O relativo descaso que a música do alemão Paul Hindemith vem experimentando desde sua morte não deve nos fazer esquecer de que ele foi um dos músicos mais célebres e influentes da primeira metade do século XX, não apenas como compositor, mas também na qualidade de regente, instrumentista, educador e teórico.
Virtuose do violino e, posteriormente, da viola, Hindemith começou a carreira compondo em um idioma romântico tardio, que ele, mais tarde, repudiaria, em favor de uma linguagem agressiva, de recorte expressionista. Nos anos 1920, resolveu abraçar a estética conhecida como Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade), que defendia que o estilo da obra de arte devia depender de seu caráter e função.
Esse tipo de escolha não fazia de Hindemith uma figura simpática ao nazismo e, em 1934, o ministro da Propaganda alemão, Joseph Goebbels, referiu-se a ele como “charlatão” e “fazedor de barulho atonal”.
Diante de tamanha hostilidade, o melhor era emigrar. Assim, depois de uma passagem pela Suíça, o músico se radicou nos EUA, em 1940, onde recebeu diversas encomendas, escrevendo obras que se adaptavam ao virtuosismo e ao brilho das florescentes sinfônicas norte-americanas. Uma dessas peças é o Concerto Para Violoncelo, estreado em fevereiro de 1941 pelo célebre astro do instrumento Gregor Piatigorsky, com a Sinfônica de Boston, regida por Sergei Koussevitzky.
Virtuosístico e extrovertido, o concerto brinca com a interação entre solista e orquestra: em muitos momentos, o violoncelo parece discordar do que os outros instrumentos estão fazendo; em outros, solista e tutti parecem falar a mesma língua. Está dividido em três movimentos: o primeiro traz uma fanfarra, com escrita brilhante para os metais, possivelmente inspirada pela excelência dos naipes da Sinfônica de Boston naquela época; o segundo é lírico, com uma rápida tarantela no meio; e o derradeiro traz uma marcha que teria sido escrita no século XVIII, pela Princesa Ana Amália, da Prússia (1723-87).
Grato pelo empenho de Paul Hindemith em estrear, como solista, seu Concerto Para Viola, em 1929, o compositor britânico William Walton (1902-83) decidiu, em 1963, homenagear o colega com as Variações Sobre um Tema de Hindemith, que tomam como base o movimento lento do Concerto Para Violoncelo.
Hindemith ainda era um aplicado e brilhante estudante de violino e não havia começado estudos sistemáticos e formais de composição em 1911, quando, em Londres, o britânico Sir Edward Elgar estreava sua Sinfonia nº 2, dedicada ao rei Eduardo VII, falecido no ano anterior.
Embora Londres seja há séculos um dos principais centros musicais do planeta, a música dos compositores ingleses, curiosamente, tem dificuldade de ser aceita e tocada fora dos limites das ilhas britânicas.
Nesse sentido, Elgar representa uma bem-vinda exceção, já que a força e a exuberância de sua música vêm garantindo que partituras como as Variações Enigma e o Concerto Para Violoncelo (para não falar na Marcha nº 1 de Pompa e Circunstância) sejam executadas com regularidade para além do Canal da Mancha.
Obra de maturidade do compositor, a Sinfonia nº 2 tem inscrita, na primeira página de sua partitura, um verso do poema Song (Canção) de Percy Bysshe Shelley (1792-1822): Rarely, rarely comest thou, Spirit of Delight! (Raramente, raramente vens, Espírito do Deleite).
Contudo, o próprio Elgar advertiu: “Para chegar perto do estado de espírito da sinfonia, o poema de Shelley pode ser lido na íntegra, mas a música não ilustra o poema como um todo, nem o poema elucida inteiramente a música”.
Assim, os estudiosos têm se entretido em buscar relações entre a obra e a vida privada de Elgar, vendo, por exemplo, na marcha fúnebre do segundo movimento, uma homenagem ao amigo Alfred E. Rodewald, falecido durante a composição da obra. Alice Stuart Wortley, com a qual Elgar teria tido uma ligação romântica, seria a inspiração geral da sinfonia.
As especulações certamente vêm do caráter eloquente da música, que parece nos narrar um drama sem palavras, eivado de dúvidas e contradições. Não é à toa que, embora não admitindo que ela tivesse algum programa extramusical, o próprio Elgar chamou sua sinfonia de “peregrinação apaixonada da alma”.
Irineu Franco Perpetuo é jornalista, colaborador do jornal Folha de S.Paulo e da revista Concerto, e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).
PROGRAMA
Paul HINDEMITH [1895-1963]
Concerto Para Violoncelo (1940)
- Allegro Moderato
- Andante Con Moto
- Allegro Marciale
26 MIN
Edward ELGAR [1857-1934]
Sinfonia nº 2 em Mi Bemol Maior, Op.63 [1909-11]
- Allegro Vivace e Nobilmente
- Larghetto
- Rondo: Presto
- Moderato e Maestoso
53 MIN