Temporada Osesp: Thomas Blunt rege Rossini
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
24 out 13 quinta-feira 21h00
Carnaúba
25 out 13 sexta-feira 21h00
Paineira
26 out 13 sábado 16h30
Imbuia
QUINTA-FEIRA 24/OUT/2013 21h00
Entre R$ 28,00 e R$ 67,00
SEXTA-FEIRA 25/OUT/2013 21h00
Entre R$ 28,00 e R$ 67,00
SÁBADO 26/OUT/2013 16h30
Entre R$ 28,00 e R$ 67,00


No dia 25 de outubro, às 20h00, os alunos da Academia de Música da Osesp fazem uma apresentação com repertório surpresa na Sala Carlos Gomes, minutos antes da aula Falando de Música. Chegue um pouco mais cedo e aproveite!

Thomas Blunt regente
Roxana Kostka soprano
Silvia Tessuto contralto
Miguel Geraldi tenor
Francisco Meira baixo-barítono
Dana Radu piano
Fernando Tomimura piano
Samuel Kerr harmônio
Coro da Osesp
Naomi Munakata regente
Programa
Gioacchino ROSSINI
Petite Messe solennelle

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa
Gioacchino Rossini Em 1865, foto de Étienne Cariat
Escrita em 1863, quando Rossini já tinha se retirado havia mais de 30 anos do grand monde feérico das óperas, a Petite Messe Solennelle se insere no conjunto de suas obras como um testamento musical. Talvez tenha sido seu último lance de ironia, que somente um gênio poderia se dar a liberdade de imaginar: “O último pecado mortal de minha velhice”, conforme suas palavras, uma referência à coletânea de mais de 150 pequenas peças denominadas Pecados de Velhice.
O título já se coloca como um enigma: esta Petite Messe tem quase uma hora e meia de duração. Por seu caráter modesto e por sua reduzida instrumentação (originalmente, dois pianos e um harmonium) e efetivo vocal (12 vozes, incluídos os quatro solistas), a “solenidade” também não seria um de seus atributos mais evidentes. No prefácio do manuscrito, encontramos a recomendação de que “12 cantores de três sexos — homens, mulheres e castrados — seriam suficientes para sua execução, sendo oito para o coro, quatro para os solos, em um total de 12 querubins”. A menção aos cantores castrati e aos querubins aponta, em uma inteligente provocação, para a interdição que a Igreja Católica impunha às mulheres: as partes de contralto e soprano deveriam ser executadas por meninos. Amplificando essa situação para outras interpretações críticas contemporâneas, Almodóvar, em seu filme Má Educação (2004), toma o Kyrie como base para um arranjo da trilha sonora e o põe nas vozes angelicais dos Petits Cantors de Catalunya.
Pressuposta a sutileza da ironia como uma das chaves de escuta desta Missa, a solenidade talvez possa ser encontrada em seu caráter amável e familiar, que revela um tipo de espiritualidade tipicamente romântica, em que as vivências religiosas e profanas se alternam e cuja expressão é contrária à grandiloquência retórica dos palcos sinfônicos ou dos grandes altares. Mesmo que tenha sido escrita para a consagração de um pequeno recinto — a capela privada do Conde Pillet-Will, que encomendou a obra a Rossini —, para essa ocasião a bizarra instrumentação original suscita uma interrogação: misturar os timbres do harmonium e do piano remeteria o ouvinte a qual ambiente, sacro ou profano?
A qualidade de “pequena missa”, por seu lado, diria respeito a uma fruição a ser experimentada na intimidade (um petit comité). Estaríamos diante de uma “pequena” missa de grande intensidade emocional, solene e respeitosamente dirigida à privacidade dos ouvintes?

Rossini não se dedicou profusamente à música religiosa. Seu catálogo tem apenas três peças sacras importantes (Messa di Gloria e Stabat Mater [interpretada pela Osesp no mês passado], além desta Petite Messe Solennelle), mas ele conhecia muito bem a tradição das grandes missas. A limpidez do contraponto a cappella de Palestrina pode ser ouvida na parte central do Kyrie. Fugatos duplos à maneira barroca apresentam temas contrastantes que opõem ideias silábicas a melismáticas, no Cum Sancto Spiritu (que fecha com energia o Gloria) e no “Et Vitam Venturi” (que finaliza assertivamente o Credo). Procedimentos descritivistas da tradição dos madrigais renascentistas são encontrados no Credo, na frase descendente “passus et sepultus est” e nas vigorosas escalas ascendentes que apresentam visualmente a ideia da ascensão ao céu no “Et Resurrexit”.
O compositor acrescentou duas partes ao Ordinário da Missa: um “Prelúdio Religioso” destinado ao momento do Ofertório e “O Salutaris Hostia”, solo de soprano que recupera um hino eucarístico escrito por São Tomás de Aquino e que antecede o “Agnus Dei”. Rossini homenageia a maior autoridade em música religiosa nesta tradição: após acordes cerrados do Prelúdio, a Fuga traz como tema as notas dó #/ré - fá#/mi#, uma variação do motivo BACH — no original, si b (B), lá (A), dó (C) e si (H).
Para as vozes, Rossini construiu uma estrutura sucinta e focalizada. Reservou o “Gloria” para a exposição da beleza dos timbres solistas: contralto, tenor e baixo tecem imitações no único trio da Missa (“Gratias Agimus Tibi”), precedendo o solo de tenor no “Domine Deus”. Em seguida, ouvimos o também único dueto de contralto e soprano (“Qui Tollis”) e, por fim, o solo de baixo, no “Cum Sancto Spiritu”. No “Credo”, ouve-se o primeiro solo de soprano, no trecho talvez mais famoso da obra, o “Crucifixus”. Após o denso final do “Credo”, o compositor nos surpreende com um “Sanctus” a cappella muito suave e delicado. Em “O Salutaris Hostia”, novo solo de soprano e, para finalizar, o contralto — a voz preferida de Rossini — clama ao Cordeiro de Deus para que tenha piedade de nós, ao que se segue a resposta do coro: “Dai-nos a paz” (dona nobis pacem).
Rossini fez desta Missa uma obra única e especialmente bela, que deixa pairar, ainda, uma última possível interrogação: será esta uma missa-paródia, no sentido moderno do termo, aplicado não ao texto, como de hábito, mas ao conteúdo musical?
Yara Caznok é professora de Harmonia no Instituto de Artes da Unesp e autora de Música: Entre o Audível e ‘o Visível (Editora da Unesp, 2008).




GIOACCHINO ROSSINI [1792-1868]
Petite Messe Solennelle [1863]
- Kyrie
- Gloria
Gloria in Excelsis Deo
Et in Terra
Gratias Agimus Tibi
Domine Deus
Qui Tollis
Quoniam
Cum Sancto Spiritu
- Credo
Credo in Unum Deum
Crucifixus
Et Resurrexit
Et Vitam Venturi
- Prelúdio Religioso
- Sanctus
- O Salutaris Hostia
- Agnus Dei
85 MIN

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