Temporada Osesp: Kalmar e Gunn
Carlos Kalmar por Michael Jones
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
26 jul 12 quinta-feira 21h00
Carnaúba
27 jul 12 sexta-feira 21h00
Paineira
28 jul 12 sábado 16h30
Imbuia
QUINTA-FEIRA 26/JUL/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
SEXTA-FEIRA 27/JUL/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
SÁBADO 28/JUL/2012 16h30
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Carlos Kalmar regente
Nathan Gunn barítono
Programa
Charles IVES
The Unanswered Question
John ADAMS
The Wound-Dresser
Benjamin BRITTEN
Sinfonia de Réquiem, Op.20
Dmitri SHOSTAKOVICH
Sinfonia nº 6 em Si Menor, Op.54

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa

Charles Ives compôs The Unanswered Question, que tem como subtítulo “A Cosmic Landscape”, como contraparte de Central Park in The Dark.

As cordas provêem escoras harmônicas, fazendo flutuar uma série de acordes tremulantes em movimentos lentos, que parecem mais uma revelação do que uma composição. Ives evita progressões harmônicas tradicionais; de certa forma, antecipa o minimalismo dos anos 1970, com os acordes evoluindo sem uma direção linear.

Acima das cordas, um trompete solo fora do palco formula uma “pergunta” ambígua e persecutória de cinco notas, repetida sete vezes. Seis das “perguntas” desencadeiam respostas de um quarteto de flautas. As respostas variam de uma tentativa de reafirmar a pergunta a acessos de raiva que parecem refutá-la.

A explicação de Ives para o solo de trompete é intencionalmente ambígua. A pergunta não só não é respondida como também não é especificada, deixando os ouvintes livres para interpretar o significado por si mesmos. No contexto do tema geral da Temporada 2012 da Osesp, “Música em Tempos de Guerra e de Paz”, por exemplo, essa pergunta pode ser uma ponderação sobre a incessante e sem sentido incapacidade humana de evitar banhos de sangue.

Em 1988, o pai de John Adams morreu. Ele sofria de Alzheimer havia muitos anos, e durante esse período foi a mãe de Adams quem cuidou dele. Adams viu a mãe dedicar sua vida aos cuidados do marido doente, e também testemunhou a devastação do flagelo da Aids em muitos amigos: “Fui trazido à consciência não só dos moribundos, mas também das pessoas que cuidavam deles [...]. Os laços que acontecem entre as duas partes estão entre os eventos humanos mais extraordinários que podem acontecer — algo profundamente pessoal que a maioria de nós não conhece bem”. E foi essa poderosa interação humana que levou Adams a compor O Enfermeiro de Guerra, baseado em trechos de um poema de Walt Whitman sobre sua experiência como enfermeiro durante a Guerra Civil.

O Enfermeiro de Guerra é a mais íntima, mais gráfica e mais profunda evocação do ato de cuidar de doentes e moribundos que já conheci”, explica Adams. “É também surpreendentemente isenta de qualquer tipo de hipérbole ou emoção amplificada, ainda que os detalhes imagéticos sejam de uma precisão que só poderia ser obtida por alguém que esteve lá.” E acrescenta: “O Enfermeiro de Guerra não é apenas sobre a Guerra Civil, nem somente sobre jovens morrendo (embora pontualmente seja sobre as duas coisas). Para mim, é uma afirmação da compaixão humana, da forma que ela se expressa no cotidiano, de maneira silenciosa e discreta, altruísta e infatigável.”

A composição orquestral de Adams reflete e amplia a poesia de Whitman. Os interlúdios instrumentais sinalizam as mudanças de estado de espírito em cada estrofe; Adams apresenta também instrumentos solo, em especial um violino etereamente alto e uma prolongada melodia no trompete. Durante essa elegia de 20 minutos, o acompanhamento tende à contenção, conferindo aos trechos mais gráficos de Whitman um impacto emocional maior do que conseguiria numa interpretação abertamente dramática.

Em 1940, o governo do Japão encomendou trabalhos de compositores de todo o mundo, inclusive de Benjamin Britten, então com 26 anos de idade, para comemorar o 2600° aniversário do Império Japonês. Britten era um pacifista ardoroso, e como o Japão era aliado da Alemanha, que estava em guerra com a Inglaterra, hesitou em aceitar o convite. Acabou aceitando, com a condição de não ser obrigado a compor o que chamou de “musical chauvinista”. Preferiu criar um trabalho que servia a um duplo propósito: expressar seu pesar pela morte de seus pais alguns anos antes e fazer uma veemente declaração de suas convicções antibelicistas. O resultado, Sinfonia de Réquiem, como o próprio título sugere, remete à missa católica dos mortos.

Os japoneses ficaram indignados por Britten ter composto um memorial aos próprios pais (uma música, ainda por cima, baseada abertamente na teologia cristã) para assinalar uma celebração nacional do Japão. Em sua rejeição ao trabalho, o príncipe Fuminar Konoyke, presidente do Comitê do 2600° aniversário, escreveu ao compositor: “Além de ser uma música puramente religiosa de natureza cristã, apresenta um tom de melancolia em seus padrões melódicos e rítmicos, tornando-a inapropriada para apresentação em uma ocasião como a nossa cerimônia nacional”.

