ARCÁDIO MINCZUK: 30 ANOS DE OSESP
Que um oboísta se chame Arcádio parece bom demais para ser verdade. O oboé é o instrumento pastoral por excelência e faz pensar na Arcádia clássica, em especial nas fantasias da Arcádia perdida que se podem ler em tantos exemplos da poesia latina. Que nosso Arcádio seja também primeiro oboé da Osesp faz a verdade imaginada ganhar concretude como nunca; mas a Arcádia, para alguém com tamanha disposição, será sempre o futuro, não o passado. Poucos músicos tiveram como ele a visão do que pode ser essa orquestra; e raros tiveram participação tão direta como ele em episódios cruciais da sua renovação. No momento em que comemora nada menos do que trinta anos como oboísta da Osesp, Arcádio Minczuk segue pensando adiante, seguro na sua bem curtida maturidade, senhor de si mesmo e pronto para os novos tempos.
Na entrevista a seguir, ele comenta episódios da sua formação e também da história da Osesp, desde a época áurea do maestro Eleazar de Carvalho. Fala também do dia a dia de oboísta e da inusitada arte de esculpir palhetas.
Em 2010, a Fundação Osesp inaugurou seu projeto de homenagens anuais a músicos, cada um representando os demais. No ano passado foi o spalla Cláudio Cruz, que completava vinte anos na função. Agora, com três concertos homenageando Arcádio (ingressos a preço popular, dias 28, 29 e 30 de julho), mais a gravação de um CD, que será
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Arcádio Minczuk, oboísta da Osesp
(por Alessandra Fratus) |
distribuído gratuitamente até o final desta temporada, reafirma-se a gratidão pelos artistas da casa — a nossa casa do coração. A Arcádia é aqui mesmo, e não está no passado nem no futuro, mas bem no presente: toda quinta, sexta e sábado, sem falar nos outros dias, quando a música da Osesp dá sentido à vida de todos e cada um de nós.
ARTHUR NESTROVSKI
Arcádio, acho que poderíamos começar do começo: seus primeiros anos na Osesp.
Entrei na Osesp em 1o de abril de 1981 e fiz dezessete anos na semana seguinte. Por algum tempo, eu tinha uma função pouco definida: era assistente de primeiro oboé, tocava como segundo oboé e tocava corne inglês. Enfim, uma espécie de coringa.
Tocar na Osesp, em particular por causa do Eleazar de Carvalho, o maestro brasileiro mais brilhante da história, era muito especial. Na época, a orquestra estava em fase de reconstrução. O repertório era extenso e Eleazar costumava fazer muitos ciclos completos. Fizemos Beethoven, Mahler, Bach, Stravinsky, Bartók... Isso me proporcionou um enorme aprendizado.
A Osesp vivia uma boa fase: havia verba, tocávamos num bom teatro — o Cultura Artística — e os salários também eram bons. Havia uma relação contratual melhor do que nos anos 1970, quando havia muitos músicos norte-americanos, por conta da relação do Eleazar com os Estados Unidos. No início da década de 1980, vários jovens brasileiros entraram na orquestra.
Já havia músicos que estão na Osesp até hoje?
Sim, havia alguns — mais precisamente, quatro: o trompetista Gilberto Siqueira, a timpanista Elizabeth Del Grande, o trompista Ozéas Arantes e a violinista Lea Sadi. Ou seja, entre os que estão na orquestra atual, sou o quinto mais antigo.
Você começou a tocar oboé com que idade?
Onze anos. Antes eu tocava bombardino e bandolim. Um dia, meu pai chegou em casa e disse para mim e para meu irmão Roberto: “você vai tocar oboé; e você, trompa”. Eu não sabia sequer o que era um oboé! Meu pai me dizia apenas que era um instrumento de 25 chaves...
O começo foi difícil. Eu estava acostumado a tocar bombardino, um instrumento de banda, gostoso e fácil de tocar, de som aveludado, escuro... Então comecei no oboé, que tem um som horrível quando se começa a estudar, estridente, metálico, parece som de pato! Eu realmente detestava, falava para o meu pai que não queria tocar oboé, mas não houve jeito. Ele dizia que havia poucos oboístas naquela época no Brasil — e tinha razão. Comecei a gostar do instrumento só uns três anos depois. Mas logo entrei na Osesp, e a coisa ficou muito mais séria.
Você estudou dos onze aos dezessete anos e foi o suficiente para ser contratado pela Osesp?
Pois é, mas pela Osesp daquela época... Hoje em dia, acho que seria muito mais difícil. São outros tempos. De todo modo, não foi fácil. O próprio Alex Klein, com quem eu estudaria anos mais tarde nos Estados Unidos, fez concurso comigo.
