Mais do que um estilo homogêneo, o Romantismo em música foi um grande movimento no qual cada um de seus protagonistas desenvolveu ideias próprias e muitas vezes contrastantes entre si. O contraste torna-se especialmente simbólico quando colocamos lado a lado três diferentes poéticas musicais românticas, tal como no programa destes concertos.
Em 1893, foi levada pela primeira vez ao palco a peça de teatro Pelléas et Mélisande do belga Maurice Maeterlinck. Escritor comumente associado ao Simbolismo, suas obras exerceram especial influência nos compositores na primeira metade do século XX. A peça gira em torno do triângulo amoroso entre Mélisande, noiva prometida a Golaud, que acaba se apaixonando por seu cunhado, Pelléas, assassinado por Golaud quando este fica a par da traição. Mélisande, grávida, será gravemente ferida, mas consegue dar à luz uma criança anormalmente pequena.
Essa trágica história já havia fascinado Fauré e Debussy, que no mesmo ano em que a peça de teatro foi estreada iniciou a composição de uma ópera baseada em seu texto, que seria concluída e montada em 1902. Simultaneamente, Arnold Schoenberg finalizava outro projeto baseado nesse texto de Maeterlinck, o poema sinfônico que seria seu Opus 5.
Se com sua ópera Debussy estabelece um patamar de maturidade à versão musical do Impressionismo, Schoenberg, por sua vez, dá os primeiros passos no caminho para a música nova com seu Pelléas e Mélisande. Aqui, ele leva adiante o projeto de especulação harmônica iniciado por Wagner e desenvolvido por Strauss, Mahler e Zemlinsky, cujos ecos se fazem presente ao longo dessa obra que, no entanto, jamais se desliga de suas raízes românticas.
Enquanto gênero musical, o poema sinfônico se propõe como uma narrativa musical de uma história. Entretanto, em Schoenberg a associação entre enredo e música ocorre de forma abstrata, na medida em que não se estabelecem associações específicas entre os momentos da história e trechos determinados da partitura. Conforme escreveu o crítico alemão Carl Dahlhaus, “não são propriamente as cenas do drama de Maeterlinck que dão forma ao poema sinfônico de Schoenberg, mas as situações internas das quais elas são o reflexo exterior”.
Difícil pensar em Robert Schumann sem evocar sua esposa, Clara Wieck, figura que se emaranha em sua vida e sua obra. Uma das maiores pianistas de seu tempo — época em que a atividade profissional em música de uma mulher era extremamente malvista —, Clara foi, além do grande amor da vida de Schumann, as hábeis mãos do compositor, depois que ele as “perdeu” após um fracassado procedimento médico que, ironicamente, visava proporcionar-lhe maior independência nos dedos. Assim, com o passar dos anos, Clara tornou-se o veículo de expressão pianística de Schumann, cuja escrita para esse instrumento reflete tanto a sofisticação criativa do compositor como a incrível virtuosidade de sua esposa, responsável pela estreia de várias de suas obras.
Também seu Concerto Para Piano foi estreado por Clara, em uma apresentação no dia de ano-novo de 1846, na Gewandhaus de Leipzig. Apesar de não ter sido dedicada a ela, a peça é o desenvolvimento de ideias originadas em uma Fantasia Para Piano e Orquestra, que, esta sim, Schumann dedicou a sua consorte, musa soberana de seu esposo — e também de um grande amigo da família: Johannes Brahms. Em Schumann, a presença de Clara é feita de forma ampla e explícita. Já se o amor que Brahms sentia por ela influenciou sua música, isto ocorreu com a discrição que a situação pedia. Em 1879, quando a Universidade de Breslau concedeu-lhe o título de doutor honoris causa, ele compôs para a ocasião uma Abertura Acadêmica. Mas logo em seguida, sem nenhum motivo aparente, compôs a Abertura Trágica, ambas estreadas no ano seguinte. Enquanto na obra festiva Brahms imprime um clima serenamente brilhante, alinhado aos propósitos da ocasião, é em seu oposto trágico que Brahms revela o verdadeiro teor da alma de emoções intensas, represadas por debaixo dos finos e elegantes cerimoniais.
1 Carl Dahlhaus, Schoenberg And The New Music. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
LEONARDO MARTINELLI é compositor e professor da Escola Municipal de Música de São Paulo e da Faculdade Santa Marcelina. É colaborador da revista Concerto.
PROGRAMA
Arnold SCHOENBERG [1874-1951]
Pelléas e Mélisande, Op.5 [1903]
41 MIN
FORMAÇÃO: piccolo, 3 flautas, 3 oboés (3.=corne-ingles), requiinta, 3 clarinetes (3.=clarinete baixo II), clarinete baixo, 3 fagotes, contrafagote, 8 trompas, 4 trompetes, 5 trombones, 1 tuba [tuba contrabaixo], 2 harpas, 2 tímpanos, percussão, cordas.
Johannes BRAHMS [1833-97]
Abertura Trágica, Op.81 [1880]
12 MIN
FORMAÇÃO: Piccolo, 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpanos, cordas.
Robert SCHUMANN [1810-56]
Concerto Para Piano em Lá Menor, Op.54 [1845]
_ Allegro Affetuoso
_ Intermezzo: Andantino Grazioso (Attacca)
_ Allegro Vivace
32 MIN
FORMAÇÃO: piano solista, 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos, cordas.