Temporada Osesp: Vänskä rege Mozart e Janácek
foto de Greg Helgeson
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
14 mar 13 quinta-feira 21h00
Jacarandá
15 mar 13 sexta-feira 21h00
Pequiá
16 mar 13 sábado 16h30
Ipê
QUINTA-FEIRA 14/MAR/2013 21h00
Entre R$ 28,00 e R$ 160,00
SEXTA-FEIRA 15/MAR/2013 21h00
Entre R$ 28,00 e R$ 160,00
SÁBADO 16/MAR/2013 16h30
Entre R$ 28,00 e R$ 160,00
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Osmo Vänskä regente
Lucie Silkenová soprano
Barbora Polaskova mezzo soprano
Josef Zednik tenor
Jozef Benci baixo
Coro Acadêmico
Coro da Osesp
Programa
Wolfgang A. MOZART
Sinfonia nº 39 em Mi Bemol Maior, KV 543
Leos JANÁCEK
Missa Glagolítica

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa

 

Enquanto Brahms escreveu quatro sinfonias, Beethoven, nove e Mahler, dez, chegar ao respeitável número de 41 sinfonias já seria em si um feito digno de admiração. Mas Mozart fez mais: sua obra sinfônica cristaliza um gênero e atinge um nível de refinamento que apontaria o caminho para os compositores que o sucederam. Se existe um traço que caracteriza as sinfonias mozartianas, este é a paradoxal combinação de rigor formal com a liberdade de expressão emotiva que se tornaria o ideal dos compositores românticos.
Numa obra tão consistente e impactante, é difícil apontar favoritas. Mas as três últimas sinfonias, nos 39, 40 e 41, compostas em rápida sucessão em um único verão e consideradas o ápice da forma sinfônica no período clássico, são as mais singulares e eloquentes da obra do compositor vienense.
Dessas, a de nº 39, KV 543, é executada raramente, talvez por ser a menos “romântica” das três; ou por sua tonalidade, Mi Bemol Maior, mais opaca do que a das outras duas; ou por impor um desafio considerável para instrumentos modernos; ou ainda devido ao caráter sombrio e majestoso, mas curiosamente permeado por um senso de humor que frequentemente passa despercebido, como na notável manipulação de temas triviais.
Uma das poucas peças orquestrais de Mozart que não exibe oboés em sua instrumentação, ela abre com uma fanfarra de metais, em ritmo pontuado e nobre que evoca o Barroco francês, seguida por um allegro em forma-sonata, enganadoramente simples, e um andante que contrasta material temático tranquilo, nas seções principais, e agitado, nas seções de transição. O menuetto, baseado em uma melodia de Ländler com delicioso solo de clarineta (uma novidade, então!), é despreocupado, rústico e quase inconsequente, o que nos deixa particularmente vulneráveis para o vigor de um finale monotemático, extremamente dramático, moldado por escalas que sobem e descem freneticamente.
Laura Tausz Rónai é flautista, professora na UniRio e autora de Em Busca de um Mundo Perdido — Métodos Flauta do Barroco ao Século XX (Topbooks, 2008).






O tempo que engendra as circunstâncias musicais, históricas, políticas, linguísticas e religiosas da Missa Glagolítica, do compositor tcheco Leos Janácek, é de escala milenar, literalmente. O fio da meada começa no Império Bizantino do século IX, quando um novo alfabeto é criado para propagar a Bíblia no Leste Europeu, e vai até o início do século XX, em 1918, quando os países eslavos são declarados independentes do Império Austro-Húngaro.
A missa propriamente foi composta nos modernos 1926-7, mas sem vanguardismos formais, embora heterodoxa no trato do tema sacro. Triunfalista, vigorosa, exuberante — em que preponderam as fanfarras de metais, as tonalidades livres e luminosas, os tempos festivos e percussivos, o arrebatado solo do órgão —, é em tudo o oposto do solene, do reverencial, do contemplativo. A dimensão ontológica, metafísica do ser, tal como proposta pelas religiões e pelas artes delas decorrentes, com seus signos e gestos iconográficos precisos (o mistério, o êxtase místico, o silêncio, a graça), aqui dá lugar à apoteose da vida e ao júbilo terreno.
Apesar da formação agostiniana e um histórico clerical de menino corista, Janácek, aos 72 anos, idade que atravessava ao compor a obra, se proclamava abertamente agnóstico (uns dizem ateu) e particularmente contrário aos aspectos sacrificiais contidos no ritual cristão do martírio e da transubstanciação. Ao compor esta obra sem fins litúrgicos, inserida na grande tradição romântica da missa de concerto, Janácek abdica do dogma religioso para consagrar a intensidade emotiva. O que não impede que o Ordinário da Missa seja musicado com obsequiosa obediência ao rito eclesiástico — mas ao estilo secular do drama operístico.

