A Temporada de concertos da Osesp na Sala São Paulo oferece programas sinfônicos, divididos em séries com nomes de árvores brasileiras e que contemplam o repertório tradicional de orquestras, composições pouco conhecidas ou mesmo inéditas, além de obras de compositores brasileiros. Salvo exceções, esses programas são apresentados às quintas e repetidos às sextas e aos sábados da mesma semana.
Também fazem parte da Temporada Osesp, concertos a preço popular, matinais gratuitos, ensaios abertos e concertos de câmara com convidados e músicos da Orquestra e do Coro da Osesp e que formam as séries Um Certo Olhar, Recitais Osesp, Quarteto Osesp, Série Coral e Série de Câmara.
Em 2013, a Temporada da Osesp homenageia a Sagração da Primavera, obra de Igor Stravinsky que completa cem anos.
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TEMPORADA 2013 - SAGRAÇÕES DA PRIMAVERA
Original e misteriosa, poderosa e sexy, a jovem senhora, quem diria, chega aos cem anos de idade. Foi no dia 29 de maio de 1913 que estreou A Sagração da Primavera (Le Sacre du Printemps) no Théâtre des Champs-Elysées, em Paris. Composta para os Balés Russos — então a mais célebre das companhias, que já havia encomendado O Pássaro de Fogo e Petrouchka ao mesmo Stravinsky — a Sagração nasceu sob apupos e aplausos, assumindo desde logo a condição de emblema da modernidade.
Ao longo dessa Temporada, a Osesp se nutre da Sagração direta e indiretamente. Diretamente, nos quatro programas do ciclo Sagração 100, que incluem duas estreias brasileiras — o Sacre du Sacre de Marlos Nobre e as Cinco Canções Sobre Poemas de Vinicius de Moraes, de João Guilherme Ripper, homenageando também nosso centenário poeta —, além de apresentações da própria Sagração, em versão para dois pianos (no dia do centenário) e para orquestra (na última semana do ano, com a Orquestra regida por Marin Alsop); vale a pena ressaltar o programa especial na semana do centenário, com obras compostas em 1813, 1913 e 2013.
Indiretamente, bebemos do espírito de energia e renovação que não só define a obra-prima de Stravinsky, mas colore de conotações a palavra “primavera” em si. Nossas sagrações acenam, por um lado, para os sentidos poéticos, para não dizer ecológicos do termo; mas também para o significado histórico de resistência ao arbítrio e renovação da ordem das coisas associado a movimentos como a “Primavera de Praga” (1968), e a “Primavera Árabe” em curso, para ficar nesses dois exemplos.
“A primavera é quando ninguém mais espera”, diz o verso inicial da canção “Primavera”, composta por Zé Miguel Wisnik para uma montagem de Hamlet, há exatos 20 anos, reinaugurando o Teatro Oficina de Zé Celso Martinez Corrêa. A confluência de fatores em torno a essa reestreia, dando o pontapé inicial para uma das mais extraordinárias sequências de obras teatrais brasileiras ao longo dessas últimas duas décadas, renascendo com tudo e contra tudo, depois de anos de censura e exílio, bem poderia servir de ilustração para tantas outras histórias de reconstrução cultural no Brasil. A começar pela própria Osesp, que já viveu várias primaveras desde sua fundação em 1954.
Ninguém duvida de que estamos vivendo um período muito especial. Para além da consolidação do novo modelo de gestão implantado pela Fundação Osesp, sempre com apoio da Secretaria de Estado da Cultura, vale a pena citar pelo menos quatro fatos de caráter histórico para nós, todos eles de menos de um ano para cá. A começar pela chegada da nova regente titular, Marin Alsop, que termina seu primeiro ano acolhida como líder e parceira da Orquestra. A continuar pelo lançamento dos primeiros CDs pelo selo Naxos, dando início a ciclos completos das sinfonias de Prokofiev (regidas por Marin) e Villa-Lobos (regidas por Isaac Karabtchevsky). Some-se a isso a turnê europeia em agosto de 2012, que nos levou pela primeira vez ao festival BBC Proms de Londres e ao Concertgebouw de Amsterdã, com extraordinária repercussão de público e de crítica. E ainda o Festival de Inverno de Campos do Jordão, que volta a ser dirigido pela Osesp, com as melhores expectativas depois dessa bem sucedida 43ª. edição.
