Novo menino do Brasil

 

Sob a liderança carismática, embora temporária, de Yan Pascal Tortelier, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo continua fascinante, descobre Robert Hilferty

SÃO PAULO

A noite estava agitada com o tipo de energia que se encontra no Sambódromo no Carnaval, mas aconteceu de fato diversas semanas depois em uma sala de concertos.
A noite de abertura da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, em 5 de março, era uma evento muito esperado porque ela seria conduzida pelo novo regente principal, Yan Pascal Tortelier. Le tout São Paulo, para cunhar uma frase adequada, abarrotava a sala, inclusive um antigo presidente, bem como outras pessoas influentes em artes e publicações.
Tortelier, não só muito ensaiado mas eletrificado pelo entusiasmo, apresentava interpretações emocionadas das Variações Enigma de Edward Elgar e a Sinfonia n° 2 de Rachmaninov. A orquestra, criada em 1954, sob o diretor musical anterior, John Neschling elevou seus padrões e aumentou sua influência. Este, nos 12 anos de seu comando, ampliou o repertório para incluir música de compositores brasileiros (com obras publicadas pela orquestra), fez uma grande quantidade de gravações e deu início a uma academia para completar a formação de músicos jovens.
Mais deslumbrante, entretanto, foi a inauguração de uma nova sala de concertos há dez anos. Uma estação ferroviária dos anos 1930 convertida, o espaço neoclássico com colunas coríntias apresenta um projeto acústico excelente do falecido Russell Johnson da empresa Artec de Nova York. Mas como Neschling (sobrinho de Arnold Schoenberg) e o conselho estavam em desacordo há alguns anos sobre como a orquestra deveria ser gerida, seu mandato, que deveria viger até 2011, foi cortado. Tortelier assumiu o posto para os próximos dois anos, principalmente porque teve uma afinidade emocional soberba com a orquestra na última temporada, quando regeu como substituto de última hora de Michel Plasson.
A química estava certamente evidente na noite de abertura. O antigo regente principal da BBC Philharmonic, alto, com 61 anos de idade, elevava os braços sem batuta ou partitura. O que se seguia era uma interpretação convincente e frequentemente lírica das Variações Enigma, a galeria brilhante de retratos musicais de Elgar, inclusive um com base nele mesmo. Tortelier e a orquestra captaram o caráter de cada um deles, arranjados como um fluxo de contrastes, do cômico ao terno. Todos os detalhes estavam lá.
Mas Tortelier e a orquestra brilharam realmente na Sinfonia n° 2 de Rachmaninov, uma obra de uma hora, plena de nostalgia e das texturas orquestrais mais extraordinárias. A sensação de desassossego da abertura, com as cascatas maravilhosas de violinos se sobrepondo, foi executada primorosamente e a tragédia maior que vai se formando durante o restante do movimento foi delicadamente equilibrada por Tortelier. A urgência do segundo movimento tem uma qualidade semelhante a um scherzo que se sente como uma fusão feliz de Mendelssohn e Wagner a guisa de celebração deslumbrante russa. Todas as explosões emocionais que se seguiram não eram nem sentimentais nem exageradas. Podia-se realmente ouvir todas as qualidades belas dessa peça; foi plenamente agradável e o publico colocou-se em pé como um todo no final.
A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, financiada principalmente pelo governo e com infusões saudáveis de recursos de empresas privadas, tem lugar sólido na vida artística dessa metrópole espalhada, senão no restante do Brasil. Está situada numa parte da cidade que está a uma caminhada de distância da maravilhosa Pinacoteca do Estado, próxima do igualmente impressionante Parque da Luz, que funciona como jardim botânico e de esculturas. Do outro lado da rua está o fascinante Museu da Língua Portuguesa, abrigado numa velha estação ferroviária. A cidade tem outros museus e parques também dignos de nota.
A orquestra e sua fundação estão justificadas, com toda a certeza, em abrigar aspirações de se tornar uma presença mais reconhecida nos palcos mundiais. Eles, obviamente, têm todas as condições e só devem ficar cada vez melhores ao longo da próxima década. No momento, eles estão procurando um novo regente principal, embora Tortelier, que conduzirá numa excursão pela Europa, não descartou se manter no posto no longo prazo. Entrementes, o jovem regente Kazem Abdullah regerá em uma próxima excursão americana.
Sob a liderança e a administração corretas, tenho certeza que ouviremos muito mais da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Tradução de Martha Rosemberg, voluntária da Osesp.

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