Temporada Osesp: Dausgaard rege Brahms
Thomas Dausgaard por Marianne Grondhal
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
21 jun 12 quinta-feira 21h00
Jacarandá
22 jun 12 sexta-feira 21h00
Pequiá
23 jun 12 sábado 16h30
Ipê
QUINTA-FEIRA 21/JUN/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
SEXTA-FEIRA 22/JUN/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
SÁBADO 23/JUN/2012 16h30
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Thomas Dausgaard regente
Programa
Johannes BRAHMS
Sinfonia nº 3 em Fá Maior, Op.90
Sinfonia nº 4 em Mi Menor, Op.98

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa

Johannes Brahms foi um sinfonista tardio: sua Sinfonia n°1 estreou apenas em 1876, quando o compositor já tinha mais de quarenta anos — o que, nos moldes do século XIX, era uma idade avançada. Os tantos outros gêneros de escrita orquestral surgidos entre o tempo de Beethoven e o de Brahms deslocaram a supremacia da sinfonia, que correu o risco de cair em desuso; somem-se a isso as incertezas pessoais do compositor e está explicado o atraso.

A Sinfonia n°1 dá prosseguimento a uma linha que a une à última sinfonia de Schumann. A de número dois, mais luminosa, alimenta a polêmica Brahms/ Wagner, criada pelo crítico Eduard Hanslick. Coincidentemente, a Sinfonia n°3 estreou poucos meses depois da morte de Wagner, em 1883.

Essa talvez seja a mais típica das obras de Brahms, aquela que identifica, até para o ouvinte casual, os traços mais característicos dessa figura básica da renovação do sinfonismo clássico da segunda metade do século XIX. Nos seus quatro movimentos, a peça é um organismo sinfônico que se mostra compacto e direto como nenhuma de suas outras três sinfonias. Brahms articula os pensamentos musicais num edifício construído solidamente, mas que não exige do ouvinte nenhuma pre-disposição adicional para entendê-lo na plenitude.

Os quatro movimentos são inseparáveis. No “Allegro Con Brio” inicial, os “antigos alicerces” de Hanslick estão todos em seu devido lugar. No entanto, a forma sonata clássica se transforma num jogo de tensões e distensões, pousos e voos, fluxos e refluxos. O famoso início da sinfonia é exemplo disso, ao nos lançar em pleno ar para logo nos levar ao repouso e, em sucessivas ondulações, criar e re- criar o conflito entre tensão e distensão.

Ao ouvir o “Andante” que se segue, cabe a pergunta: depois de Wagner e já nos tempos de Bruckner, quem se atreveria a um movimento sinfônico tão simples? Só mesmo Brahms, nesse trecho cristalino e direto em seu jogo tímbrico entre naipes e internaipes. É como se estivéssemos diante de uma pintura primitivista que nos enchesse de alegria — aquela alegria que vem da observação de uma genialidade que se faz simples ao negar a elucubração e a utilização sofisticada da semântica.

O terceiro movimento, “Poco Allegretto”, é talvez a peça sinfônica mais célebre composta por Brahms. A despeito de um breve episódio em tonalidade maior, é a própria celebração da tonalidade menor. Se alguém já teve dúvidas sobre o que significa um “tom menor”, que ouça os primeiros compassos desse movimento e logo compreenderá a intensidade da melancolia que só os românticos puderam expressar.

O “Allegro” final não é, como em geral nas obras de Brahms, conciliador. É, antes, o explodir da tempestade, que nem um tema apaziguador consegue abafar. O drama e a dúvida são os elementos em jogo nesse derradeiro movimento, que só encontra sua finalização quando o tema inicial de toda a sinfonia reaparece e se impõe. É esta reaparição, quase uma assombração, que dá coerência à obra. Mais do que isso: ela revela que essa sinfonia deve ser apreciada obrigatoriamente como um todo unitário e indissolúvel. Chega-se ao final na mais absoluta paz, diante de um daqueles casos do sinfonismo romântico de final de século em que o todo é maior do que a soma das partes.
Celso Loureiro Chaves é professor titular de composição e história da música na UFRGS, autor de Memórias do Pierrô Lunar (L&PM, 2006).





A Sinfonia n° 4 de Brahms está entre as obras mais executadas pelas maiores orquestras do mundo, sob a direção dos mais respeitados regentes. Mas, afinal, por que o público não se cansa de ouvi-la e os músicos de tocá-la? A história de sua recepção ajuda a explicar esse fenômeno.

