UMA CONVERSA COM CLÁUDIO CRUZ
por Anna Fuccia
ZOOM + Cláudio Cruz, spalla da Osesp
(por Alessandra Fratus)

Aos 43 anos de idade, 20 deles como spalla da Osesp, Cláudio Cruz comenta nessa conversa sua trajetória como músico. O garoto paulistano, filho do luthier João Cruz, foi aluno de Maria Vischnia e de Erich Lehninger. Chegou à Osesp em 1985, aos 18 anos. Após um período de estudos nos Estados Unidos, precisamente no dia 15 de março de 1990 – véspera de seu aniversário de 23 anos –, Cláudio assinou o contrato para ser spalla. Hoje o primeiro violino da nossa Orquestra multiplica atividades musicais. Além do violino (e da viola), tem atividade cada vez mais expressiva como regente; apresenta-se em recitais e em quartetos, no Brasil e no exterior; dá aulas de instrumento e dedica-se ainda à revisão e resgate de obras de compositores brasileiros.

 

Vinte anos como spalla! Não é pouca coisa. Mas como foi sua entrada na Osesp?
A primeira vez que toquei na Orquestra foi em 1985. Ganhei o concurso Jovem Solista da Osesp e, em seguida, o maestro Diogo Pacheco me convidou para o Jovem Solista da Paraíba, com o Maestro Eleazar de Carvalho. Saí de lá membro da Osesp. A Orquestra tinha tração traseira e tração dianteira: nas últimas estantes ficavam os jovens talentos; nas primeiras, os músicos mais velhos, já consagrados, como o Airton Pinto e Clemente Capela. Toquei na fila durante algum tempo e depois saí porque queria estudar. Fiz vários cursos, inclusive fora do Brasil. Tive também uma passagem pela Osusp. Mas toquei na fila da Osesp por uns três anos, a partir de 85. Eu era um menino, tinha 18 anos...

 

Como foi a volta?
Estava em Houston, nos EUA, em 1989, e liguei para a casa do Maestro Eleazar em New Haven, pensando em lhe fazer uma visita. Ele falou: “Professor Cruz, a cadeira de spalla está à sua disposição”. Eu disse que só queria visitá-lo, mas o maestro encerrou a conversa: “Não, o senhor vai voltar para o Brasil, apresente-se em 5 de março. Passar bem”. Fiquei em conflito. Falei com meu pai, falei com meu professor, Kenneth Goldsmith, que me aconselhou a não desperdiçar essa oportunidade. Dia 15 de março de 1990 assinei o contrato com a Osesp.

 

Eleazar ainda regia.
Trabalhei com ele até 1996. Quando cheguei houve protesto dos mais velhos, achavam que eu não estava pronto para o cargo. O Maestro me chamou e disse que só havia uma solução. Perguntou qual concerto eu tocaria na próxima semana, pois estava cancelando o solista. Argumentei que não havia tempo razoável para me preparar, mas a resposta foi: “Diga qual o concerto”. Continuou me pedindo nomes de obras que eu tocasse, mudou todo o repertório das apresentações do ano: seriam em grande parte peças com solos de violino. Disse que voltaríamos a conversar após seis meses. Encerrado o prazo, bati em sua porta e ele já estava rindo, disse para eu ficar tranqüilo e voltar ao trabalho.

 

Hoje você tem uma soma de atividades relacionadas à música.
Vou fazer alguns concertos com o Quarteto Portinari. Pretendo gravar mais obras para quarteto, já fiz seis ou sete CDs de música brasileira para essa formação e há muito ainda o que ser feito.
São peças que precisam de revisão das partituras; muitas vezes a partitura geral é conflitante com relação às partes, e eu gosto de fazer isso. Quero gravar os quartetos de Henrique Oswald [ 1852-1931 ], de Octávio Meneleu Campos [ 1872-1927 ], fazer uma boa gravação dos quartetos de Alberto Nepomuceno [ 1864-1920 ]. Uma gravação com muita ginga dos quartetos do Radamés Gnattali [ 1906-1988 ]. Alguns nunca foram gravados! Os quartetos de Oswald nunca foram tocados! Ainda nesse ano vou gravar os prelúdios do Flausino Vale [ projeto contemplado no Programa Petrobras Cultural ], para lançar em 2011. É uma obra importante, para violino solo.
Não existe gravação de todos os prelúdios por uma única pessoa, muito menos por um brasileiro.
É música seresteira, bonita, com um sotaque mineiro.