Alguns anos depois do meu ingresso na orquestra, as dificuldades aumentaram. Iniciou-se uma fase terrível da economia, a inflação disparou e o salário
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Arcádio Minczuk, oboísta da Osesp
(por Alessandra Fratus) |
perdeu o valor. Em 1984, saímos do Cultura Artística e fomos para a Sala Copan, um cinema que transformaram em sala de concerto, onde sequer havia ar-condicionado. Um desastre. Foi uma fase em que a orquestra se sentiu muito desprestigiada.
Depois ainda ficou pior, não?
Piorou muito. A Osesp entrou em uma fase de decadência acentuada, que se estendeu do final dos anos 1980 até meados da década de 1990. Não tínhamos boa sala para tocar, o público deixou de ir aos concertos. Pouco depois, o Eleazar foi para Yale e para a Juilliard School. Ficava mais tempo nos Estados Unidos do que aqui, o que agravou a situação. O nível técnico da orquestra caiu demais e a orquestra perdeu prestígio. Naquele tempo, qualquer orquestra de universidade norte-americana era melhor que a Osesp, que apesar disso continuava a ser uma das maiores, senão a maior orquestra brasileira. Era triste.
Como foi a reestruturação?
Em 1997, as condições históricas eram outras, o que foi decisivo para a reestruturação da orquestra. A economia havia sido estabilizada pelo Plano Real, o que garantia a preservação do valor dos salários e a contratação de bons regentes e solistas estrangeiros. O caráter empreendedor do maestro Neschling, o apoio do secretário Marcos Mendonça e do governador Mario Covas e, sobretudo, o apoio dos músicos também foram essenciais para o êxito da reestruturação. Enfim, tudo colaborou para que o projeto vingasse.
O período inicial, porém, não foi fácil. Enquanto não havia a Sala São Paulo, ficamos no Theatro São Pedro, que tinha sido restaurado para abrigar a Osesp. Mas a reforma ainda não havia terminado quando começamos a tocar lá. O fosso da orquestra, por exemplo, ainda estava aberto, ou seja, havia um grande buraco na frente do palco, o que obrigava a orquestra a ficar recuada. A Osesp ainda era pequena, quase a metade do que é hoje, e o público era reduzido, o que nos preocupava muito… “Será que esse projeto vai dar certo?”, pensávamos o tempo todo. Além disso, tínhamos contratos provisórios, o que causava muita insegurança. Em suma, demorou bastante para chegarmos à fase em que estamos. Na minha opinião, o projeto só se consolidou em 2005, quando foi criada a Fundação Osesp.
E hoje? Como você vê a orquestra hoje?
Um outro mundo! A Osesp é uma orquestra excelente, tem uma sala fantástica, apresenta uma programação diversificada e recebe solistas e regentes internacionais de altíssimo nível. Mas o mais importante é que ela continua a amadurecer. A Osesp ainda é muito jovem, portanto tem ótimas perspectivas de melhorar. Agora imaginamos uma nova fase com a Marin Alsop, a nova regente. Esperamos alguém que venha para trabalhar muito, construir o som e desenvolver esse grande potencial da orquestra. Nesse sentido, temos algumas vantagens em relação a muitas orquestras do exterior. Nosso orçamento continua bom e nosso público não para de crescer. No exterior, hoje o horizonte, em muitos casos, tende a ser pouco animador.
A esta altura, depois de trinta anos de Osesp, você já tocou todo o repertório sinfônico, não?
Sim, mas cada vez é diferente. Ainda fico nervoso, como há trinta anos! Além disso, cada maestro trabalha as obras à sua maneira. Alguns deixam os músicos mais livres, outros menos. Mesmo a preparação para os concertos continua exigindo muito estudo, inclusive a preparação de obras que já toquei dezenas de vezes com a orquestra.
Quanto tempo você leva para preparar um programa?
Normalmente, uma semana. Mas existe o problema das palhetas... As palhetas mudam muito de acordo com a umidade e a temperatura. Às vezes, quando se toca de manhã, a palheta está de um jeito; à noite, de outro! Em Campos do Jordão, há menos oxigênio, a pressão atmosférica é menor e assim a palheta vibra muito menos. No Rio de Janeiro, ao contrário, ela vibra demais. Quando a Osesp faz uma turnê, tenho de pensar em tudo isso, ou seja, se vamos a lugares montanhosos ou mais úmidos, se tocamos no nível do mar ou em regiões secas. Nas viagens sempre levo várias palhetas e chego muito antes aos teatros, pois até o ar-condicionado interfere. Todo oboísta se preocupa muito com essa peça fundamental. A palheta tem de funcionar bem para que a gente consiga se expressar.
Mas não existem palhetas sintéticas, que não sofram tanto?
Há palhetas de fibra de náilon, mas o resultado sonoro não é bom. Faz parte da vida de um oboísta esse trabalho de artesão. As palhetas são feitas de bambu — um bambu especial, importado de certa região do Sul da França. É preciso montar cada palheta com base em medidas muito específicas, raspá-la a partir de um projeto de raspagem, amaciá-la. Uma loucura!
