Os 27 concertos para piano escritos por Mozart entre 1767 e 1791 cobrem o conjunto de sua trajetória autoral e ocupam lugar de relevo em sua obra. Ouvi-los na sequência em que foram criados é acompanhar o enredo de uma dupla e empolgante história de libertação: o triunfo de um gênio e o desabrochar de um gênero. Pois à medida que Mozart alçava à plenitude seu poder criador pelo exercício corajoso do talento — “a vitória do gênio sobre a precocidade”, na feliz expressão de Peter Gay em sua biografia do compositor —, ele também elevava o concerto para piano, gênero até então tolhido por fórmulas e estereótipos restritivos, a um nível de sofisticação formal e intensidade dramática sem paralelo na história da música. Mozart fez pelo concerto para piano o que fizeram Bach pela fuga, Haydn pelo quarteto de cordas e Beethoven pela sonata para piano.
Ao contrário do seu dom pianístico altamente precoce e em larga medida inato, a evolução de Mozart como compositor foi fruto de um longo e aplicado trabalho de estudo, imitação e aprendizado. Os quatro primeiros concertos para piano, escritos a partir dos onze anos de idade, não eram ainda obras originais, mas transcrições de sonatas para piano solo de compositores em voga na época e admirados pela família Mozart, como por exemplo Johann Christian, filho caçula de Bach. As partituras desses exercícios trazem as correções de notação e harmonia feitas por Leopold Mozart, que se referia a seu filho como “o milagre que Deus permitiu que nascesse em Salzburgo”. Anos mais tarde, quando se mudou para Viena, a descoberta e o estudo detalhado da arte do contraponto em Bach tiveram papel decisivo no extraordinário salto criativo da fase derradeira do compositor. Mozart não fugiu à regra: apesar de seu espantoso talento musical, seu caminho rumo à originalidade foi pautado por influências, mimetismo e apropriações.
O
Concerto Para Piano nº 5 KV 175 é considerado pelos estudiosos a primeira obra original de Mozart no gênero — aquela em que desponta a sua inconfundível identidade como compositor. Mas é no
Concerto nº 9 KV 271 que a genialidade de Mozart se anuncia de forma inequívoca e arrebatadora. Escrita aos 21 anos de idade, a peça — que faz parte do miniciclo de concertos de Mozart desta temporada da Osesp — não só revela a ousadia experimental e a disposição a correr riscos de Mozart, como inaugura uma nova época na música de concerto.
Durante muitas décadas, o
Concerto nº 9 foi conhecido como
Jeunehomme, por ter sido dedicado a um jovem pianista cuja identidade nunca foi revelada. Em 2004, o musicólogo austríaco Michael Lorenz propôs tratar-se de Victoire Jenamy, filha de um dos melhores amigos de Mozart e excelente pianista. A partir de então, o concerto também passou a ser chamado de
Jenamy.
Além das inúmeras inovações formais e estilísticas — como a proeminência dada aos instrumentos de sopro e a inédita paridade dialógica entre piano e orquestra, rompendo a tradição de mera subordinação do acompanhamento feito pela orquestra ao fio melódico executado pelo solista —, o arrepiante segundo movimento (“Andantino”) da “Eroica de Mozart”, como chegou a ser apelidado o concerto, assinala um momento da mais intensa e profunda expressividade dramática e reflexiva que a música pode alcançar.
A audácia teve o seu preço. O editor parisiense de Mozart, que havia publicado algumas de suas sonatas para violino e piano, recusou-se a publicar o
Concerto nº 9 por julgá-lo pouco comercial, ao passo que parte da crítica considerou o segundo movimento demasiado longo e difícil. (Lembro aqui o alerta do poeta Jean Cocteau: “Precisamente àquilo pelo que vierem a reprová-lo devote todo o cuidado — é você”.)