 

E regência?
É o que mais tenho feito nos últimos 12 anos. Até passei a tocar menos concertos como solista, pois para esses concertos grandes, como o de Tchaikovsky, são três meses da vida em que o violino vira um sacerdócio. Quatro, cinco horas por dia de estudo, acordar de madrugada. Acabo tocando uns três grandes concertos por ano. Faço muito recital com piano e enveredei pela regência, o que aconteceu naturalmente. Consigo hoje reger uma ópera de duas horas e meia, controlando coro, orquestra, cantores e, às vezes, até monitor e câmera. É muito gostoso, depois de estudar quatro horas de violino, pegar a Quarta de Mahler e imaginar como montar esta grande obra. A regência é um grande prazer.

 

Você escuta tudo só lendo a partitura, ou vai para o piano?
Atualmente, já tenho a visão vertical. Olho a partitura e consigo imaginar exatamente como soa. Não tive dificuldade com a leitura dos instrumentos, as transposições. Isso eu aprendi rapidamente. Tive um professor de matérias teóricas excelente. Depois, estudei harmonia com Oliver Toni, um grande professor.

 

Você também deu aulas por muito tempo, não deu?
Sim, na Escola Municipal de Música; na ULM; na Faculdade Santa Marcelina, para a classe de regência e de violino complementar; no Conservatório do Brooklin, numa época que vários músicos da Osesp também davam aula lá. Dei aulas em festivais como os de Campos do Jordão, Londrina, Brasília, Itu. E ainda dou aulas, tenho alunos particulares.

 

O que um professor de fato ensina aos seus alunos?
Os meus alunos têm aula de cidadania. Essencialmente, dou um tipo de orientação nas escolhas que o aluno vai ter que fazer na vida. Por exemplo, aqui em São Paulo você estuda dois, três anos de instrumento e já consegue ingressar em várias orquestras. Ganha mais dinheiro que músicos profissionais, mas isso é um grande problema, o estudo musical vai por água abaixo. Sou um professor exigente, estou sempre me intrometendo na vida particular dos alunos. Acabo virando um pai.

 

Aquilo que um aluno aprende de mais importante com um professor, aquilo que ele depois se lembra de um professor... no fundo não é um estilo? Um modo de se dar para as coisas, um jeito na vida? No limite, o que se aprende não é a conduta e personalidade?
Hoje pela manhã estava fazendo exercícios técnicos - o violino exige isso - e comecei a fazer uma viagem no tempo e a me lembrar do professor Erich Lehninger. Quando fui estudar com ele, imediatamente me colocou de castigo, me trancou num quarto, eu tinha de estudar no mínimo 10 horas. Ele sentava e ouvia cada exercício técnico, do início ao fim. Olhava cada dedo, meticulosamente, para que eu pudesse ter uma técnica limpa. Hoje, pensando no professor, não me lembrei do que ele falava, mas sim da sua postura. Vi o professor sentado, comentando sobre o tipo de conduta que eu tinha de ter em relação àquele exercício.

 

Você foi para o Rio estudar com Lehninger?
Toquei para ele em São Paulo com a intenção de ter aulas a cada 15 dias no Rio de Janeiro.
Lehninger disse que isso não funcionava, que eu teria que me mudar para lá, ingressar na UniRio, no curso de extensão. Ele me colocaria na Orquestra Jovem do Rio de Janeiro. Com 16 anos de idade, fui levado pelo meu pai a uma pensão no Rio. Eu mal cabia no quarto e ainda tinha que dividi-lo com outra pessoa. N‹o dava para tocar violino. Quando meu pai foi embora, chorei a noite inteira. No primeiro ensaio com a Orquestra Jovem – também minha primeira vez com uma orquestra – passados uns minutos, o maestro Davi Machado me colocou na primeira estante.
Nunca mais saí de lá. Em menos de dois meses, virei spalla. Essa cadeira me persegue!