Sua estreia em Viena, em 1886, se não foi um fiasco, esteve longe de ser um sucesso retumbante. Hoje, espanta saber que até algumas vaias foram ouvidas na plateia. Em contraste, a Sinfonia n°1 de Brahms havia sido saudada como uma grande realização e consolidara sua reputação como um dos maiores compositores alemães de sua geração. As duas sinfonias que se seguiram não demandaram do público uma escuta mais sofisticada do que a primeira já impusera e, por isso, foram aceitas sem hesitação.

Quanto à Quarta, a história foi diferente. Na média, a reação da plateia foi de espanto e perplexidade. Mas o prestígio de Brahms e, é claro, a qualidade intrínseca à obra, que não escapara aos mais sagazes, garantiu o retorno aos palcos nos anos seguintes.

Com o passar do tempo, a Sinfonia n°4 foi crescendo muito na estima do público vienense. Em 1897, um mês antes de sua morte, Brahms esteve presente a uma dessas reapresentações. A reação do público na estreia fora substituída pela de familiaridade, e aplausos irromperam a cada intervalo. Ao final, uma interminável ovação trouxe lágrimas à face do compositor, em outras circunstâncias sempre tão contido. Ocorrera com o público vienense o mesmo que acontece conosco a cada vez que a escutamos: aumentou gradativamente o entendimento e o prazer em ouvi-la. Essa é a marca distintiva das obras-primas: oferecer ao ouvinte a possibilidade de inumeráveis leituras, que tornam cada execução uma viagem propícia a novas descobertas e, ao mesmo tempo, uma prazerosa reafirmação dos achados anteriormente feitos.

Brahms precisou de dois anos, 1884 e 1885, em particular dois retiros de verão na pequena vila de Mürzzuschlag, para terminar essa sinfonia extraordinariamente complexa. Com seu desenvolvido senso de equilíbrio formal, Brahms estava ciente da importância de balancear as expectativas arquitetônicas do primeiro e do último movimentos, lição que Beethoven havia ensinado. Na Sinfonia n° 4, a resposta que Brahms oferece a esse desafio é tudo, menos trivial. Ele resgata uma forma barroca, a do tema e variações, baseados em um baixo ostinato, para deslocar o ponto culminante da sinfonia para o quarto movimento. É possível que, ao tomar essa decisão, Brahms tivesse em mente como modelo o “Crucifixus” da Missa em Si Menor, de Bach. A prova disso seria que Brahms empresta o baixo ostinato de um coral da Cantata n°150, de Bach, cujo texto reza: “A ti, Senhor, elevo minha alma”. Haveria também nessa escolha uma sugestão de despedida?

Seja como for, tanto o último como o primeiro movimento — este composto em forma de sonata com o mais legítimo dos pedigrees — confirmam a reputação de Brahms como o mais formalista entre os românticos e, por outro lado, atestam que o interesse do compositor pelo passado ultrapassava o culto às formas consagradas do classicismo vienense recente. De fato, Brahms foi um profundo conhecedor da música dos períodos barroco e renascentista.

O desenvolvimento de seu estilo de contraponto romântico, do qual a Sinfonia n° 4 representa o ponto culminante, pode ser creditado ao interesse pelo estudo do contraponto ao longo da história da música. A monumentalidade dessa peça não decorre de um caráter heroico forjado na superfície, donde a dificuldade de sua assimilação. Sua imponência advém do rigor da estrutura interna, enquanto na superfície ela exibe climas alternantes, passando pelos melancólicos, com um toque de lirismo outonal característico de Brahms.

A técnica de composição não está só a serviço do resultado, mas em busca de uma riqueza de relações para além da superfície. Não há outra maneira de explicar o cuidado extremo com que Brahms construiu essa sinfonia, toda ela apontando para as trinta variações e a extensa coda do último movimento, na qual ele transforma e disfarça a aparência do tema sob incontáveis formas, revelando nesse jogo de espelhos a maestria suprema de sua arte.

Rodolfo Coelho de Souza é compositor, doutor em composição pela University of Texas at Austin e professor de composição na ECA-USP.




PROGRAMA

Johannes BRAHMS [1833-97]
Sinfonia n° 3 em Fá Maior, Op.90 [1883]
- Allegro Con Brio
- Andante
- Poco Allegretto
- Allegro
33 MIN

Johannes BRAHMS [1833-97]
Sinfonia n° 4 em Mi Menor, Op.98 [1885]
- Allegro Non Troppo
- Andante Moderato
- Allegro Giocoso
- Allegro Energico e Passionato
39 MIN


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