtner. "É provavelmente um dos concertos mais difíceis que jamais toquei. O Chopin n° 1 é difícil, mas este pertence a uma outra categoria. Primeiro, tocar com orquestra é extremamente difícil, porque há uma grande quantidade de diálogos ocorrendo com diferentes instrumentos. É preciso ser um bom músico de câmara para se sair bem. Os ritmos de Medtner são únicos e você precisa se assegurar de que está dançando a mesma dança que a orquestra, em vez de um estar pisando nos pés do outro. Também, houve algumas passagens que de início eu não sabia como dominar, como na grande coda, por exemplo. Há uma marca de metrônomo, supostamente de Medtner. Se quiser executá-la nessa velocidade, precisa simplesmente ter uma terceira mão! Levou-me alguns meses para aprender a obra. Do ponto de vista técnico, para mim, se não tiver condições de absorver uma peça em três semanas, eu geralmente a abandono. Até agora apenas uma obra me derrotou - o Estudo n° 1 de Ligeti".

Enquanto discute suas decisões e ideais musicais, sente-se que, por trás do exterior amigável, dos olhos escuros, grandes e gentis e dos cabelos soltos, encontra-se uma determinação de aço. "A orquestra de São Paulo jamais havia interpretado esta obra. Tive que desenvolver um grande trabalho com o regente para assegurar que estávamos musicalmente no mesmo nível. Nós dois temos personalidades bastante fortes e, quando cheguei em São Paulo, havia muita tensão. Discordamos sobre os tempos, mas finalmente concordamos em ceder e ele fez muitas sugestões positivas. No final, esse processo contribuiu muitíssimo para o resultado. Tem-se que manter as relações de tempo consistentes, pois o concerto tem um único movimento com muitas seções e variações e, se o tempo for perdido, perde-se a linha e toda a obra se desintegra".

O novo disco será uma outra etapa no progresso inexorável de Sudbin rumo à vanguarda de sua geração de pianistas. E se isso não tiver sido suficiente, o que é especialmente irritante para pessoas como eu, ele escreve também num inglês elegante e apresenta suas próprias notas para o folheto. Em seguida, virá um disco de Scriabin, com as sonatas n°s 2, 5 e 9, a Valsa op. 38 ("grande peça") e as Masurkas op. 10. Sudbin pode ter os pés plantados firmemente no chão mas a sua carreira alçou vôo.

Tradução de Martha Rosemberg, voluntária da Osesp.

 

 

Medtner-Tchaikovsky – Escolha do Editor
Tchaikovsky renovado neste lançamento de um dream concerto

Medtner Concerto para Piano Nº 1
Aus 'Claudine von Villa-Bella', Op.6 nº 5 (arr. Sudbin)
Tchaikovsky Concerto para Piano nº 1, Op.23
Yevgeny Sudbin piano
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo / John Neschling
BIS SACD1588 (71' – DDD/DSD)

Descrever Yevgeny Sudbin, de 26 anos de idade, como a mais brilhante estrela musical do piano é, de certa forma, prestar-lhe um desserviço. Pois ele é, acima de tudo, um artista e aqui, no seu tão esperado concerto de lançamento em disco, ele nos oferece o Primeiro de Tchaikovsky com brilho, poesia e vivacidade de deixar arrepiado.

Este está longe de ser o Tchaikovsky que sempre conhecemos, mas uma nova concepção envolvente, concentrada em mudanças imprevisíveis de sentimento e direção. Aqui, por incrível que pareça, encontra-se um dos concertos mais familiares, inflamado de todas as suas primeiras glórias, transbordante de vivacidade e depurado de todos os clichês que lhe foram atribuídos ao longo dos anos.
No primeiro movimento, as oitavas de Sudbin soam a 10’ 18” como um carrilhão gigante, enquanto o prestissimo central do Andantino torna-se, em suas mãos extraordinárias, um verdadeiro scherzo agitado.  Nem sequer Cherkassky, no seu momento mais brilhante, possuía um senso mais endiabrado de nuança e delicadeza. E pensar que tudo isso e algo mais é atingido sem o estímulo nem o obstáculo do sucesso de um grande concurso.

O pesado Primeiro Concerto de Medtner também dificilmente poderia ser tocado com uma clareza e um comprometimento tão pungentes. Já espirituosa mas incorretamente descrito como “uma declaração de amor na linguagem do Primeiro Império”, a música de Medtner permanece imponentemente inacessível, apesar de apresentar os componentes exteriores da retórica romântica. No entanto, é obvio que Sudbin acredita em cada nota e seu desempenho evoca, tanto como nas apresentações ao vivo, um raro sentido de afeto. Essa poesia confirma-se no seu bis, sua própria transcrição do Liebliches Kind! de Medtner, dentre as canções Op. 6. Resta-nos apenas acrescentar que o equilíbrio e o som da BIS são de qualidade ímpar, e que a Orquestra Sinfônica de São Paulo, sob a regência de John Neschling, parece sob a influência do espírito de carnaval da cidade vizinha, Rio de Janeiro, de tão contagiante ao responder ao seu radiante solista.

Bryce Morrison

Tradução de Marina Lindenberg Lima, voluntária da Osesp.

 

 

Medtner-Tchaikovsky - Disco do Mês
A execução de Yevgeny Sudbin agora explode em imaginação, sentimento e desejo.

Faixa 11
Medtner-Tchaikovsky Primeiros Concertos para Piano
Yevgeny Sudbin piano
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo / John Neschling
BIS

Em flagrante contraste à gravação de um Boris Berezovsky aparentemente cansado e ruminante do Concerto para Piano nº 1 de Tchaikovsky para o selo Warner no ano passado, a execução de Yevgeny Sudbin explode em imaginação, sentimento e desejo. Aqui, sente-se um pianista ansioso por testar a si mesmo, intelectual, emocional e tecnicamente.

Para um executante com a reputação de ser muito nervoso, nada existe de experimental nesse seu estilo de comando. Tampouco há qualquer coisa de monumental. Seu Tchaikovsky é de uma escala humana, quase uma busca por algo –talvez entendimento. Acima de tudo, Sudbin está numa jornada para uma maravilhosa carreira e, claramente, seus ouvintes o acompanham nessa empreitada.

Medtner é certamente a raridade desse lançamento. Também é uma peça cruelmente difícil de execução. Sudbin eleva-se às suas exigências com autodomínio, e a ele cabe o crédito de que ninguém jamais percebe ostentosamente quão perversa a obra é.

Aparentemente, houve certa tensão criativa entre ele e Neschling durante as sessões. Não obstante, ambos podem se orgulhar dos resultados.

Tradução de Marina Lindenberg Lima, voluntária da Osesp.

 

 

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