São Paulo e Glennie: conquista de ouro
Sexta-feira, 23 de outubro de 2009
por Robert Battey
No que se refere a orquestras sinfônicas, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo ainda se encontra na adolescência; foi formada em 1954 e teve apenas quatro diretores musicais. Refletindo a natureza multicultural do Brasil, seu rol de músicos inclui muitos nomes europeus e russos. Na noite de quarta-feira, no Centro Musical em Strathmore, a orquestra apresentou o penúltimo concerto, de uma excursão cansativa por 12 cidades, não mostrando nenhum sinal de fadiga.
As orquestras sul-americanas que já ouvi foram bastantes variáveis, mas o conjunto de São Paulo deve seguramente estar entre as melhores do continente. Todas as seções são fortes. As cordas mostram uma ampla gama de estilos de execução e, com certeza, falta a elas a unanimidade da Filarmônica de Viena ou da Orquestra de Cleveland. Mas não havia indolência em nenhum lugar, todos os músicos se apresentavam na totalidade e tanto as passagens rápidas como as melodiosas emergiam com clareza impressionante. As madeiras apresentam um oboísta maravilhosamente idiossincrático, cuja execução colorida ancorava um conjunto belo; tudo em sintonia. Os metais são sólidos, também, nenhuma nota rachada durante toda a noite, embora algumas entradas não fossem suficientemente ao mesmo tempo. Em geral, esta foi uma execução mais viva e interessante do que temos das sinfônicas Nacional e de Baltimore.
O programa incluía duas obras do brasileiro Camargo Guarnieri, de meados do século vinte. O compositor americano Aaron Copland tinha Guarnieri em alta conta e o estilo atmosférico, semelhante ao blues, deste claramente influenciou suas próprias obras latino-americanas. A obra principal da primeira metade é Veni, Veni Emmanuel, concerto para percussão e orquestra do compositor escocês James MacMillan. É um trabalho grandioso, escrito para Evelyn Glennie, com estreia nos EUA por ela e a National Symphony Orchestra em 1994.
O que se pode dizer desta artista única? A primeira percussionista solo clássica em tempo integral da história, ela apresenta uma concentração instigante e um estilo de execução carismático, que pode captar a imaginação do público, ainda que não fosse pela surdez dela, o que torna suas conquistas ainda mais notáveis. O concerto de MacMillan é uma mistura de atonalidade violenta e música devocional (baseia-se em textos litúrgicos e cantos gregorianos do século 15).
Glennie, descalça de modo a captar as vibrações, caminhava de forma precisa pelo palco, atacando uma grande gama de instrumentos com a intensidade que é sua assinatura. Um interlúdio longo e gentil com a marimba baixo foi bastante comovente, mas a narrativa musical parecia difusa e arbitrária.
O regente da orquestra para essa excursão foi o emergente e jovem maestro americano Kazem Abdullah. Ele surge como agradável e exuberante, mas ainda não muito profundo. Sua batida era clara, mas não muito detalhada, e seus sinais genéricos – o mesmo gesto para alguns instrumentos ou para todo o conjunto.
As complexidades rítmicas da Sinfonia n° 2 de Brahms, que encerrou o programa, estavam com frequência fora de foco, e Abdullah não dirigiu os metais suficientemente, seja na unanimidade do ataque ou os equilibrando contra o restante da orquestra. Mas ele tem talento e aparência e provavelmente continuará a subir rapidamente.
Tradução de Martha Rosemberg, voluntária da Osesp.