 

O que você nos diz do Concerto de Bruch e do de Tchaikovsky?
O de Tchaikovsky é um projeto para muito tempo, quando se estuda pela primeira vez. Eu o estudei com Maria Vischnia, e foram dois anos de trabalho até que ele ficasse maduro e eu pudesse tocar com orquestra. Foi cedo, eu tinha uns 22 anos, e foi bom, porque começar a tocar esses concertos depois seria mais sofrido. O problema desses grandes concertos, de Tchaikovsky, Beethoven, Brahms, é que quando você termina o primeiro movimento sente que já deu seu recado. é exaustivo. E nesses três concertos o primeiro movimento termina de forma apoteótica, o concerto poderia ter acabado ali. Mas ainda tem mais dois movimentos e, no caso do Tchaikovsky, é preciso estar fresquinho para o terceiro. é um tipo de concerto em que é preciso saber se poupar nos momentos certos. Poupar tudo: técnica, fora, adrenalina. 

 

Uma maratona.
É, porque no Tchaikovsky são 35 minutos de muita nota e no momento que o violino solo para a orquestra é grandiosa e apoteótica. Tudo isso afeta o solista psicologicamente. é muito difícil, depois de um tutti de orquestra como esse, entrar tranqüilo, senhor de si. Eu tive uma boa professora. Só os violinistas que tocaram os grandes concertos podem dizer: “Tome cuidado com essa armadilha”. O Concerto de Bruch foi um dos primeiros que estudei, tenho uma ligação afetiva que me traz muitas lembranças da fase de adolescente. E não é um concerto muito grande. Todo os grandes violinistas tocam - e tocam bem. Quando decidi gravá-lo, resolvi que deveria fazer uma interpretação especial. Não apenas tecnicamente, mas pensando na parte operística do concerto.
Neste concerto deve-se privilegiar a interpretação mais romântica, deixando a sensibilidade humana aflorar, distanciando-se da música religiosa.

 

E a gravação, como ficou?
Não costumo gostar do que gravo, sempre acho que poderia ser melhor, mas com essa gravação eu fiquei satisfeito. Sempre sinto que os instrumentos de cordas se aproximam da voz humana.
E eu tenho também a possibilidade de transformar uma única nota em muitas cores: É uma nota inserida na natureza. Eu ouvia muito isso dos meus professores, o Walter Bianchi na música de câmara, o Oliver Toni, a Maria Vischnia. Hoje em dia não se fala mais nisso, fala-se em perfeição, em técnica, sou um pouco crítico aos músicos de hoje. O que procuro fazer é voltar ao passado e tocar um violino que tem mais a ver com a interioridade. Pode-se tocar num instrumento 50 mil vezes melhor que o meu, com um arco maravilhoso, tudo funcionando muito bem – no ano passado, tive a oportunidade de tocar em um instrumento de 5 milhões de dólares e percebi que a vida fica mais fácil –; mas se não há entrega, alguma coisa de si que se coloque nas notas...

 

Você está com 43 anos e há 20 é spalla da Osesp. Hoje, depois de toda essa experiência de vida, quem é Cláudio Cruz para o Cláudio Cruz?
Sou filho de um luthier, não fui agraciado com bolsas de estudos, casei cedo, tive três filhos; não tive uma vida muito fácil, mas nunca deixei de estudar, não abandonei o sonho. Tocava em tudo quanto é orquestra e restaurante, até as três horas da manhã, juntava dinheiro e ia para os EUA estudar. Mesmo depois de estabilizado profissionalmente como violinista, ainda fui atrás de aprender a reger. Agora, estou louco para gravar isso, gravar aquilo, tenho muitos concertos para fazer. Então, acho que sou uma pessoa determinada. Essa força que recebo é o traço mais importante da minha personalidade. Eu poderia fazer o que muitas vezes sinto vontade: sentar num barzinho e tomar cerveja a tarde inteira, ver o dia passar jogando dominó, lendo jornal.
Adoro isso. Nunca fiz, mas sei que adoro. Errei muito em relação ao tempo que não dediquei aos meus filhos, à minha esposa, por ficar trancado dentro de um quarto, estudando. Às vezes me arrependo, mas continuo errando. é isso que me mantém e faz com que eu possa brigar de igual para igual com as pessoas que tiveram acesso a professores e oportunidades melhores.
Não posso reclamar. E a melhor sorte que tive foi a Osesp, o cargo de spalla. Enfim, acho que a determinação é importante. Ensino isso aos meus alunos: não desistir, se têm um sonho. Nem sei mais que sonho eu tenho... mas continuo determinado.

 

Entrevista a Arthur Nestrovski (11/2/2010).