Temporada Osesp: De La Parra e Monarcha
Sala São Paulo
São Paulo-SP
Brasil
30 mai 13 quinta-feira 21h00
Pau-Brasil
31 mai 13 sexta-feira 21h00
Sapucaia
01 jun 13 sábado 16h30
Jequitibá
QUINTA-FEIRA 30/MAI/2013 21h00
Entre R$ 28,00 e R$ 160,00
SEXTA-FEIRA 31/MAI/2013 21h00
Entre R$ 28,00 e R$ 160,00
SÁBADO 01/JUN/2013 16h30
Entre R$ 28,00 e R$ 160,00


No dia 1 de junho, às 15h30, os alunos da Academia de Música da Osesp fazem uma apresentação com repertório surpresa na Sala Carlos Gomes, minutos antes da aula Falando de Música. Chegue um pouco mais cedo e aproveite!

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Alondra de la Parra regente
Carmen Monarcha soprano
Programa
Luís de Freitas BRANCO
Paraísos Artificiais
João Guilherme RIPPER
Cinco Poemas de Vinicius de Moraes [Encomenda Osesp. Estreia Mundial]
Ludwig van BEETHOVEN
Sinfonia nº 7 em Lá Maior, Op.92

Programação sujeita a alterações.
Notas de Programa


Luís de Freitas Branco é o principal protagonista do movimento de renovação da música portuguesa nas primeiras décadas do século XX. Embora sua atividade tenha se desenrolado à margem do modernismo literário dos seus contemporâneos Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, existem pontos de contato suficientes a justificar a aproximação entre os respectivos contributos para a história da cultura portuguesa.
Nascido em Lisboa, no seio de uma família culta e aristocrática, Freitas Branco iniciou muito novo sua aprendizagem musical, tendo tido como primeiros mestres de composição Augusto Machado e, sobretudo, Tomás Borba. Estudou ainda piano e violino. Entre 1906 e 1908, trabalhou igualmente com o compositor e organista belga Désiré Pâque, então residente em Lisboa, aprofundando a sua técnica de orquestração com o maestro italiano Luigi Mancinelli. A partir de 1910, a sua formação prosseguiu em Berlim, sob a orientação de Engelbert Humperdinck [o conhecido autor da ópera João e Maria].
Curiosamente, seria na capital alemã que Freitas Branco viria a ter a revelação de Pelléas et Mélisande, de Debussy, cujo impacto, reforçado por uma estadia em Paris em 1911, muito contribuiu para o equilíbrio entre as componentes germânica e francesa da sua educação. Essa experiência cosmopolita permitiu a Freitas Branco cultivar um espírito de abertura às inovações estéticas do seu tempo (pós-wagnerismo, simbolismo, expressionismo), sem prejuízo de um pendor racionalista que se tornaria mais evidente depois da 1ª Guerra Mundial (encontrando um campo de ação paralelo na sua obra de ensaísta, conferencista e pedagogo, em parte desenvolvida como docente do Conservatório Nacional).
Se a música popular portuguesa nunca constituiu um elemento de forte incidência na sua personalidade artística, nem por isso a obra de Freitas Branco é menos representativa de uma reivindicação de “Latinidade”. Esta fica patente num certo ideal de lirismo, eloquência e equilíbrio formal que viria a aproximá-lo das tendências neoclássicas do pós-guerra, ainda que as raízes do suposto neoclassicismo de Freitas Branco, informado pelo princípio da construção cíclica e pelo modalismo, estejam mais próximas da descendência franckista e da generazione dell’Ottanta italiana do que do modelo stravinskiano.
A obra do compositor abrange praticamente todos os gêneros, com exceção da ópera, sendo particularmente significativo o seu legado nos domínios da música orquestral e de câmara. Destacam-se em especial, na primeira dessas categorias, uma série de poemas sinfônicos, entre os quais Paraísos Artificiais (1910 [estreada em 1913]). [...] Pode-se dizer que a produção de Freitas Branco evidencia padrões de profissionalismo e recursos imaginativos sem equivalente na música portuguesa da época, surpreendendo pelo arrojo assumidamente modernista da sua linguagem harmônica.
Paraísos Artificiais constitui, a vários títulos, uma obra-chave no percurso criativo do jovem compositor. Concluída durante a estadia em Berlim, a partitura é inspirada nas Confissões de um Comedor de Ópio (Confessions of an English Opium-Eater, 1821-2) do escritor romântico Thomas De Quincey, por via da adaptação realizada por Baudelaire em Les Paradis Artificiels (1860).
Como em De Quincey e Baudelaire, o poema sinfônico de Freitas Branco articula-se em torno do contraste entre os prazeres e as torturas associados aos efeitos alucinógenos do ópio, musicalmente evocados por sofisticados processos de metamorfose temática e de um estilo harmônico e orquestral conotado com o impressionismo. A obra termina, de forma inconclusiva, com a visão de uma dissociação da consciência, sugerida por um curioso efeito bitonal que muito terá contribuído para a perplexidade com que foi acolhida pelo público da estreia, ocorrida em Lisboa, no Teatro da República, em 9 de Março de 1913, num concerto da Orquestra Sinfônica Portuguesa, sob a direção de Pedro Blanch.
Paulo Ferreira de Castro é professor de Musicologia na Universidade Nova de Lisboa e presidente da Associação Portuguesa de Ciências Musicais. Nota publicada na edição portuguesa da partitura de Paraísos Artificiais (DGArtes, 2007)