O melhor, entretanto, ainda estava por vir. Ao transferir-se para Viena, em 1781, e tomar as rédeas de sua vida pessoal e profissional, desafiando a tutela do pai ao casar-se sem sua permissão e largando a condição de empregado subalterno na corte do príncipe-arcebispo de Salzburg, Mozart comprou a sua carta de alforria e tornou-se o primeiro grande compositor a tentar viver diretamente da relação com o público como
freelance. É precisamente nesse momento que tem início a assombrosa tempestade de inspiração da qual resultam, em vertiginosa sequência, as obras-primas da maturidade.
O milagre que nasceu em Salzburgo floresceu em Viena. Ao trocar o mecenato pelo mercado, Mozart conquistou maior liberdade expressiva, chamou a si a responsabilidade pelo seu futuro como criador independente e elegeu o concerto para piano como gênero preferencial para se afirmar na nova fase. A aposta vingou para além da mais audaciosa expectativa. Em apenas cinco anos, entre 1782 e 1786, ele compôs nada menos que quinze concertos para piano, de primoroso apuro e prodigiosa vitalidade, entre os quais não seria talvez impróprio destacar, pela majestosa simplicidade,
páthos dramático e inigualável beleza, os
Concertos nº 20 KV 466 e
nº 24 KV 491.
Os desafios de provar-se a si mesmo na capital imperial e conquistar a adesão do público para o seu trabalho, cativando tanto os entendidos como os simples amantes da música, levaram Mozart a buscar um novo equilíbrio e uma nova abrangência em sua produção musical. Como ele mesmo relata em carta de 1782 ao pai, referindo-se a três concertos recém-terminados (
nº 11 KV 413,
nº 12 KV 414 e
nº 13 KV 415):
“Esses concertos são um meio-termo feliz entre o que é fácil demais e o que é demasiado difícil; são muito brilhantes, agradáveis ao ouvido e naturais, sem ser insípidos. Há trechos aqui e ali dos quais só os connaisseurs podem extrair satisfação; mas esses trechos estão escritos de tal modo que os menos entendidos não podem deixar de ficar satisfeitos, embora sem saber por quê [...] O meio-termo justo da verdade em todas as coisas não é mais conhecido ou apreciado. Para ganhar aplausos, devemos escrever coisas que são tão inanes que um cocheiro poderia cantá-las, ou tão ininteligíveis que agradam precisamente porque nenhum homem sensível pode compreendê-las.”
Embora a tentativa inicial de vender cópias de partituras originais por assinatura não tenha logrado o retorno esperado, Mozart obteve enorme êxito artístico e financeiro ao lançar-se como solista de suas novas composições para piano e orquestra em concertos para o público vienense. Ao esforço bem-sucedido de encontrar “o meio-termo justo” entre a inanidade e a ininteligibilidade, devemos a milagrosa sucessão de obras-primas dos anos áureos da maturidade — composições dotadas do dom do eterno viço e capazes de encantar e comover os amantes da música até nossos dias.
A vida oprime, o som liberta. Na
Metafísica do Belo (1820), Schopenhauer afirma que “a música é um exercício oculto de filosofia, no qual a mente não sabe que está filosofando”. Para além do prazer sensível e da dimensão estética, a arte de Mozart expressa como nenhuma outra os valores e os ideais do iluminismo europeu do século xviii — “o vislumbre de um mundo melhor”, no dizer de Schubert. Sua arquitetura límpida e harmoniosa infunde no ouvinte a crença na existência de uma ordem cósmica benigna e confere ao inevitável um elemento de esperança.
“Beethoven criava sua música”, comentou o físico Albert Einstein com perspicácia, mas “a música de Mozart é tão pura que parece estar presente no universo desde sempre”, como se tivesse sido emprestada em vez de composta, como se tocasse a si mesma com a inexorabilidade de uma lei natural. A vibração pulsante e a perfeição melódica dos inigualáveis concertos para piano de Mozart traduzem, aos meus ouvidos, a ideia de um universo bom: o amor que move as estrelas feito som.
Eduardo Giannetti, filósofo e economista, é autor de
A Ilusão da Alma (Companhia das Letras, 2010), entre outros livros.
Texto publicado na Revista Osesp Agosto 2012 (edição nº 5, 2012)