Temporada Osesp: Langrée rege Schnittke, Haydn e Mozart
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
25 out 12 quinta-feira 21h00
Cedro
26 out 12 sexta-feira 21h00
Araucária
27 out 12 sábado 16h30
Mogno
QUINTA-FEIRA 25/OUT/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
SEXTA-FEIRA 26/OUT/2012 21h00
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
SÁBADO 27/OUT/2012 16h30
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Louis Langrée regente
Mari Eriksmoen soprano
Luisa Francesconi mezzo soprano
Colin Balzer tenor
Coro da Osesp
Programa
Alfred SCHNITTKE
Moz-Art à la Haydn
Joseph HAYDN
Sinfonia nº 44 em mi menor - Fúnebre
Wolfgang A. MOZART
Davidde Penitente, KV 469

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa

P
rimeira manifestação burguesa em arte, o Classicismo traz o conceito de sensibilidade em oposição à erudição técnica do barroco de Caldara e Fux (mortos em 1736 e 1741), agora restrita à música litúrgica. Vemos aqui que, se houvesse diferenciação entre erudito e popular, só poderia ser pensada em termos de austeridade religiosa e música profana. No interior da sociedade laica, a expressão dos sentimentos encontra na modulação harmônica seu principal veículo: mudar de tom é estabelecer contraste, e o contraste é o princípio do drama. Crescendos e diminuendos, solos e tuttis, exposição e desenvolvimento, tom principal e modulação, tema A e tema B, constituem a matéria-prima da forma-sonata. A introdução do Minueto na estrutura ternária dos movimentos rápido-lentorápido da sinfonia barroca é uma concessão à herança das suítes de danças e se estabelece como terceiro movimento, entre a fluência melódica do segundo (geralmente um Andante) e a alegria conclusiva do último. 
Não é o caso desta Sinfonia nº 44, de Haydn, em que o “Minueto” é o segundo movimento, como em suas sinfonias nº 32 e nº 37. A orquestra ganha em volume, com a adição de oboés, trompas, trompetes e tímpanos, vindos da ópera barroca. Os estudos do musicólogo H.C. Robbins Landon mostraram que as sinfonias de Haydn não estão catalogadas segundo a cronologia ou a evolução de seu estilo. O catálogo Hoboken baseia-se num projeto de Mandyczewsky, de 1907, para a edição completa das sinfonias, de acordo com o estágio de pesquisas da época. Fora o fato de atribuir-se a Haydn a vontade de que o “Adagio”, terceiro movimento da Sinfonia nº 44, fosse tocado em seu enterro, pouca coisa justifica seu apelido de “Fúnebre”. Suas construções racionais pouco ou nada têm a ver com luto, na tensão do “Allegro Com Brio” inicial e do “Finale: Presto”, e no lirismo derretido dos movimentos centrais. Composta em 1772, faz parte do período sob influência do movimento literário berlinense Sturm und Drang (tempestade e ímpeto).
Seu primeiro movimento baseia-se num motivo de quatro notas em uníssono, que aparece em diferentes tons e camuflagens. Sua técnica de composição baseada em motivos viria a influenciar Beethoven, seu futuro aluno. O segundo movimento, “Minueto”, em forma de cânone à oitava, vem dar equilíbrio entre o “Allegro Con Brio” e o “Adagio”, aquele que o compositor teria pedido que tocassem em seu funeral. Com sua bela melodia nas cordas com surdina, tratada em variações expressivas, o movimento foi escrito em Mi Maior, e, gracioso e gentil, talvez signifique uma visão serena da morte. O último movimento é, como o primeiro, escrito em forma-sonata, e termina em Mi Menor, diferentemente da maioria dos movimentos em Menor que sempre terminam em Maior. Todos os movimentos aqui estão em Mi (Maior ou Menor).

