Temporada Osesp: Quarteto Osesp
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
08 set 13 domingo 17h00
Quarteto Osesp
DOMINGO 08/SET/2013 17h00
Entre R$ 58,00 e R$ 67,00
Quarteto Osesp
Programa
Franz SCHUBERT
Quartettsatz em Dó Menor
Witold LUTOSLAWSKI
Quarteto
Heitor VILLA-LOBOS
Quarteto de Cordas nº 9
Witold Lutoslawski é o Compositor Transversal da Temporada Osesp 2013.
Leia o ensaio Sinceridade Máxima da Expressão: A Música de Witold Lutoslawski, de Henryk Siewierski [UnB].

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa

Composto em 1945, o Quarteto de Cordas nº 9 de Villa-Lobos é uma obra áspera, dissonante, quase expressionista. Pode-se dizer que é uma de suas criações mais elaboradas do ponto de vista formal e harmônico. Os temas angulosos, o cromatismo e a construção a partir de pequenas células sugerem uma aproximação com os quartetos de Béla Bartók ou mesmo com a Suíte Lírica, de Alban Berg. Essa sonoridade também está presente em outras obras villa-lobianas do mesmo período, como o Trio Para Cordas (1945), o Quarteto de Cordas nº 10, o Duo Para Violino e Viola (1946) ou o terceiro movimento do Concerto Para Piano nº 1 (1945).
O que teria sugerido tal música a Villa-Lobos? Talvez o convívio com Serge Koussevitzky, amigo de Bartók e regente titular da Sinfônica de Boston, que o brasileiro regeu nos Estados Unidos entre 1944 e 1945. Várias obras sinfônicas de Villa-Lobos foram apresentadas pela orquestra nesse período, como os Choros nos 8, 9 e 12, as Bachianas Brasileiras nº 7 e Rudepoema.
Voltemos ao Quarteto nº 9. O primeiro movimento, um allegro com estrutura formal de sonata, traz um grupo de temas em torno de um insistente motivo de três notas que é trabalhado em vários registros por todos os instrumentos. Uma breve ponte, conduzida pelo primeiro violino sobre acordes de notas longas, leva ao segundo grupo de temas, marcado pela entrada ritmada das notas Sol-Lá na região grave (motivo que será explorado no quarto movimento), enquanto o primeiro violino sustenta um longo Fá Sustenido. Após uma breve lembrança do motivo inicial, vem um tema marcante e de caráter popular, tocado em terças, por viola e violoncelo.
A dualidade entre o tema “moderno” de três notas e o tema “popular” é uma estratégia para definir e balancear esse movimento de sonata sem o recurso da tonalidade tradicional. Apesar disso, pode-se até mesmo reconhecer a influência de Haydn, que Villa-Lobos dizia existir em seus quartetos, tanto na forma quanto no tratamento motívico.
O segundo movimento é o mais longo entre todos os 17 quartetos de cordas de Villa-Lobos. É, também, um dos momentos de maior densidade em sua obra. A melodia principal, lírica à maneira de Berg, é apresentada pelo segundo violino, sendo paulatinamente expandida, passando por viola e violoncelo, até chegar ao primeiro violino no agudo (dobrado pela viola à oitava abaixo). Segue-se um novo tema (B) “sussurrado” pelo segundo violino e viola. Essa ideia se desdobra e leva a uma seção central vigorosa (C), porém breve; o tema “sussurrante” (B) reaparece, conduzindo à reapresentação daquela primeira melodia à la Berg (A), transposta uma quinta acima e tocada pelo violoncelo. A forma resultante, ABCBA, um palíndromo, é uma das favoritas de Bartók.
No terceiro movimento, em forma sonata como o primeiro, a energia do início da peça retorna. O motivo inicial é derivado da célula de três notas do allegro; os gestos amplos predominam. Depois de várias elaborações, o primeiro tema chega a um acorde de quatro sons que demarca a transição para o segundo tema, cuja alternância de saltos dissonantes e apojaturas ascendentes e descendentes assume um caráter quase sarcástico. A chegada a um acorde simétrico de cinco sons demarca o início do Desenvolvimento, elaborado polifonicamente. A Recapitulação é uma transposição, uma quarta acima, da Exposição, estratégia também adotada no primeiro movimento.
O movimento final começa tranquilo. Os instrumentos, bem espaçados entre si, tocam com suavidade uma elaboração de um tema já ouvido no primeiro movimento, empregando somente as notas da escala de Dó, mas sem hierarquia tonal. Então, o violoncelo ataca em cordas duplas, determinando a atmosfera mais fogosa que predomina na peça. Na verdade, trata-se da intensificação do mesmo gesto calmo que abriu o movimento, tocado com mais força e rapidez. Essa simples ideia inicial se desdobra em um poderoso ostinato, que sofre intervenções melódicas da viola e do violoncelo, em diálogo, passando então ao primeiro violino no registro agudo. Na seção B, surge uma nova ideia com figuração de acompanhamento, sugerindo uma espécie estranha de “samba” polirrítmico. Com efeito, a isso se segue um movimento ascendente semelhante ao que Villa-Lobos empregou em Momoprecoce e Carnaval Das Crianças Brasileiras, obras fortemente associadas ao carnaval carioca.
Após esse breve interlúdio, o ostinato inicial é retomado com pequenas alterações, e as tercinas do violino da seção C fazem lembrar a célula de três notas do primeiro movimento. Violoncelo e viola se integram em outro ostinato, que leva a uma cadenza do primeiro violino, seguida de uma breve frase cromática da viola como transição para a reapresentação da figura inicial desse movimento. Então, a peça retoma sua energia até uma decisiva coda, concluindo em oitavas abertas em Lá, um dos finais característicos do compositor, quase uma assinatura musical. A forma resultante sugere um rondó clássico: ABACA.
Sem dúvida, o Quarteto de Cordas nº 9 dá relevo ao lado mais cerebral do compositor, muitas vezes considerado (injustamente) como apenas um fértil melodista. Podemos apreciar suas soluções próprias para as questões harmônicas e formais, que tornam híbrida uma forma “pura” como a sonata, justamente em seu meio mais sofisticado: o quarteto de cordas. É música vigorosa, envolvida pelas sonoridades e pelos ritmos marcantes com que Villa-Lobos afirmava sua escuta muito pessoal das músicas que o afetaram em suas andanças pelo Brasil e pelo mundo.
Paulo de Tarso Salles é compositor, professor de harmonia, contraponto e análise musical no Departamento de Música da USP e autor dos livros Aberturas e Impasses: A Música no Pós-modernismo (Editora Unesp, 2005) e Villa-Lobos: Processos Composicionais (Editora da Unicamp, 2009).




FRANZ SCHUBERT [1797-1828]
Quartettsatz - Quarteto em Dó Menor [1820]
- Allegro Molto
9 MIN

WITOLD LUTOSLAWSKI [1913-94]
Quarteto [1964]
- Movimento Introdutório
- Movimento Principal
26 MIN

HEITOR VILLA-LOBOS [1887-1959]
Quarteto de Cordas nº 9 [1945]
- Allegro
- Andantino Vagaroso
- Allegro Poco Moderato - Con Bravura
- Molto Allegro
23 MIN

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