 

O mítico álbum de Elizete Cardoso, Canção do Amor Demais, trazia na capa a informação: “Música — Antonio Carlos Jobim; Poesia: Vinicius de Moraes”. Era 1958, mas parece muito distante o tempo em que soaria como rebaixamento indesculpável afirmar que um eminente poeta, igualmente diplomata, compusera, simplesmente, letras de canções. A informação também anunciava algo excepcional: letras de canções populares poderiam ter a mesma excelência que poemas publicados em livros. Hoje, quando avaliamos em conjunto a música popular brasileira — convertida em objeto privilegiado de importantes trabalhos crítico-teóricos e prestigiada em salas de concerto —, praticamente perdemos de vista o destemor do poeta ao se converter em letrista e o espanto que provocou então. Faria 100 anos em 2013 quem mudou o nosso modo de ouvir e fazer canção no Brasil.
Na contracapa do mesmo disco, Vinicius escrevera sobre os arranjos de seu parceiro, chamado respeitosa e carinhosamente de “meu maestro”:
“A graça e originalidade dos arranjos de Antonio Carlos Jobim não constituem mais novidade, para que eu volte a falar delas aqui. Mas gostaria de chamar a atenção para a crescente simplicidade e organicidade de suas melodias e harmonias, cada vez mais libertas da tendência um quanto mórbida e abstrata que tiveram um dia. O que mostra a inteligência de sua sensibilidade, atenta aos dilemas do seu tempo, e a construtividade do seu espírito, voltado para os valores permanentes na relação humana.”
Vinicius não poderia antever que aqueles altos valores, a um só tempo artísticos e éticos, seriam convertidos logo adiante nas linhas de força de algo que ele, Tom Jobim, e um dos violonistas que tocava em duas faixas do mesmo disco, João Gilberto, acabavam de inventar: a Bossa Nova. Faria 100 anos quem sabia ver as boas-novas, antecipando-as.
Se a condução da página do livro para o universo da música popular soou imprevisível, as futuras apostas artísticas e intelectuais do poeta surpreenderiam — e frustrariam — ainda mais as expectativas conservadoras. Sua popularidade desmontou hierarquias socioculturais, fundiu diferentes estratos da cultura e plasmou mudanças comportamentais que marcariam a história do cotidiano no século XX. Nos livros ou no palco, só ou em companhia de seus muitos parceiros, Vinicius de Moraes viveu intensamente seu tempo, deu voz a ele e foi um dos principais atores no processo de modernização da cultura e da mentalidade brasileiras.
Faria 100 anos o tradutor dos nossos sentimentos mais sutis ou mais desesperados, de nossas paixões e melancolias, de nossa finitude e desejo de eternidade em canções como “Se Todos Fossem Iguais a Você”, “Garota de Ipanema”, “Eu Sei Que Vou te Amar”, “O Que Tinha de Ser”, “Insensatez”, “Berimbau”, “Samba da Bênção”, “Minha Namorada”, “Marcha de Quarta-Feira de Cinzas”, “Arrastão” e “Tarde em Itapoã”. Mas não são apenas as palavras cantadas que permanecem na memória. Todos, afinal, sabemos de cor alguma passagem dos célebres “Soneto de Fidelidade”, “Soneto do Amor Total”, “Soneto de Separação”, “O Operário em Construção”, “O Dia da Criação” e “Rosa de Hiroshima”. E lembramos de seu rosto, de sua voz, de casos biográficos talvez fantasiados em um ou outro detalhe, pouco importa, pois vivemos livremente uma espécie rara de intimidade, em que não cessam a admiração e a descoberta.
É eloquente que, no ano de seu centenário, contemos, entre outras homenagens, o enredo de uma escola de samba carioca e uma peça sinfônica encomendada especialmente pela Osesp. Poucos nomes seriam capazes de pôr em harmonia sem qualquer esforço o que, à primeira vista, pareceria em desacordo.
Há ainda muito o que aprender com ele. Afinal, Vinicius de Moraes faz apenas 100 anos.
Eucanaã Ferraz é poeta, autor de Sentimental (Companhia das Letras, 2012) e Cinemateca (Companhia das Letras, 2008), entre outros livros.