A relação entre a Osesp e a sociedade também mudou de 1981 para cá?
Muito. No início dos anos 1980, é verdade, havia bastante público. Sempre tinha fila no Cultura Artística antes dos concertos da Osesp. Mas depois, como eu disse, o público diminuiu e a importância da orquestra para a cidade também. Um fator decisivo para que a situação mudasse foi a construção da Sala São Paulo.
Como eu representava os músicos da orquestra naquela época, estive muito envolvido com o desenvolvimento do projeto da Sala. Foram chamados engenheiros de Nova York para escolher o lugar ideal. Eles visitaram o Memorial da América Latina, o Theatro São Pedro e a Estação das Artes (hoje um pavilhão envidraçado na Sala São Paulo, junto à estação de trem). Mas quando vieram para a Estação Júlio Prestes e viram aquele pátio, que era uma espécie de jardim de inverno, aberto, com palmeiras, ficaram encantados. As proporções eram semelhantes às de grandes teatro do mundo, como o Concertgebouw de Amsterdã.
Eu estava almoçando com Neschling e um assessor do secretário da Cultura num restaurante pequeno, perto da Avenida Paulista, quando os engenheiros telefonaram e disseram que haviam descoberto o lugar perfeito para a sala. Neschling ficou animadíssimo e nos disse: “vamos levar a ideia ao governador hoje à tarde!” De fato, fomos falar com Mario Covas no mesmo dia, e ele topou na hora.
Participar de tudo isso, representando os músicos, foi uma experiência incrível para mim. Hoje tocamos três a quatro concertos por semana, sempre com o teatro lotado, um cenário que antes só parecia possível no exterior, em Chicago, em Nova York, na Alemanha... É um sonho realizado.
Você tem atividades didáticas também.
Sempre gostei de dar aulas. Lecionei no Conservatório de Tatuí, fui professor e diretor pedagógico do Festival de Campos de Jordão por vários anos e sou professor da Unesp há 25 anos, onde tenho nove alunos. Os alunos me acham muito bravo — mas não abandonam as aulas... Dois alunos meus já fizeram a Academia da Osesp e um está cursando agora. Outros tocam em grandes orquestras do Brasil, o que é muito gratificante para mim.
O que você imagina para sua carreira daqui em diante?
Gosto muito de trabalhar em orquestra. Mas não sei até quando isso será possível. Tocar primeiro oboé é uma responsabilidade enorme, o instrumento está sempre muito exposto. Depois dos sessenta anos fica muito difícil continuar em alto nível. Por isso, às vezes penso que chegará o momento em que terei de abrir mão da função, passá-la a outra pessoa. Espero conseguir perceber a hora certa de parar. Então penso em me dedicar a dar aulas, talvez trabalhar na parte administrativa, cuidar de projetos pedagógicos. E cuidar das minhas crianças: minha filha, Catarina, tem doze anos e meu filho, Ian, vai fazer cinco em junho.
Podíamos falar um pouco do repertório do disco que você vai gravar com a Osesp neste ano.
A peça principal é o Concertino Para Oboé e Orquestra de Cordas do compositor brasileiro Brenno Blauth (1931-93). Sugeri esse concerto porque, além de bonito e muito bem escrito, é uma obra brasileira que ainda não tem uma boa gravação. Terei de conversar com alguns colegas que dominam melhor a música brasileira, para que eu não faça uma interpretação muito eslava, quadrada!
O disco terá também a Canzonetta Para Oboé e Orquestra de Cordas, de Samuel Barber (1910-81). A obra foi encomendada em 1978, mas a estreia ocorreu apenas em 1981, ano em que Barber faleceu. Há uma coincidência curiosa de datas, nesse caso. Em 2011, faz trinta anos que entrei na Osesp e trinta anos também que a Canzonetta de Barber foi estreada.
Por fim, haverá uma obra de câmara de Benjamin Britten (1913-76), a Fantasia Para Oboé e Trio de Cordas, composta em 1932. Britten gostava muito do oboé. São vários os momentos de sua obra orquestral nos quais o oboé se destaca do conjunto, como uma voz sozinha contra o mundo...
Para encerrar, como você vê a música erudita no Brasil hoje?
As coisas estão muito melhores do que há trinta anos. A música erudita tem excelentes perspectivas no Brasil. Muitas orquestras estão se reestruturando, como no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, os festivais estão cada vez melhores e há diversos músicos brasileiros que estudaram no exterior e depois voltaram, contribuindo para elevar o nível da música no país. Não seria exagero dizer que a Osesp foi a principal responsável por essa mudança. Ela fez uma ruptura e criou novos padrões estéticos e profissionais entre nós. Dignificou a profissão de músico no Brasil. Essa talvez seja a principal razão para se dizer que a Osesp é um projeto vitorioso.
ENTREVISTA A ARTHUR NESTROVSKI E PEDRO FRAGELLI.