A noção de plágio está diretamente associada à ideia de direitos autorais, mas as coisas nem sempre foram assim. A própria noção de autoria foi sendo criada a partir do momento em que se viu possível fazer de uma composição musical uma mercadoria que pudesse ser vendida e produzisse lucro. Antes, os compositores, com suas diversificadas funções como mestres-decapela, tinham a incumbência de fornecer a música esperada por seus patrões, fossem eles a igreja, a aristocracia ou a burguesia, antes de se tornarem independentes, a partir de Beethoven.
A paródia era apenas mais uma ferramenta da criação. Retrabalhar o tema de um colega, basear uma missa num canto gregoriano ou num tema popular — à maneira dos arranjos tão comuns no repertório dos corais amadores de hoje — era uma forma de cumprir a encomenda, mas também de demonstrar habilidade ou prestar homenagem a uma obra admirada. A paródia é próxima do arranjo, da adaptação ou da orquestração, e está presente no trabalho dos músicos de todas as épocas.
Sabemos que Mozart participava dos concertos de domingo à tarde na casa do barão Von Swieten, onde os participantes cantavam a música coral de Bach, acompanhados por Mozart ao piano. Sabemos também que ele orquestrou quatro oratórios de Händel, sob as instruções de van Swieten, para “de um lado agradar ao modismo e de outro mostrar sua sublimidade”. No catálogo mozartiano do musicólogo Alfred Einstein, constam Acis und Galathea (K. 566); Messiah (K. 572); Alexander’s Feast (K. 591) e Ode to Saint Caecilia (K. 592).
Além desses trabalhos sobre os oratórios de Händel, Mozart também retrabalhou o Kyrie e o Glória de sua Missa em Dó Menor KV 427 para atender à encomenda de uma sociedade de viúvas e órfãos de músicos, a Tonkünstler-Societät (fundada em 1771). Naquele momento, estava atolado de encomendas e concertos, mas aceitou mais essa para não prejudicar suas boas relações com a associação, num programa que incluía também uma sinfonia inédita de Haydn.
O resultado é o oratório Davidde Penitente, com texto em italiano inspirado nos salmos de Davi, cuja autoria é atribuída ao célebre libretista Lorenzo da Ponte e, numa comparação minuciosa, não corresponde literalmente ao texto bíblico. Mozart escreveu duas árias para completar o oratório: A te, fra tanti affanni (“Entre tantas aflições busquei piedade em ti”), para tenor, com uma introdução de clarinete, oboé, flauta e fagote; e Tra l’oscure ombre funeste (“Entre escuras sombras funestas”), para soprano. Escreveu ainda passagens orquestrais que servem de transições entre as árias e os coros (notase no coro Cantiam le Glore certas marcações rítmicas presentes no famoso Aleluia, de Händel).
Como diz o historiador da música Stanley Sadie, nenhuma outra obra importante de Mozart foi tão negligenciada como esta. Certamente a partitura jamais foi escrita pelo compositor, tendo ele apenas fornecido as partes da Missa em Dó, com as anotações para a adaptação, bem à maneira dos lead sheets atuais.
Marcos Câmara de Castro é professor do Departamento de Música da USP/Ribeirão Preto, e do programa de pós- -graduação da Escola de Comunicação e Artes da USP.




JOSEPH HAYDN [1732-1809]
Sinfonia nº 44 em Mi Menor - Fúnebre [1771]
- Allegro Con Brio
- Minueto: Allegretto
- Adagio
- Finale: Presto
22 MIN

WOLFGANG A. MOZART [1756-91]
Davidde Penitente, KV 469 [1785]
- Coro: Alzai le Flebili Voci al Signor (Alcei Minha Débil Voz Ao Senhor)
- Coro: Cantiam le Glorie (Cantemos as Glórias)
- Ária: Lungi le Core Ingrate (Afastai os Ingratos Pesares)
- Coro: Sii Pur Sempre Benigno, oh Dio (Sê Benigno Sempre, oh Deus)
- Dueto: Sorgi, o Signore, e Spargi i Tuoi Nemici (Eleva-te, Senhor, e Dispersa Teus Inimigos)
- Ária: A te, Fra Tanti Affanni (Entre Tantas Aflições Busquei Piedade em ti)
- Coro: Se Vuoi, Puniscimi (Se Quiseres, Pune-me)
- Ária: Tra l'Oscure Ombre Funeste (Entre Escuras Sombras Funestas)
- Trio: Tutte le Mie Speranze ho Risposte in te (Todas as Minhas Esperanças Depositei em ti)
- Coro: Chi in Dio Sol Spera (Quem só em Deus Espera)
40 MIN

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