Franz Liszt (1811-86) foi decerto o compositor que mais intimamente se apoiou, em suas criações sinfônicas, no universo da literatura. A Sinfonia Dante (1856), dedicada a Wagner, a Sinfonia Fausto (1854), dedicada a Berlioz, seus Poemas Sinfônicos inspirados em Tasso, Schiller, Byron, Lamartine, Victor Hugo e outros grandes poetas demonstram essa posição singular ocupada pelo compositor húngaro, mesmo no contexto da música do século XIX, tão aberta ao diálogo com outras formas de expressão artística, em especial com as letras. Um poema sinfônico dedicado a Orfeu, tema literário por excelência, não é portanto uma exceção no contexto dos treze poemas sinfônicos que Liszt compôs entre 1848 e 1882. Escrito em 1854, Orfeu foi concebido como prólogo à ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck (1762). Poeta-músico primordial, cujo canto age magicamente sobre o ânimo das criaturas, pacificando-lhes os instintos, Orfeu retorna em diversos momentos da história da música, alguns deles cruciais, como em Poliziano (1479), Monteverdi (1607) e Purcell (1698-1702), além do próprio Gluck — sem esquecer a versão buffa que Offenbach deu ao mito, em 1858. Segundo o próprio Liszt, seu poema sinfônico procura representar, justamente, essa espécie de encantamento civilizador propiciado pelo canto de Orfeu. Três anos depois de Orfeu, Liszt conclui o Concerto Para Piano nº 2 em Lá Maior, em que trabalhava desde 1839. Nele, o compositor abandona a forma sonata e a tradicional estrutura Allegro–Adagio–Allegro dos concertos clássicos, em benefício de um continuum em que se fundem seis movimentos dominados por um único tema, exposto pela clarineta desde os primeiros compassos. Não por acaso, em seu manuscrito, Liszt deu à obra o título de Concerto Sinfônico, como se propusesse menos um concerto que um poema sinfônico para piano e orquestra. Como no caso de Orfeu, a estreia ocorreu em Weimar, o pequeno arquiducado onde Liszt, ali nomeado mestre de capela em 1842, retirara-se para devotar-se à composição, ao lado da condessa Carolyne von Sayn-Wittgenstein. A veneranda Weimar de Bach, Goethe e Schiller é ainda o cenário do encontro de Liszt com Richard Wagner (1813-83), que, em 1848, ano revolucionário por excelência, imaginava construir justamente em Weimar, e não em Bayreuth, o teatro ideal de sua “obra de arte do futuro”. Em Wagner, que ele promove com rara generosidade, Liszt discerniu o futuro da música; aos festivais de Bayreuth ele retornaria anualmente até a extrema velhice, vindo mesmo a falecer nessa cidade, em 1886. Ao final do “Prólogo” de Crepúsculo dos Deuses, ópera final da tetralogia O Anel de Nibelungo, e cuja première teve lugar em 1876, Wagner insere um interlúdio orquestral de grande vivacidade e sugestão narrativa que tomaria o nome de “Viagem de Siegfried pelo Reno”: chegada a aurora, Siegfried deve deixar Brünhilde, dando-lhe o anel como prova de seu amor. O interlúdio sugere o início dessa jornada épica de Siegfried que desce o Reno em cumprimento de seu destino de herói. Numerosos Leitmotive da tetralogia (temas musicais associados por Wagner a determinadas personagens, situações etc.), seja narrativos (como o do “Reno”, que remete ao “Prólogo” de O Ouro do Reno), seja de cunho simbólico ou anímico (como o Leitmotiv da “Decisão”), entretecem-se na variada textura orquestral e rítmica. Esse curto interlúdio sugere uma longa viagem, que se conclui no tempo lento e sombrio de um drama psicológico sem tempo. Ele prenuncia a morte trágica do herói inocente, assassinado por Hagen. A marcha fúnebre que sucede a esse assassinato é, merecidamente, um dos mais célebres monumentos orquestrais de Wagner e da história da música. Ela anuncia os funerais de Siegfried, suspenso na pira em que se lançará Brünhilde, antes da catarse final, impregnada de pessimismo schopenhaueriano. Outra das mais amadas peças de Wagner, o “Prelúdio” do Primeiro Ato da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberg, apresentado em 1868 em meio a uma crescente exaltação nacionalista, exprime uma alegria radiante, típica da luminosa tonalidade de dó maior. O embate entre os temas principais tem uma dimensão metamusical, uma vez que alude à discordia concors entre conservar e inovar na grande tradição da música alemã. O “Prelúdio” do Terceiro Ato é o instante de maior gravidade, serenidade e introspecção desta que é a única ópera “ligeira” de Wagner, enquanto a “Dança dos Aprendizes” é o seu momento de maior leveza.
Luiz Marques é professor livre-docente do departamento de história da Unicamp e diretor do Projeto Mare, Museu de Arte para a Educação.
“Iluminada pela mais pura moral ensinada pelos dogmas mais sublimes, esclarecida pelos faróis mais brilhantes da ciência, instruída pelas investigações filosóficas da inteligência, rodeada pela mais refinada das civilizações, a Humanidade, hoje como outrora e sempre, conserva em seu seio os instintos da ferocidade, da brutalidade e da sensualidade, que a arte te m a missão de abrandar, suavizar, enobrecer. Sendo assim, Orfeu, ou seja, a Arte, deve derramar suas ondas melodiosas, seus acordes vibrantes, como uma doce e irresistível luz, sobre os elementos contrários que se digladiam na alma de cada indivíduo, assim como nas entranhas da sociedade. […] Se nos fosse dado formular por completo nossa ideia, quisemos transmitir, em Orfeu, esse caráter serenamente civilizador dos cantos que irradiam de toda obra de arte; sua suave energia, seu império augusto, sua sonoridade nobre mente voluptuosa à alma, sua ondulação doce como as brisas do Eliseu, sua ascensão gradual como os vapores do incenso, seu Éter diáfano e azulado envolvendo o mundo e o universo inteiro como em uma atmosfera, como em uma veste transparente de inefável e misteriosa Harmonia.”
Trecho do “Prefácio” de Liszt a seu poema sinfônico Orfeu.
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Concerto nº 2 em Lá Maior
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Opera d’Oro, 1998 [gravação ao vivo, 1950]
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M. Mila
Brahms e Wagner
Einaudi, 1994
INTERNET
www.lisztsoc.org.uk
www.richard-wagner-verband.de
www .wagnermuseum .de
www .ba yreuther -festspiele .de