A razão de Britten ter acreditado que os japoneses aprovariam seu trabalho final continua sendo um mistério, pois a obra claramente não é alegre nem comemorativa. Nem é provável que os japoneses concordassem em apresentar uma música com mensagem antibélica tão explícita, em vista da agressividade de suas atividades militares. Mas Britten não se desculpou. Em carta a um amigo, explicou: “Estou sendo o mais antibelicista possível. Não acredito que se possam expressar teorias sociais ou políticas na música, mas juntando frases musicais bem conhecidas a uma nova música, acho que é possível transmitir certas ideias”.

Em termos musicais, a Sinfonia de Réquiem remete a Mahler, especificamente nas mudanças de tonalidade. Em outro aceno a Mahler, Britten também justapõe um estilo de música de câmara, de composição para poucos e seletos instrumentos, com o poder e o ímpeto de uma orquestra.

Na abertura “Lacrymosa”, o tema angular e dissonante ouvido primeiro nos saxofones evolui para um angustiado choque de ré menor versus ré maior. No “Dies Irae” (Dia da Ira), sopros e metais geram tensão e frenesi. Aqui, Britten cria com eficácia um sentido de terror, que se resolve com a calma de Requiem aeternam (Eterno Descanso). O editor musical de Britten, Erwin Stein, define a delicada melodia de abertura das três flautas como uma “canção sonolenta”, uma delicada libélula que sugere a tranquilidade do eterno descanso. A “canção sonolenta” retorna brevemente no final, como uma conclusão abençoada.
Elizabeth Schwartz é pesquisadora e musicista. Esta nota de programa foi publicada por ocasião da apresentação dessas peças no Carnegie Hall, em Nova York, em maio de 2011. Tradução de Claudio Carina. (copyright 2012 Elizabeth Schwartz)

 

 




No final dos anos 1930, o patrulhamento ideológico na União Soviética acentuava-se, e os intelectuais a serviço do poder exigiam dos artistas uma arte sem contaminações “burguesas”. Arte popular versus arte das elites, como se diria hoje: Shostakovich fora severamente criticado por sua ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, recebendo sérios ataques do jornal Pravda. Assim, logo depois, em sua Sinfonia n°5, propôs-se corresponder àquilo que se pedia dele, declarando investir num esforço “em direção da inteligibilidade e da simplicidade”. Mas o compositor não cedeu à demagogia imediata. Antes, buscou encontrar saídas formais requintadas, que não ferissem os ditames ideológicos, mas que não comprometessem suas exigências musicais.

Depois dessa obra, Shostakovich anunciou um projeto grandiloquente: uma sinfonia com solistas e coros, em memória de Lenin, a partir de textos de Maiakovski e outros poetas. Promessa, de modo claro, provocada pelo clima de pressões no qual vivia, e que não seria cumprida. Ao contrário, sua Sinfonia n°6 foi configurada num formato conciso, puramente orquestral, e sem celebração ideológica alguma.

Apresentada em Leningrado, no mês de maio de 1941, por ocasião de um congresso que reunia compositores e críticos musicais de toda a União Soviética, provocou decepção e desencadeou um debate acalorado. Os ouvintes, que esperavam uma retórica heroica, não perceberam a grande originalidade musical da obra que lhes fora apresentada.

Como ela é vazada apenas em três partes, e começa diretamente com um “Largo” isto é, abandonando o costumeiro movimento inicial enérgico —, os críticos deram-lhe, ironicamente, o epíteto de “sinfonia sem cabeça”. Mas este “Largo” inicial impõe uma postura meditativa profunda que faz pensar em Mahler. Trata-se de uma introdução lenta, espraiando-se com extraordinárias qualidades melódicas.

Em seguida, o “Allegro”, fluido, muito vivo, contém impulsos violentos e cáusticos, que se revelam por meio das síncopes, das mudanças bruscas de ritmo, da secura dos timbres e das linhas melódicas.

Enfim, o “Presto” possui o caráter de um scherzo, onde o humor não apresenta mais agressividade alguma: ele já foi, várias vezes, comparado com o espírito jocoso de Rossini. Este “Presto” se conclui por uma espécie de bacanal, que parece desencadear forças instintivas elementares.

De proporções menores que a quinta e a sétima, mais eloquentes e monumentais, a Sinfonia n°6 de Shostakovich sempre permaneceu, entre as duas, menos evidente. Ela demonstra, porém, em cada passagem, o mais requintado percurso de qualidades intrinsecamente musicais.
Jorge Coli é professor na área de História da Arte e da cultura na Unicamp e autor de a Paixão Segundo a Ópera (Perspectiva, 2003).

 


PROGRAMA
Charles Ives [1874-1954]
The Unanswered Question (A Pergunta Não Respondida) [1906]
6 MIN

John ADAMS [1947]
The Wound-Dresser (O Enfermeiro de Guerra) [1988-89]
20 MIN

Benjamin BRITTEN [1913-76]
Sinfonia de Réquiem, Op.20 [1940]
- Lacrymosa Attacca
- Dies Irae Attacca
- Requiem Aeternam
22 MIN

Dmitri SHOSTAKOVICH [1906-75]
Sinfonia n°6 em Si Menor, Op.54 [1939]
- Largo
- Allegro
- Presto


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