Seus oito movimentos reproduzem a estrutura da cerimônia eucarística em cinco seções cantadas: o Kyrie, o Gloria, o Credo, o Sanctus (com o Benedictus ao centro) e o Agnus Dei. Contrariando o mandamento romano, porém, o texto é pronunciado não em latim, mas num vernáculo arcaico e protoeslavo do século V ou VI, recorrentemente chamado de eslavônico da Velha Igreja, que alguns dizem ser simplesmente búlgaro antigo. Por certo, era idioma sem designação ou forma escrita até o século IX, quando foi formalizado e transcrito em caracteres assemelhados aos do grego e do hebraico, num alfabeto inaugural que é então denominado glagolítico (por etimologia: “símbolos que falam”), do qual derivaria o alfabeto cirílico.
Tamanha proeza linguística teve seu codificador na figura do filósofo grego Cirilo (mais tarde santificado), um habitante da capital bizantina do Império Romano, Constantinopla, convocado pelo principado da Morávia à primeira tradução eslava das Escrituras — isso a uma época (em 862) em que a tradição cristã reconhecia como línguas eclesiásticas apenas o latim, o grego e o hebraico. A revolução lítero-religiosa empreendida por ele e pelo irmão Metódio é de tal magnitude que, antes de 868, o glagolítico era prontamente admitido como quarta língua litúrgica da Igreja. Sua adoção na missa cantada tcheca, porém, só seria autorizada por édito papal mais de mil anos depois, nos primórdios do século 20. É quando circulam as primeiras transliterações do missal glagolítico para o alfabeto latino, facilitando a leitura dos fonemas.
A invenção de um alfabeto, assim como a transposição de uma língua, é feito que muda o curso da humanidade. Cirilo é considerado o fundador da literatura eslava e, para as Letras, sua tradução da Bíblia só é comparável a duas outras surgidas praticamente sete séculos depois: a versão alemã de Lutero erigida em nome da Reforma (1534) e a versão inglesa selada no reinado anglicano de James I, ao tempo de Shakespeare (1611). O impacto cultural desses três clássicos sobre a literatura e o pensamento universal explica, em boa medida, por que ateus confessos e compositores de várias confissões há séculos se debruçam sobre o Livro Sagrado.
O próprio Janácek, ao eleger um missal glagolítico para musicar, tinha o espírito em dois propósitos extrarreligiosos: o idiomático e o patriótico. Obcecado que era pelas “melodias da fala”, quis buscar na sonoridade daquela língua extinta e estranha as inflexões, entonações, cadências e metamorfoses metamorfoses constitutivas de uma nova expressão possível. Mais, como nacionalista, anteviu no velho idioma o símbolo ideal de uma grande nação pan-eslava que se afirmava como bloco independente no Primeiro Pós-Guerra.
A utopia política não se concretizou. A musical, sim. Antes dele, nos mesmos anos 1920, dois outros compositores tchecos escreveram missas glagolíticas para uso funcional da Igreja e com decoro espiritual. Apenas a de Janácek, porém, entrou para a história e ocupou um posto de importância na posteridade.
Regina Porto é compositora, curadora de concertos e pesquisadora musical. Foi diretora da Cultura FM de São Paulo e editora de música da revista Bravo!.




WOLFGANG A. MOZART [1756-91]
Sinfonia nº 39 em Mi Bemol Maior,
KV 543 [1788]
- Adagio/Allegro
- Andante Con Moto
- Menuetto/Trio
- Finale: Allegro
30 MIN

LEOS JANÁCEK [1854-1928]
Missa Glagolítica [1926-7]
- Úvod
- Gospodi Pomiluj
- Slava
- Veruju
- Svet
- Agnece Božij
- Varhany Solo
- Intrada
39 MIN


LER +
Fundação Osesp
Endereço: Praça Júlio Prestes, nº 16 | CEP 01218 020 | São Paulo-SP
Telefone: (11) 3367 9500