A Temporada 2013 terá 36 semanas de concertos de assinatura: 33 da Osesp, uma do Coro da Osesp, mais duas semanas de convidados, sem falar nas dezenas de concertos de câmara, nos concertos a preço popular e matinais gratuitos, nas apresentações ao ar livre e nas gravações. Mais de 85 regentes e solistas estarão à frente da Orquestra, dos Coros e dos conjuntos de câmara da Osesp.
Para além das oito estreias de compositores brasileiros (sete delas encomendas nossas) teremos o privilégio de apresentar a estreia latino-americana de uma obra orquestral de Lera Auerbach, encomenda da Osesp em parceria com a Staatskapelle Dresden. Auerbach será a Compositora Visitante este ano, encabeçando uma prestigiosa e variada lista de autores contemporâneos, que vai de Witold Lutoslawski — o Compositor Transversal da Temporada — aos já citados Marlos Nobre e João Guilherme Ripper; de Luciano Berio e Osvaldo Golijov a Kalevi Aho e John Adams, de Almeida Prado e James MacMillan a Bernd Alois Zimmermann, Guillaume Connesson e Heinz Holliger (com a presença do próprio).
Cabe ressaltar ainda a possível estreia mundial, até onde se sabe, de um concerto para piano de Leopold Kozeluch, composto em fins do século 18 ou início do 19, e presenteado à Imperatriz Leopoldina — concerto cuja partitura foi encontrada na Biblioteca Nacional e que terá sua primavera agora, graças aos esforços do musicólogo Manoel Corrêa do Lago e da pianista Sonia Rubinsky (sem falar na Orquestra de Câmara da Osesp e no regente Cláudio Cruz).
Dando sequência ao programa de Artista em Residência, inaugurado em 2012 por Antonio Meneses, desta feita teremos a contralto e regente francesa Nathalie Stutzmann, que fará dois programas com a Orquestra — um como solista, o outro como regente, além de um recital, um programa com o Quarteto Osesp, um encontro na série “Música na Cabeça” e uma masterclass.
Os programas educativos da Fundação Osesp devem trazer nada menos do que 120.000 crianças e adolescentes à Sala São Paulo, juntamente com cerca de 900 professores, das redes pública e privada. Nessa área, vale destacar a continuidade da Academia Osesp, bem como os projetos de edição e publicação de partituras do nosso Centro de Documentação Musical (com a editora Criadores do Brasil), os programas de difusão pela Rádio e TV Cultura, as entrevistas recolhidas no novo Acervo Osesp de História Oral, os materiais disponibilizados no site e nas redes sociais, as palestras da série Música na Cabeça e as aulas antes de cada concerto da Orquestra, na série Falando de Música, sem falar nas edições mensais da Revista Osesp, que incluem ensaios originais e traduzidos, além de notas de programa.
A PRIMAVERA É QUANDO NINGUÉM MAIS ESPERA...
... e pode durar pra sempre, se falamos na dimensão da aventura humana, para além dos ciclos naturais. Não é esse afinal nosso esforço, a cada concerto, cada semana, cada temporada? A cada vez que a música começa, faz-se outro tempo e criam-se sentidos, para renovar a ordem das coisas. Para todos nós, que gostamos de música, seria impossível a vida sem essa renovação. Na ecologia dos afetos, a música parece mesmo a condição de fundo, que nos cabe cultivar sem fim.
Nesse espírito, o poeta Carlos Drummond de Andrade — cujo centenário foi comemorado em 2012 — pode agora anunciar por nós a nova Temporada, consagrando para sempre a primavera:
Que se passa na terra? Nada. Apenas uma visita. Aqui, ali, às vezes fora do tempo, ou talvez contínua, porque em nossa desordem e riqueza de jeitos terrestres nunca sabemos ao certo quando ela veio, quando se foi, se vai demorar, se tomou o lugar de outras visitas menos deliciosas, se a temos em redor, se está só nos livros, ou se habita principalmente a nossa fantasia.
Uns a nomeiam primavera. Eu lhe chamo estado de espírito.1
Arthur Nestrovski é o diretor artístico da Osesp.
1 “Visita”; em Fala, Amendoeira (1957; reed. São Paulo: Companhia das
Letras, 2012); p. 81.