 





 

Quando recebi da Osesp a encomenda para escrever uma peça em homenagem ao centenário de Vinicius de Moraes, o título chegou pronto, poupando- me o sempre incômodo trabalho de batizar uma nova obra.
Tinha ali o autor dos textos e o número de poemas com que deveria trabalhar: Cinco Poemas de Vinicius de Moraes. Mas o próximo passo — escolher aqueles que constituiriam o ciclo — revelou-se imenso. Romântico, místico, moderno, sonetista ímpar, autor teatral, letrista prolífico, autor de grandes clássicos da música popular: que poeta deveria ser o Vinicius de meus Cinco Poemas? Foram necessários vários mergulhos em sua Antologia Poética para descobrir que, a despeito dos diferentes estilos, métricas ou técnicas, em toda a sua poesia pode-se identificar a voz clara e inconfundível de quem escreve com a própria vida.
Seja a vida, então, a linha condutora! Sigo Vinicius em sua multiplicidade; chegam-me músicas diversas a partir das leituras de seus poemas. Começo o ciclo com uma declaração seminal, “Uma Música Que Seja”, poesia em prosa, que anseia por uma música “como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova”. A segunda canção, “O Poeta Aprendiz”, é autobiográfica e fala do Vinicius criança, agitado e melancólico “de sonhar o poeta / que quem sabe um dia / poderia ser”.
Segue-se o conhecido “Poema Dos Olhos da Amada”, com sua escrita fluida e versos apaixonados, como foram derramados os amores de Vinicius: “Quantos saveiros / quantos navios / quantos naufrágios / nos olhos teus...”.
E quantos caminhos levam-me ao poema “Lapa de Bandeira”, a quarta canção. A poesia de Manuel Bandeira e o tema da amizade, constante na vida e obra de Vinicius, misturam-se a todas as músicas da Lapa, que já foi berço do choro, é o atual celeiro da música popular carioca e, last but not least, o bairro onde fica a Sala Cecília Meireles. Mas, ao ler e reler o poema, todos esses motivos acabam à sombra da bela imagem/homenagem que descreve o simples apartamento do amigo-poeta: “Porém, no meu pensamento / Era o farol da poesia / Brilhando serenamente”.
Escolho fazer de “A Partida” a grande celebração que encerra poética e musicalmente o ciclo de canções. Vejo o poeta descrevendo um fim que passa ao largo da tristeza, carnavalizado e transformado na viagem para uma estrela. Ao escrever a música, carregada de percussão, procuro recriar a atmosfera de um ritual afro, parte importante de sua mitologia plural. O poema termina com os versos “No oco raio estelar / libertado subirei”. Sabe Vinicius que, em sua eterna viagem, arrasta multidões encantadas no rastro de sua poesia.
João Guilherme Ripper




Beethoven é um dos maiores gênios da música e da história. Para o compreendermos bem, é preciso primeiro observar que ele é um dos fundadores do Romantismo, atormentado, com dores, sofrimentos, joelho adoecido e, finalmente, sua famosa surdez, o que não o impediu de compor a Nona Sinfonia, na qual, hereticamente, coloca uma letra, a poesia de Schiller. Tornou-se um hino atual da nova Alemanha democrática depois do Nazismo.

