Temporada Osesp: Dausgaard rege Beethoven
Thomas Dausgaard por Marianne Grondhal
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
28 jun 12 quinta-feira 21h00
Eleazar 100 Anos 1
29 jun 12 sexta-feira 21h00
Eleazar 100 Anos 2
01 jul 12 domingo 19h00
Eleazar 100 Anos 3
QUINTA-FEIRA 28/JUN/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
SEXTA-FEIRA 29/JUN/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
DOMINGO 01/JUL/2012 19h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Thomas Dausgaard regente
Susanne Bernhard soprano
Ingeborg Danz mezzo soprano
Donald Litaker tenor
Klemens Sander barítono
Coro da Osesp
Programa
Ludwig van BEETHOVEN
Missa Solemnis em Ré Maior, Op.123

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa

A inspiração para o trabalho mais sublime de Beethoven surgiu de um ato de amizade e convicção religiosa. Em 1818, foi anunciado que o arquiduque Rudolf seria nomeado arcebispo de Olmütz, em 9 de março de 1820. Beethoven decidiu, por conta própria, que comporia uma missa solene para a ocasião. Apesar de ter sido composta com intenção litúrgica — o que levou Beethoven a estudar o latim falado, a escrita germânica e músicas eclesiásticas do passado —, a Missa se mostrou uma façanha considerada fora do alcance dos profissionais mais reconhecidos.

Em certo sentido, a opinião da época estava correta: a natureza irrealizável da Missa representa o que a música realmente “diz”. Beethoven fez uma nobre homenagem ao arquiduque ao presumir que ele, a quem a obra era dedicada, seria capaz de compreendê-la, enquanto as pessoas ordinárias, ou até mesmo seu fiel secretário, Anton Schindler, não seriam. Beethoven também prestou uma homenagem potencial a nós, seus sucessores, pois no alto da partitura escreveu: “Von Herzen — möge es wieder — zu Herzen gehen” (“De um coração — se possível — a outros corações”). Ele pede uma comunicação que “atinja seu objetivo”. Ao fazê-lo, imagina uma “perfeição transcendente em que não haja mais qualquer necessidade de comunicação”.

Em última análise, a Missa torna-se um ato de oração, uma demonstratio do aforismo de Leibniz: “Summum bonum est cognoscere Deum” (“O supremo bem da mente é o conhecimento de Deus”).

Em 1823, ano em que a Missa foi afinal concluída, tarde demais para a coroação eclesiástica do arcebispo, Beethoven ecoou as palavras de Leibniz quando escreveu ao arquiduque: “Não há nada que seja de mais alta ordem do que chegar mais perto da divindade do que outros mortais e, a partir desse contato, propagar os raios da divindade para toda a raça humana”. A essa altura de sua vida, a “divindade” de Beethoven tinha pouco a ver com as práticas ortodoxas da Igreja Romana, e menos ainda com a deidade da moralidade ética de Kant ou o deus humanitário dos teólogos pietistas do Iluminismo.

Mais relevante é o fato de o próprio Beethoven ter feito uma cópia que manteve em sua escrivaninha, gravada e emoldurada, de uma inscrição com a qual, de acordo com Schindler, ele se deparou em uma das obras do egiptólogo J.F. Champollion: “Sou aquilo que é. Sou tudo que foi e que virá a ser. Nenhum mortal ergueu meu véu. ELE é ele próprio sozinho, e a este Único todas as coisas devem sua existência”.

Em um diário de 1816, Beethoven também copiou as seguintes palavras da (segundo ele) “literatura indiana”: “Deus é imaterial, e por essa razão transcende toda a concepção. Como é invisível, não pode ter forma. Mas, pelo que observamos de seu trabalho, podemos concluir que ele é eterno, onipotente, onisciente e onipresente”. O conhecimento de Beethoven do misticismo oriental veio certamente de segunda ou terceira mão — provavelmente, segundo Schindler, por meio de Scheling e Schlegel —, mas o que importa não é a extensão ou o rigor de seu conhecimento, e sim o simples fato de considerar tais passagens pertinentes para sua criação, transcrevê-las em seu diário e tê-las emolduradas na escrivaninha.

Os psiquiatras não se esqueceram de relacionar a necessidade de Beethoven por uma deidade todo-poderosa à sua batalha de toda a vida contra a autoridade mundana, nem de atribuir essa relação à influência exercida pela tirania de seu pai beberrão. Embora isso possa ter lá sua veracidade, o elemento biográfico é apenas um verniz no contexto do esforço dedicado à música, e não o contrário. Beethoven não compôs a Missa Solemnis em razão de sua paranoia acerca do sobrinho Karl. Ao contrário, a crise ocorrida em sua vida pessoal foi precipitada pela batalha arquetípica de sua música, na qual tinha lutado — de acordo com suas próprias palavras — contra “as forças da escuridão”.

Apesar do final infeliz do relacionamento entre Beethoven e Karl, sua música foi um triunfo. Schindler nos diz que, no trabalho de Beethoven na Missa Solemnis, “parece que toda sua personalidade assumiu uma forma diferente. Nunca antes nem depois cheguei a vê-lo em tal condição de distanciamento de todas as questões mundanas”.

Wilfrid Mellers, Beethoven And The Voice of God (Oxford University Press, 1983).Tradução de Claudio Carina.





A Missa Solemnis nunca teria obtido um lugar inquestionável no repertório se tivesse, como Tristão e Isolda, de Wagner, causado um grande choque por sua dificuldade. Mas não é esse o caso. Se ignorarmos as pontuais demandas incomuns exigidas da voz cantada, demandas que a peça divide com a Nona Sinfonia, pode-se dizer que a Missa contém pouco que exceda o âmbito da linguagem musical tradicional. Longos trechos são homófonos e até as fugas e fugati se encaixam sem dificuldade nos padrões de baixo contínuo. As progressões dos intervalos harmônicos, e com elas o contexto de superfície, são raramente problemáticas. A Missa Solemnis foi composta muito menos em oposição às tradições musicais prevalecentes do que os quartetos tardios e as Variações Diabelli Op.120. Sobretudo, ela não se encaixa na concepção final de estilo de Beethoven, tal qual esta deriva dos quartetos e variações, das cinco sonatas tardias e dos ciclos de bagatelas. A Missa se distingue mais por certos momentos arcaizantes de harmonia — modos eclesiásticos — do que pela avançada ousadia composicional da estupenda Grande Fuga Op.133.

Theodor Adorno, Essays on Music (University of California Press, 2002).





PROGRAMA
Ludwig van BEETHOVEN [1770-1827]
Missa Solemnis em Ré Maior, Op.123 [1819-23]
- Kyrie
- Gloria
- Credo
- Sanctus
- Benedictus
- Agnus Dei
81 MIN


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