Temporada Osesp: Recital André Mehmari
foto de Dani Gurgel
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
30 mar 13 sábado 21h00
Recitais Osesp
SÁBADO 30/MAR/2013 21h00
Entre R$ 58,00 e R$ 67,00
André Mehmari piano
Programa
William BYRD
Pavan: The Earle of Salisbury
Diversos
Peças Clássicas e Canções Brasileiras em Arranjos Originais
Caetano VELOSO
Alegria, Alegria
Luíz GONZAGA / Humberto TEIXEIRA
Assum Preto
Robert SCHUMANN
Álbum Para a Juventude, Op.68: Excerto
Nelson CAVAQUINHO / Guilherme BRITO
Folhas Secas
E Outras Peças


Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa

O pianista e historiador da música Charles Rosen (1927-2012), referindo-se à relevância da linha contrapontística em relação à harmonia na arte de Chopin, enxergou um paradoxo revelador sobre a obra do compositor polonês: ele consegue ser o mais original na utilização de uma técnica tradicional e fundamental. O senso linear de Chopin é organizador, entre outros aspectos, de suas mudanças rítmicas, do seu fraseado flexível e de seu cromatismo radicalmente criativo. A força poética de suas peças depende, portanto, do controle sobre todas as linhas de uma polifonia complexa. Isto o torna, para Rosen, ao mesmo tempo o compositor mais conservador e mais radical da sua geração.
Sempre que ouço André Mehmari tocando piano, essas ideias ecoam em minha cabeça. O contraponto parece ser central e organizador do seu discurso: linhas melódicas interrompidas, estendidas, comprimidas, refletidas, refratadas, enfim, caminhos e descaminhos que formam texturas variadas e ganham elasticidades temporais originais, muitas vezes, aliás, chegando ao limite da explosão do compasso. Esses procedimentos musicais parecem formar, em Mehmari, um pensamento também polifônico, que se expressa sob uma verdadeira poética de apropriações: o clássico e o popular, o gênero e a forma, a composição, a citação e a interpretação se confundem e se recriam no gesto singular do artista.

Neste programa, o eixo é a canção. Não qualquer canção, mas a canção brasileira. Um universo riquíssimo que acumulou, ao longo de mais de um século, características únicas, justamente por transitar livremente entre formas ora mais clássicas ora mais populares. Mais do que isso, ao longo do século XX, a canção brasileira criou uma prática autorreferencial e de diálogo interno e externo com o cotidiano que acabou estabelecendo em nossa memória afetiva e coletiva alguns topoi reconhecíveis: o samba entre a malandragem e a melancolia (Noel Rosa e Nelson Cavaquinho), a ideia de uma “promessa de felicidade” em torno da Bossa Nova (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) ou a distopia e o objeto não identificado da própria canção dentro da canção (Chico Buarque e Caetano Veloso), sem se estender demais, porque poderíamos neste exercício chegar até ao rap de Mano Brown, no limite de uma canção contemporânea.
O pensamento polifônico de André Mehmari é sensível a esses lugares da canção e da memória. E se utiliza de suas relações formais (melódicas, rítmicas e harmônicas) para a construção de pequenas suítes. Aqui, o rigor da tradição clássica está presente no domínio daquela técnica mais tradicional e fundamental de que falamos: o contraponto. Sob esse aspecto, as linhas reorganizam os fragmentos temáticos e apontam para a construção de narrativas sempre originais.

