O folclore germânico é cheio de personagens ardilosos, um pouco à maneira do pícaro da radição ibérica ou do malandro brasileiro. Em 1915, Olavo Bilac traduziu o livro Max und Moritz (1865), de Wilhelm Busch, que narra as travessuras de dois meninos, rebatizados no Brasil como Juca e Chico. Eles aprontam o tempo todo: colocam pólvora no cachimbo do sacristão, depositam besouros na cama do tio, roubam doces do padeiro. Ao final, recebem um castigo na medida da crueldade que impuseram aos outros.
Em 1894, Richard Strauss baseou-se em outro desses trapaceiros adoráveis para escrever seu poema sinfônico Till Eulenspiegels lustige Streiche [As Alegres Travessuras de Till Eulenspiegel]. As lendas sobre Till remontam ao folclore medieval, e as primeiras edições populares datam do início do século XVI. Till cavalga pelo mercado, flerta com garotas, discute com filisteus e, como no caso de Juca e Chico, acaba se dando mal.
Em seu poema sinfônico, Strauss utiliza a forma de um rondó. Após a breve introdução de cordas e madeiras, o tema de Till é apresentado pela trompa: uma melodia brincalhona cujo desenho rítmico emula a declamação do nome do protagonista. Para narrar suas travessuras, Strauss explora toda a paleta de cores da escrita orquestral, brincando com diversos estilos. O tema principal retorna várias vezes, entremeando as estrofes como um refrão — ora lento, ora agitado, ora leve, ora pesado.
Um crescendo leva ao clímax da peça, com uma passagem frenética nos metais e percussão. Um rufo de caixa anuncia um desfecho trágico para o protagonista. Acordes sombrios nos metais são entremeados com frases brincalhonas no clarinete, evocando o tema de Till. A música vai se esvaindo lentamente, como se ouvíssemos seus últimos suspiros.
Mas, se na lenda medieval o personagem acabava enforcado, Strauss prefere sugerir que o espírito travesso de Till não pode ser destruído. Ouve-se mais uma vez a doce introdução de cordas e madeiras e o tema principal volta, dessa vez também nas cordas e madeiras e bastante melancólico, interrompido por uma surpreendente frase final.
Ricardo teperman é doutorando no departamento de Antropologia Social da Usp e editor-assistente da Revista Osesp.
“Ele é o relojoeiro suíço da orquestração.” Foi o que disse de Ravel — não sem uma ponta de ironia — o russo Igor Stravinsky. A frase aponta para as qualidades de Ravel enquanto orquestrador: precisão, meticulosidade, perfeição. Dono de mestria incomparável, de raríssimo senso de cor instrumental, ele foi responsável por algumas das mais cintilantes obras orquestrais escritas na França durante a primeira metade do século XX.
Entre 1929 e 1931, Ravel compôs simultaneamente os dois concertos que destinou ao piano: o Concerto em Ré Maior, apenas para a mão esquerda e dedicado a Paul Wittgenstein, que perdera a mão direita na Primeira Guerra Mundial, e o belíssimo Concerto em Sol Maior. Parte dessa experiência foi evocada pelo artista a um jornalista do Daily Telegraph, em seu estilo entre lacônico e bem-humorado: “O Concerto em Sol Maior, do qual eu pretendia ser o solista, é um concerto no mais exato sentido da palavra, escrito no espírito dos de Mozart e Saint-Saëns. Penso, com efeito, que a música de um concerto pode ser alegre e brilhante, e que não é necessário que ela pretenda a profundidade ou que vise a efeitos dramáticos. Diz-se de certos grandes músicos clássicos que seus concertos são concebidos não ‘para’ o piano, mas ‘contra’ ele.”
O Concerto Para Piano em Sol Maior tem uma escrita leve e brilhante, com efeitos sonoros peculiares, por vezes irreverentes. Não foi à toa que o autor, de início, pensou chamá-lo de divertissement. O primeiro movimento é iniciado por um golpe de chicote, que abre espaço para uma desabrida aventura na qual o piano e os sopros ora dialogam, ora altercam. O uso simultâneo de duas tonalidades (bitonalidade) acentua o aspecto agressivo desse andamento, no qual uma frase lenta e langorosa faz lembrar a arte musical americana da época, o jazz.
O enredante movimento lento, uma valsa em Mi Maior, contém uma das mais vaporosas inspirações melódicas do autor, que com ela faz uma tripla homenagem a Bach, a Mozart e a Chopin. Mostrada primeiramente pelo piano desacompanhado da orquestra, essa melodia depois ganha a companhia dos sopros, que entram em tonalidade aparentemente errada, dando uma saborosa pitada ácida e bitonal a essa paisagem que, de início, prometia ser mais bem comportada.
O clima do rápido e acrobático movimento final é cintilante e desopilante. Três temas principais irrigam sua trama. Os instrumentos da orquestra, principalmente o fagote, fazem tudo para acompanhar o solista em sua corrida aparentemente destrambelhada. Se fosse possível etiquetar esse Concerto, poder-se-ia elegê-lo como sendo a mais perfeita obra-prima pertencente à estética art-déco, se ela por acaso existisse em música.
[2007]
J. Jota de Moraes (1943-2012), autor de Música na Modernidade (Brasiliense, 1983).
RICHARD STRAUSS [1864-1949]
Till Eulenspiegels lustige Streiche, Op.28 [1894-5]
15 MIN
MAURICE RAVEL [1875-1937]
Concerto Para Piano em Sol Maior [1929-31]
- Allegramente
- Adagio Assai
- Presto
23 MIN
GUILLAUME CONNESSON [1970]
O Iluminado - Concerto Para Piano [2009]
9 MIN