O interessante é notar que Beethoven retrata os espasmos e devaneios da alma apaixonada do indivíduo e, simultaneamente, estas paixões são interligadas aos eventos históricos, o que provoca o total envolvimento de sua arte em todos os assuntos. Nota-se isso pela sua admiração por Napoleão Bonaparte enquanto ostentava o título de Cônsul da República Francesa, e como sempre tudo que aconteceu na Revolução Francesa era uma reinterpretação da história de Roma e a sua Res Publica. No entanto, o rompimento dessa admiração por Napoleão se dá quando este se torna Imperador. Beethoven, que havia composto uma sinfonia em homenagem ao grande Napoleão Bonaparte, risca a dedicatória e coloca em seu lugar: “Em memória de um grande homem”. Para Beethoven, Napoleão falecera. Vejam que radicalismo! Que tremenda diferença faria para um romântico, se fosse de bom senso, a passagem do título de Cônsul vitalício para Imperador? Somente na simbologia aguçada e extremada dos neurônios do grande e genial compositor.

Suas confusas e profundas relações com seu sobrinho como que inspiravam e adensavam toda esta paisagem de agonias e êxtases, e profunda melancolia e de uma euforia talvez mais perigosa ainda numa oscilação vertiginosa de abismos de sensações, sons, poesia, vida real e vida histórica sempre entrelaçadas ao seu ponto máximo.

Coisa curiosa, que pouca gente sabe, sobre Bach, Mozart e Beethoven, é que estes três gênios tocavam muito em improvisos, como se fosse um jazz o tempo todo. Ao cometer a heresia de colocar a letra de Schiller em sua última e nona sinfonia, Beethoven não sabia que estava preparando, sem o querer, o drama musical wagneriano com pregação oposta à sua ode à alegria.

Para ilustrar ainda mais estas disposições pessoais que são tudo na Arte, Beethoven compôs esta Sinfonia nº 7, que tem instantes de imensa alegria contrapondo-se a momentos emocionais de melancolia, numa pequena cidade turística boêmia, para tratar das dores do seu joelho. É bom lembrar que, desde Goethe, um dos fundadores do Romantismo filosófico e literário, em seu primeiro livro, Os Sofrimentos do Jovem Werther: “O amor só tem graça porque não dá certo”. Essa íntima relação entre o instinto de vida e o instinto de morte, a igualdade, a liberdade e a fraternidade, já nos lança para além da modernidade, e para os tempos atuais e os do futuro, decretando a predominância do indivíduo e das emoções cada vez mais simultâneas das dores entrelaçadas com os amores, a presença da morte e o triunfo do amor. É a era do sensacionismo universal dos sensacionismos de Fernando Pessoa.

Atualmente, a pesquisa científica nos assegura que toda inteligência de nossos neurônios é como um oceano em fúria de uma sinfonia imortal. Ludwig van Beethoven.

A última observação é a importância da sua persistência ao lembrar-se de uma música de infância, conseguindo ouvir dentro de si mesmo, apesar de surdo, a melodia irresistível e eterna da Nona Sinfonia. Numa visão de entrelaçamentos criativos, a Sétima Sinfonia, para mim, já representa um embrião genial de sua última obra. William Shakespeare diz: “A vida não é nada mais que som e fúria”. Parece estar falando de Beethoven. E para finalizar, porque tudo está entrelaçado, conta-se que Villa-Lobos estava compondo uma música, escrevendo-a em sua partitura, ao mesmo tempo que um rádio irradiava uma novela aos berros, e perto dele pessoas conversavam, riam, até que entrou um amigo que, espantado, perguntou a Villa-Lobos: — Como você consegue compor com tanto barulho e ruído? E Villa-Lobos respondeu: — Existe o ouvido exterior e o ouvido interior.
Depoimento do compositor e cantor Jorge Mautner à Revista Osesp.




Luís de Freitas BRANCO
[1890-1955]
Paraísos Artificiais [1913]
13 MIN

João Guilherme RIPPER [1959]
Cinco Poemas de Vinicius de Moraes [Encomenda Osesp . Estreia Mundial ]
- Uma Música Que Seja
- O Poeta Aprendiz
- Poema Dos Olhos da Amada
- Lapa de Bandeira
- A Partida
24 MIN

Ludwig van BEETHOVEN [1770-1827]
Sinfonia nº 7 em Lá Maior, Op.92 [1813]
- Poco Sostenuto
- Allegretto
- Presto
- Allegro Con Brio
36 MIN


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