Somente a liberdade do pensamento polifônico do músico permite achar relações entre, por exemplo, a melancolia de Robert Schumman e Nelson Cavaquinho (Suíte 6) ou a assimetria ritmo-melódica de Thelonious Monk e Adoniran Barbosa (Suíte 7). Os motivos curtos e recortados de “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, e “Lôro”, de Egberto Gismonti (Suíte 5), ganham um sentido de desenvolvimento “natural” e necessário nesse contexto de apropriações criado por Mehmari, a despeito das diferenças entre os compositores e suas obras. Mas talvez seja na Suíte 8 que se concentre o maior jogo de contrapontos entre símbolos da nossa canção: duas canções-manifesto gestadas no centro da cultura musical brasileira, a bossanovista “Chega de Saudade” (1958), de Tom e Vinicius, e a tropicalista “Alegria, Alegria” (1967), de Caetano Veloso (em arranjos originalmente criados para o cd que acompanha o livro O Brasil Não Existe! [2010]); e duas canções emblemáticas construídas sob o olhar lírico da periferia: o morro de Cartola em “As Rosas Não Falam” (1976) e o sertão de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em “Assum Preto” (1950).
Não há como se livrar do lugar que a memória ocupa quando ouvimos essas canções. E é justamente aí que se cria mais uma linha no emaranhado de linhas que o músico provoca com o seu gesto de criador. Do mesmo modo que a altura de uma nota melódica é formada por diferentes linhas de frequências (harmônicos), a memória também se constrói pela sobreposição de linhas de lembranças em constante reverberação. Novamente, vêm à cabeça as palavras de Rosen sobre Chopin, agora aplicadas a André Mehmari: a força poética de suas peças depende, portanto, do controle sobre todas as linhas de uma polifonia complexa.
Cacá Machado é compositor e historiador. Pós-doutor pela USP, onde leciona como professor convidado. Autor dos livros O Enigma do Homem Célebre: Ambição e Vocação de Ernesto Nazareth (IMS, 2007) e Tom Jobim (Série "Folha Explica", Publifolha, 2008) e do CD eslavosamba (YB/Circus, 2013).




William Byrd
Pavan: The Earle of Salisbury
Suíte 1

MILTON NASCIMENTO
Morro Velho

MILTON NASCIMENTO / FERNANDO BRANT
Ponta de Areia
Suíte 2


CHICO BUARQUE
Basta um Dia
Morro Dois Irmãos
Construção

MILTON NASCIMENTO / RONALDO BASTOS
Cais

ERNESTO NAZARETH
Três Tangos Brasileiros
- Famoso
- Reboliço
- Escovado
Suíte 3

ANDRÉ MEHMARI
Um Anjo Nasce

EDU LOBO / CHICO BUARQUE
Beatriz
Suíte 4

CLAUDIO MONTEVERDI
Lamento da Ninfa

GUILHERME DE BRITO / NELSON CAVAQUINHO
Mulher Sem Alma

PIXINGUINHA (Inéditas e Redescobertas - Instituto Moreira Salles, 2012)
- One Step (Foxtrote)
- Ignez (Valsa)
Suíte 5

EDU LOBO / CAPINAM
Ponteio

EGBERTO GISMONTI
Lôro
Suíte 6

ROBERT SCHUMANN
Sehrlangsam, do Álbum Para a Juventude

NELSON CAVAQUINHO / ARY MONTEIRO
Duas Horas da Manhã
Suíte 7

ADONIRAN BARBOSA / OSVALDO MOLES
Tiro ao Álvaro

ANDRÉ MEHMARI
Choro da Contínua Amizade

THELONIOUS MONK
‘Round Midnight
Suíte 8

CAETANO VELOSO
Alegria, Alegria

LUIZ GONZAGA / HUMBERTO TEIXEIRA

Assum Preto

CARTOLA
As Rosas Não Falam

TOM JOBIM / VINICIUS DE MORAES
Chega de Saudade
Suíte 9

NOEL ROSA / VADICO
Feitio de Oração
Feitiço da Vila
Conversa de Botequim

HERMETO PASCOAL
O Farol Que Nos Guia
Suíte 10

ANDRÉ MEHMARI
Lachrimae

DORIVAL CAYMMI / JORGE AMADO
É Doce Morrer no Mar

ANDRÉ MEHMARI
Fantasia Sobre o Hino Nacional Brasileiro
Suíte 11

ANDRÉ MEHMARI
Rondoletto Per i Bambini

EGBERTO GISMONTI
Baião Malandro

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